Martha Rocha, primeira delegada a ocupar o cargo diz que “mulher não precisa de força física para fazer o trabalho bem feito

A missão da chefe de polícia é comandar 12 mil agentes da corporação
Isabela Kassow
A missão da chefe de polícia é comandar 12 mil agentes da corporação
Com 1,52 m de altura, a nova chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro reconhece que jamais desce do salto alto na hora de trabalhar. Martha Rocha também já avisou que calça comprida ela não veste quase nunca. Em seu armário, apenas vestidos e saias. Os cabelos, cortados na altura do pescoço, estão impecavelmente coloridos de castanho, com tons acobreados. As unhas nunca perdem a cor, mas no rosto a maquiagem é apenas nuance. Desde que ganhou os holofotes por ser a primeira mulher a assumir a chefia de polícia do Rio, Martha Rocha tem sido frequentemente questionada sobre a vaidade que diz ter “na medida certa”.

Leia também:
- Entrevista exclusiva: Chefe de polícia do Rio diz que sua arma é uma ‘caneta esferográfica’

Na véspera de tomar posse dedicou algumas horas do dia 17 de fevereiro para caprichar no visual. E foi até Ipanema, na zona sul, investir no modelito – um tailleur branco comprado em uma loja multimarcas discretamente abrigada em um edifício na Rua Visconde de Pirajá. A escolha foi rápida: a delegada “bateu o olho” na peça e a selecionou. Com o único pedido de que fosse ajustado às pressas para o dia seguinte – o da cerimônia. Trabalho mesmo ela teve com a escolha dos sapatos, pretos, que só foram comprados na quinta loja que visitou, na galeria Fórum de Ipanema, uma das mais chiques do bairro.

Mais vitórias que derrotas
Filha do meio de um casal de portugueses de uma aldeia de Trás-dos-Montes, criada na Penha, bairro do subúrbio do Rio, Martha torce pelo Vasco, embora reconheça que não entende nada de futebol.
A mulher mais poderosa da Polícia Civil do Rio afirma que antes de tudo é uma pessoa simples: valoriza a lealdade, não liga para roupas de marca, mora em apartamento na Tijuca – tradicional bairro de classe média na zona norte do Rio – e frequenta missa todos os domingos. Devota de Nossa Senhora da Conceição, solteira, e sem filhos, Martha acumula o mais alto posto da polícia investigativa carioca com os cuidados com um sobrinho de 18 anos, filho da irmã caçula, que está em sua companhia para fazer vestibular.

A trajetória de ascensão da delegada se mistura às bandeiras de causas femininas que marcam sua história. A primeira luta que travou quando entrou para a polícia foi pela construção de um banheiro feminino na 4ª DP (Praça da República), onde era a única mulher no plantão. Conseguiu. De lá para cá, registrou mais vitórias que derrotas.

Aos 51 anos, Martha foi alçada ao novo cargo após recente crise na Polícia Civil do Rio que culminou com o indiciamento de seu antecessor, delegado Alan Turnowski, por vazamento de informações em favor de policiais acusados de corrupção. Sua missão é comandar os 12 mil agentes que integram a corporação, garantir a lisura e melhorar a imagem da instituição. Ao justificar sua escolha, o secretário de Segurança Pública do Estado, José Mariano Beltrame, negou que a questão de gênero tenha influenciado (embora ela própria se assuma feminista): “Ela não assume o cargo por ser mulher, mas por uma história de 28 anos na polícia. Seu nome foi uma unanimidade”, afirmou em coletiva em meados de fevereiro.

Martha Rocha em seu gabinete: orquídeas dão o toque feminino
Isabela Kassow
Martha Rocha em seu gabinete: orquídeas dão o toque feminino
“A polícia me seduziu, não existe rotina”
Antes de virar chefe de polícia, a delegada Martha Rocha estudou em escola pública, foi professora primária e se formou bacharel em direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em busca de estabilidade, passou em um concurso para escrivã da Polícia Civil em 1983 (quando brigou pela implantação do banheiro na 4ª DP), mas só virou delegada em 1990.

Dois anos depois, Martha participou da implantação da Delegacia de Apoio ao Turismo (Deat). A partir daí, foi seguidamente convidada a “apagar incêndios”. Em 1993 assumiu o comando do Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE), em substituição ao delegado Élson Campello, acusado na ocasião de enriquecimento ilícito.

Outra pedra no caminho da delegada apareceu no meio de seu gabinete, em 1993, quando seu então namorado, e chefe de gabinete, delegado Inaldo Santana, foi preso ao tentar intermediar o pagamento de propina de bicheiros para o então corregedor. Na época, 14 policiais civis foram acusados, dos quais 11 eram delegados.

Apesar do constrangimento, Martha não se abalou. Considerada amiga do governador Nilo Batista, foi indicada por ele ao cargo de corregedora da Polícia Civil, em 1994, e assumiu a subchefia da corporação, em 1999. Em 2004, concorreu ao cargo de vice-prefeita do Rio (pelo PSB) na chapa do petista Jorge Bittar. Em 2006, tentou, sem sucesso, uma cadeira de deputada na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Até ser convidada para o mais alto comando da instituição, a delegada era a diretora geral da Divisão de Polícias de Atendimento à Mulher (Dpam).

Ao explicar a escolha pela carreira policial, ela afirma: “Tem que ser criativa, se adaptar às mais diferentes situações, porque não há rotina. Na polícia nenhum dia é igual ao outro”.

Fama de xerife

Martha não gosta que a Polícia Civil do Rio seja chamada de corrupta. “Não tenho dúvida de que recebo uma instituição com mulheres e homens valorosos. Peço a todos que tragam comigo o amor pela Polícia Civil”, declarou durante a posse.

Conhecida por gostar de metas, ela já estabeleceu algumas que deverão ser cumpridas por seus subordinados: a partir de agora, cada delegado transferido de unidade só poderá levar consigo 10% do seu efetivo. Também determinou que cada delegado terá a obrigação de relatar com êxito pelo menos 15 inquéritos por mês. E cada delegacia terá de fazer, pelo menos, uma prisão por semana. Policiais, em serviço, terão de ser sempre gentis, educados e “barbeados”.

Martha adotou medidas “duras”, que reforçam nos corredores da corporação sua fama de “xerife”. Entre elas, abriu mão dos PMs cedidos para as delegacias, que voltaram aos seus batalhões de origem. E, às vésperas do carnaval, cortou privilégios de policiais na Marquês de Sapucaí, onde desfilam as escolas. Ela devolveu à Liga das Escolas de Samba (Liesa), o camarote que era usado por familiares dos agentes que trabalham na passarela do samba. Ela justificou a medida afirmando que a prioridade da polícia no local é “trabalhar”.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.