Para o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, os medos de se relacionar e o da violência urbana são os que mais afligem as mulheres

o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, diretor da Associação Brasileira de Especialistas em Situações Traumáticas (ABREST)
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o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, diretor da Associação Brasileira de Especialistas em Situações Traumáticas (ABREST)
Conversamos com o psiquiatra e psicoterapeuta Eduardo Ferreira-Santos, autor do livro “Reféns do Medo” (editora Ediouro) e diretor da Associação Brasileira de Especialistas em Situações Traumáticas (ABREST), sobre violência urbana, transtorno do pânico e o medo de relacionamentos. Leia a entrevista a seguir.

iG Existem vários tipos de medo?
Eduardo Ferreira-Santos Sim. É preciso diferenciar o medo da fobia. Primeiro, existe o medo natural, que é a reação ao que de fato nos ameaça, como, por exemplo, um assaltante ou um animal feroz. Depois, tem a fobia, que são os medos completamente disfuncionais, de situações que não oferecem riscos. Um exemplo é o medo de barata ou de borboleta. No meio do caminho, entre um e outro, existe o medo imaginário, que é colocar sobre determinadas situações um medo fantasioso, como o medo do escuro, do desconhecido, do futuro. De alguma maneira, nessa situação, a pessoa está projetando medos e angústias internas.

iG Qual é o maior medo feminino hoje?
Eduardo Ferreira-Santos
Com base nos meus atendimentos, acho que é o de relacionamentos, algo cada vez mais comum entre as mulheres. Este medo fica justamente no meio do caminho entre o medo fantasioso e a fobia. Acredito que há uma dificuldade grande de estabelecer relações, um medo da entrega e do relacionamento acabar. Em geral, nesses casos, a pessoa tem uma fragilidade enorme, que faz com que ela deposite no outro expectativas enormes, como se a pessoa fosse capaz de atender todos os desejos imaginados. Com medo do abandono, de não ser completamente correspondida, muitas mulheres acabam ficando sozinhas.

iG Nesses casos, a mulher nem chega a iniciar o relacionamento?
Eduardo Ferreira-Santos Muitas vezes ela nem começa por medo do abandono, quando ela percebe que determinada situação pode evoluir para um relacionamento afetivo, começa a fugir, sofre e fica solitária. Ampliado um pouco, este é um medo de viver uma relação enquanto ela for boa e durar, sem fazer tantas expectativas. Mas o raciocínio que o inconsciente acaba fazendo é terrível: ‘é melhor eu ficar sozinha do que ser abandonada depois’. O abandono e a rejeição têm uma conotação emocional muito grande. Se isso está no inconsciente, a mulher pode inventar artefatos para que a relação não dê certo, para se proteger, ou seja, ela já entra blindada no relacionamento.

iG Facebook, Twitter, Orkut, tudo isso não ajuda as pessoas a se relacionarem mais facilmente?
Eduardo Ferreira-Santos
Sim, mas apenas de certa forma. Essas ferramentas ajudam quebrando a tensão do primeiro encontro e também auxiliam quem não gosta de badalação, daquele jogo paquera etc. Mas para as mulheres que têm medo de ser relacionar, as ferramentas virtuais podem criar ainda mais expectativas falsas, já que as pessoas nunca se mostram como elas são e há uma tendência em exagerar o lado positivo. Depois, quando a mulher se dá conta e se decepciona, ela acaba criando uma crença de que as relações não valem a pena. Parece que há um componente psicológico nas mulheres de “ter que” continuar em relações desagradáveis, que não agregam nada, achando que precisam manter aquilo, custe o que custar.

iG Sentir medo é positivo em alguma situação?
Eduardo Ferreira-Santos É, quando ele é proporcional, funcional, quando ele está relacionado a uma ameaça real. No relacionamento, isso significa ter medo de um parceiro agressivo, ciumento, nestes casos, o medo é um sinal de alerta, de que a pessoa precisa se proteger e sair daquela situação.

iG As pessoas estão mais medrosas hoje?
Eduardo Ferreira-Santos
Sim, estão mais assustadas por causa da violência urbana e da insegurança social. Tenho percebido as pessoas menos ousadas em relação à vida. A violência urbana é um grande problema, as pessoas ouvem histórias de gente que saiu para ir ao cinema e sofreu um seqüestro relâmpago, essas coisas entram no nosso inconsciente. Existe, então, um coletivo de ameaça, muita coisa que era só risco, como o de ser assaltado, de ser seqüestrado, vira uma ameaça. As pessoas têm medo de sair porque acham que aquilo de fato vai acontecer. O medo urbano está em todo o lugar e é reforçado a cada momento por experiências de pessoas próximas, todo mundo conhece alguém que já viveu alguma violência urbana.

iG Esse medo urbano pode ser a origem do aumento de casos de transtorno do pânico?
Eduardo Ferreira-Santos Pode. Mas há também uma outra possibilidade. Por volta dos oito meses de idade, o bebê consegue identificar quem cuida dele e, na ausência dessa figura de proteção, a criança pode chorar e entrar em desespero, em um quadro de pânico mesmo, isso é conhecido como angustia da separação. Pode ser que esta grande quantidade de pessoas que têm hoje o transtorno do pânico, apelidado de síndrome do pânico, esteja relacionada à fase em que as mulheres, as mães dessas crianças, saíram de casa para trabalhar fora. O transtorno tem uma origem clínica, mas também parece ter um componente psicológico. Então, há a possibilidade desta angustia da separação, que coincide com o momento em que as mães saíram de casa para trabalhar fora, ter gerado filhos que sofrem do transtorno hoje, aos 30 e poucos anos. Mas isso ainda é apenas uma hipótese.

i G O que caracteriza o transtorno do pânico?
Eduardo Ferreira-Santos Ele é um quadro que se caracteriza por seguidos e repetidos ataques de pânico, situações em que não há nenhum fator desencadeante. A pessoa, do nada, começa a se sentir mal fisicamente, com sintomas respiratórios e cardíacos e tem uma vivência de morte eminente. Isso acontece repetidamente, sem nenhuma constatação real de problemas físicos. Agora, nada impede que uma pessoa, frente a uma situação de mais estresse, como um emprego novo, um exame, um término de namoro, tenha um ataque de pânico. Isso não significa que ela tenha o transtorno, neste caso, é o limite da ansiedade que se rompeu. No pânico, a ansiedade, expectativa e medo não aparecerem como sentimento, aparecem como transtorno corporal. Um ataque de pânico isolado não caracteriza o transtorno do pânico.

iG A mulher é mais ansiosa do que o homem?
Eduardo Ferreira-Santos
Não, mas ela manifesta mais, o homem tende a disfarçar. É claro que conta também as alterações hormonais na mulher, que podem influenciar no humor e na ansiedade. Outro fator é que a mulher está mais sujeita à violência urbana e mais exposta à violência sexual. Todos nós vivemos um momento social difícil, em um constante estado de tensão. Vamos dizer que a tensão varie de 1 as 10, a gente já vive no número 5 normalmente. A mulher mais tranqüila, então, está neste nível, ou seja, já anda sempre com o vidro do carro fechado. Só que para algumas, a tensão pode passar dos limites suportáveis e virar um problema.

iG Quando perceber que o medo virou um problema?
Eduardo Ferreira-Santos A pessoa segura é aquela que reconhece a sua insegurança, sabe de sua vulnerabilidade, de seus pontos fracos, é aquela que tem um certo domínio de si mesmo. Estamos em um mundo que exige cuidado para viver, não dá para sair por aí achando que somos invulneráveis. Há riscos, mas esses riscos não são necessariamente ameaças, e o importante é a pessoa perceber que, no momento em que ela transforma os riscos em ameaças, de uma forma imaginária, precisa procurar ajuda. Ou ela tem alguma disfunção química ou está fazendo um deslocamento de alguma angústia.

iG Há confusão entre insegurança, ansiedade e medo?
Eduardo Ferreira-Santos Sim, eles se confundem sempre. Ninguém fala: ‘estou insegura’, a pessoa fala ‘estou com medo’. O medo é quando existe uma ameaça, a ansiedade é uma espera, ela eleva a nossa dificuldade de percepção das coisas. Quando alguém, por exemplo, vai prestar um exame, isso gera ansiedade, aí entra no inconsciente dela todas as fantasias das coisas que vão acontecer se ela for reprovada neste exame. São situações em que o nosso inconsciente prega peças e, se você não tem o domínio ou não se conhece bem, pode acabar se deixando levar.

iG Como suportar uma situação de estresse?
Eduardo Ferreira-Santos O medo e todos os comportamentos humanos têm origem biológica, psicológica e o social. A essência do ser humano está no centro deste triangulo, onde cada parte tem igual importância. Às vezes, a pessoa é capaz de suportar uma situação de estresse de uma maneira melhor, existem pessoas que são resilientes, que enfrentam situações de dificuldade e aprendem com esses traumas. O ideal é conseguir transformar a vítima em sobrevivente e a ferida em cicatriz.

iG Qual é a solução para levar uma vida sem tantos medos?
Eduardo Ferreira-Santos Ter um bom autoconhecimento ajuda muito, já que você consegue trabalhar melhor as emoções, não fica à mercê do inconsciente, que não tem lógica, não distingue o certo do errado e pode acabar deixando você escrava de uma determinada situação. O inconsciente dá respostas estereotipadas, sejam elas negativas ou positivas. Então, a questão é ter noção dos limites e alcances, usufruir a liberdade, viver a vida. Tem um mito que ilustra bem isso: é a história de Ícaro, que recebe o aviso de seu pai para não voar muito perto do sol e nem da água. Ele não segue o aviso e acaba voando perto do sol, derretendo a cera que prendia as suas asas. Ou seja, as pessoas têm todo esse espaço para voar, entre o céu e o mar. O ideal é viver a vida dentro dos limites que toda a liberdade oferece. Não precisa ter medo, basta ter cuidado.