Agir como se não houvesse mais ninguém à sua volta é tão ruim quanto se irritar com tudo o que os outros fazem

Hugh Laurie como o individualista e popular médico de
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Hugh Laurie como o individualista e popular médico de "House"
Nos dias de hoje, eles são provavelmente os dois personagens mais cultuados das séries televisivas americanas. Um notabiliza-se pela capacidade quase sobrenatural de solucionar casos médicos. O outro, prodígio da física, é um jovem que defendeu tese de doutorado ainda adolescente. Ambos têm inteligência admirável. E ambos representam, cada qual a seu modo, duas faces de uma mesma moeda: o individualismo exacerbado.

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Protagonista de “House” , o habilidoso doutor homônimo do seriado costuma lançar mão de expedientes condenáveis para descobrir qual é, afinal, a enfermidade a afligir o doente da vez. Interessam-lhe os mistérios – não os pacientes. E pouco se importa com o efeito violento que sua postura causa nos outros.

Já Sheldon, talvez o nerd mais carismático da atualidade, é a figura central de “The Big Bang Theory” , programa cômico sobre um grupo de amigos dedicados à ciência. É Sheldon o responsável pelos instantes mais apreciados da atração. E muito por conta de suas obsessões, de sua falta de vocação e vontade para tolerar as pessoas que lhe cruzam o caminho.

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São dois exemplos um tanto caricatos, figuras de ficção. Mas há neles traços e atitudes facilmente verificáveis no dia a dia do mundo real. Quem circula de transporte público por certo já viu – ou, pior, ouviu – alguém escutando música sem fone de ouvido. E não ligando para o incômodo de terceiros. O comportamento é característico de um individualista. De um individualista feito House.

Autonomia enganosa
Ao falar sobre esse hipotético e usual passageiro “infrator”, o psicólogo e professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) Antonio da Costa Ciampa cita a palavra “arbítrio”. “É a postura de cada um faz o que bem entende e não liga para ninguém. É arbitrário, ‘eu faço o que eu quero’. Seria uma coisa equivocada.”

Equivocada porque pressupõe uma percepção enganosa: a de que esse arbítrio simboliza alguma espécie de autonomia. É precisamente o oposto. Autonomia é a participação no estabelecimento das regras, nas discussões. E não uma disposição a agir sempre em acordo com o próprio desejo. “Tem um termo que alguns autores estão usando: ‘individualismo isolacionista’. Refere-se a quem não dá bola para os outros, quem está vivendo um período de muito incentivo do arbítrio, não da autonomia.”

Palavrões e narcisismo
Mas e a outra modalidade do individualismo que escapa um pouco ao controle, aquela do sujeito que se incomoda com exposições das individualidades alheias? No entendimento da psicóloga Fabiana Polettini, talvez possam existir aí traços de narcisismo. “A pessoa narcisista, mais egocêntrica, quer que a regra dela se aplique e os outros obedeçam”, avalia. Usualmente, ela prossegue, a origem está na forma como o indivíduo foi criado, o ambiente dentro de casa, na escola, na relação com os amigos, família. E não se trata somente de ocorrências na infância. “Isso tudo faz com que se desenvolvam determinadas crenças, o que leva a tipos de personalidade.”

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Há algumas semanas, têm repercutido notícias sobre prédios de São Paulo (SP) que dão multa moradores que falam palavrão nas suas quadras ou que vão às suas janelas xingar a esmo durante jogos exibidos pela tevê. Naturalmente, existe por trás disso uma tentativa de regular conduta por meio de reprimendas, de sanções financeiras. Mas elas podem fornecer argumentos e pretextos que vão ao encontro das manifestações do individualista intolerante.

E as normas influenciam também em espaços públicos. No final do ano passado, discutia-se uma série de proibições a impostas desde 2002 a frequentadores do Parque Buenos Aires, em Higienópolis, na capital. Não era permitido tomar sol de biquíni ou sunga, fazer churrasco, dentre diversas outras coisas. Uma nova portaria, mais liberal, foi então publicada. Não sem algum protesto da parte dos que julgavam inadequados os trajes de banho no espaço.

“Não dá para pensar essa ideia de individualismo sem pensar os modos de vida contemporâneos”, diz a Mariana Alvez Gonçalves, membro do núcleo carioca da Abrapso (Associação Brasileira de Psicologia Social). “Hoje em dia, se produz uma ideia de modo indivíduo de existência. Seria uma certa forma de ser, estar e sentir no mundo que fica encapsulada no ser individual.”

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Ela pondera, no entanto, que isso não é produção de uma única instância. Contextos sociais, econômicos, e inclusive a mídia, necessitam ser levados em conta. “A história do biquíni parece muito mais uma questão moralista até do que da discussão do individualismo. Na do condomínio, enxergo mais como forma de controle da vida.”

Via internet
A psicóloga Fabiana Polettini observa ainda que o tipo de vida que se leva hoje “incentiva o egoísmo”. Diante da competitividade, terminamos nos importando com ambições próprias, em vencer ao fim do dia. Algumas pessoas até sentiriam culpa. Já outras acreditam que a vida é mesmo assim – que a culpa é do mundo. “Podem ficar raivosas, e a raiva é um tipo de ansiedade”, diz Fabiana.

É claro que, por diversas vezes, quem escuta música sem fone de ouvido no metrô é só um adolescente que quer chamar atenção. Ele sabe que atrapalha, gosta de ser “diferente”. Tomá-lo necessariamente por individualista parece precipitado. Não sendo o caso, contudo, lá está alguém que se mostra à parte do que acontece ao redor. Alguém que, mesmo sem perceber, se coloca em situação de isolamento.

Existe uma sentença famosa e antiga: Dividir para reinar. “E o máximo da divisão é o cara que está isolado. Se cada um está isolado, quem tem o poder se mantém”, afirma Antonio da Costa Ciampa. Significa que o individualismo desmedido, seja ele qual for, tem efeitos que vão além do desrespeito ou da intolerância imediatos. “Na hora em que você está em contato com outro, você adquire uma força política que de outra forma não teria. A internet, por exemplo, permite ao indivíduo, nessa ação coletiva, fazer a diferença.” Em última análise, portanto, o isolamento tem como consequência a recusa em participar das decisões. Decisões que afetam o próprio individualista extremado, tenha ele consciência ou não disso.

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