Por que gostamos tanto quando as probabilidades nos surpreendem?

Coincidências podem ser reconfortantes
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Coincidências podem ser reconfortantes
Cristiane Cabral já havia deixado São Paulo para morar em Manaus e Blumenau, por conta do trabalho do marido. Agora, era a vez de seguir para o Rio de Janeiro, justamente quando os brasileiros assistiam atônitos na televisão à invasão dos morros pela polícia e o exército. Diante das circunstâncias, o medo tomou conta: “Achava que fosse viver em um carro blindado”. Para piorar, estaria mais uma vez longe da família e dos amigos.

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Hospedados em um hotel, ainda sem residência fixa, ela o marido resolveram procurar na internet alguma igreja próxima onde pudessem assistir a uma missa no fim de semana e seguiram para o local. Lá, Cristiane observou uma mulher que entrava um pouco atrasada. “Tive a nítida impressão de que ela era familiar e passei a missa inteira tentando descobrir quem era, até que comecei a enxergar ela sentada ao meu lado na sala de aula”. Silmara era seu nome. Duas décadas antes, tinha sido a melhor amiga de Cristiane na faculdade que cursara em São Paulo.

“Foi a primeira pessoa com quem eu falei no Rio, a minha primeira referência”, conta Cristiane. “Estava me sentido um peixe fora d'água, estava assustada, e ela me esclareceu muitas coisas, mudou completamente a minha visão das coisas. Foi como se Deus não podendo vir pessoalmente tivesse mandado ela”. Como se uma coincidência não bastasse, Cristiane ainda conta que a amiga morava ao lado do hotel em que estava hospedada, 20 anos após perder completamente o contato com Silmara.

Coincidências significativas raramente acontecem para uma mesma pessoa sucessivamente ao longo dos anos, como no filme “Forrest Gump – O Contador de Histórias”. Mas, quando ocorrem, podem transformar a forma como enxergamos a vida. E muitas vezes nem precisam ser tão grandes assim. Mas o que as coincidências significam? E o por que gostamos tanto delas?

Reconfortante
O cérebro funciona como um cientista: primeiro, cria uma hipótese a partir de informações que coletou do mundo ao redor anteriormente. Diante de uma situação semelhante, testa esta hipótese. Quando a realidade não condiz com o que a mente havia proposto, há estresse. Em outras palavras, a pessoa “entra em parafuso” até encontrar uma nova solução para aquelas informações. Neste sentido, como na vida, o cérebro lida pior com o erro, e associações – ou coincidências - que comprovem uma ideia são muito reconfortantes porque não requerem novas soluções.

“Temos ideias pré-concebidas e, quando uma informação do mundo cai no 'nosso filtro,' a gente entende”, afirma a psiquiatra Marta Ana Jezierski. Ela explica que o cérebro humano aprende por associações e quando uma pessoa percebe que certas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo, as informações se tornam “úteis”. “Coincidências acontecem, e têm explicação somente no pensamento mágico. A pessoa com transtorno obsessivo-compulsivo, por exemplo, tem este tipo de pensamento mágico e às vezes uma coincidência confirma isso”.

Quando as associações não indicam uma patologia – como a esquizofrenia, por exemplo, em que a pessoa tende a buscar e encontrar coincidências e associações absurdas -, podem servir como um recurso para acalmar os próprios sentimentos e sentir-se integrado ao meio.

Nada é por acaso?
Muita gente acredita que na vida nada é por acaso. Poucos, no entanto, levaram esta ideia a fundo. Quando Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica, escutava o sonho de uma paciente sobre um escaravelho de ouro, um besouro se chocou contra a janela. A partir da experiência, passou a trilhar uma série de análises e conversas com físicos que poderiam dar sentido a suas observações sobre arquétipos e inconsciente coletivo. Cunhou o termo “sincronicidade” e passou a estudá-lo com base em diferentes filosofias orientais.

“À tríade da física – espaço, tempo e causalidade -, Jung acrescentou este conceito, que é uma quarta condição a priori da experiência”, explica a psicóloga Regiane Canoso, especializada em psicologia junguiana. “Sincronicidade é um princípio de conexão acausal, em que tempo e espaço parecem existir apenas num continuum”. Ou seja, ocorre quando um evento do mundo exterior coincide significativamente com um estado mental, psicológico, de uma ou mais pessoas.

Isso quer dizer que situações que, em princípio, não apresentam uma relação de causa e efeito, são capazes de “despertar” nos envolvidos uma compreensão instantânea maior, como uma revelação – um “insight”. Assim, uma sincronicidade se difere de uma mera coincidência por não implicar somente na aleatoriedade das circunstâncias, e, sim, em um padrão.

O tema pode deixar mesmo psicólogos de cabelo em pé, porque, no fim das contas, a ideia até faz sentido – mas não pode ser comprovada. E também pode indicar outros caminhos.

Informação universal
Partindo de um “insight”, o psicanalista Ricado Fera escreveu o livro “A Escolha: A Ciência e a Tradição se Encontram” (Editora ESETEC), em que descreve algumas situações e sensações que teve durante uma viagem ao Peru. “Foi uma percepção direta de uma informação universal, de que várias tradições trataram da mesma coisa, apenas falando de forma diferente”, explica ele, para quem a aventura foi uma experiência transformadora. “A viagem, em si, durou oito dias, mas sua preparação foi em torno de 90, e para escrever o livro, na volta, uns 120 dias.

Fera diz que o acaso não existe. É apenas a sincronicidade de tudo e de todos. “É percebida em fração, erroneamente chamada de acaso ou coincidência”, ressalta. Sendo assim, a causalidade que se procura em coincidências significativas poderia somente ser percebida em um nível de consciência mais sutil do que a nossa “grosseira” percepção.

Mundo conspirando a favor
É difícil acreditar que existindo um “fio invisível” que conecta tudo e todos em diferentes espaços e tempos o homem algum dia entenda isso de forma racional. A física quântica, por exemplo, é uma área da Ciência que busca as explicações para eventos semelhantes sem relações de causa e efeito aparentes, mas os nossos conhecimentos acerca de muitas situações ainda são muito limitados. Contudo, para Ricardo Fera isso não nos impede de usar a sincronicidade a nosso favor.

“Se antes de emitirmos um juízo de valor, emitirmos pensamentos positivos e construtivos, abriremos percepções superiores de conexões entre fatos”, explica. A percepção da sincronicidade ajudaria, por fim, a escolher melhor.

Regiane acredita que o conhecimento maior acerca de nós mesmos e dos outros é uma situação por si só favorável. “Se trabalharmos um pouco mais nossa intuição, tão adormecida pela correria da modernidade e pela tirania da racionalidade, estaremos mais abertos para que ocorrências sincrônicas ocorram em nossas vidas”, ressalta a psicóloga. “É preciso ousar pela mutação, permitir que nosso casulo atinja seu objetivo e nos dê asas para voar”. Se tudo acontece com diferentes probabilidades, diz ela, a pergunta que se deve fazer é: quem determina as probabilidades?

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