Mulheres contam porque tomaram esta decisão e revelam como convivem com uma escolha ainda pouco aceita socialmente

“Não vejo o casamento como forma de selar um amor”

Rafaella Stallone:
Alvinho Duarte/Fotoarena
Rafaella Stallone: "muitos não entendem como e porque uma mulher da minha idade não quer casar ou ter filhos"
“Acho que casamento é a concretização do desejo de levar uma vida a dois, constituir família, selar um amor. É fundamental que haja cumplicidade, aceitação, paciência, admiração, companheirismo, criatividade, tesão e bom senso, entre uma série de coisas. Ao contrário do que podem pensar, não vejo o casamento como algo negativo. Simplesmente não o vejo como uma forma de selar um amor, acho que há outras maneiras de se fazer isso.

Não sei dizer exatamente quando, nem em que circunstâncias me dei conta de que não queria casar, mas acho que foi por volta dos meus 25 anos. Com a idade, fui me certificando disso e hoje estou mais certa do que nunca. Dizem que posso mudar de ideia um dia, e não descarto essa possibilidade, mas hoje é assim que penso.

Já perdi oportunidade de conhecer caras que talvez fossem bacanas por conta da minha posição. Grande parte deles, quando vai passando da faixa dos 30, já pensa em casar e ter filhos. Muitos não admitem e não entendem como e porque uma mulher da minha idade não quer casar ou ter filhos. Para mim, não casar não significa que não queira um compromisso sério. Só acho desnecessária uma oficialização formal. Prefiro um relacionamento moderno, em que cada um tenha sua casa, pois prezo muito minha liberdade e, consequentemente, não consigo me ver casada, chegando em casa todo dia com um homem exigindo atenção o tempo todo”.
Rafaella Stallone tem 36 anos, é administradora e mora no Rio de Janeiro


Vivian Carvalho:
Arquivo pessoal
Vivian Carvalho: "não troco minha liberdade por nada"
“É difícil querer um casamento que não seja tão bom como o dos meus pais”

“Os meus pais são muito felizes juntos, apesar de todos os problemas. Até hoje, mesmo com meu pai doente, eles namoram. Sem contar a lealdade, a fidelidade e todas essas coisas. Os meus avós são casados há 60 anos, mas andam de mãos dadas pela rua. Estes são os modelos de casamento que eu tenho, então fica bem difícil querer um casamento que não seja assim.

Não troco minha liberdade por nada. Eu não quero ter que dividir uma casa, contas ou a cama sempre com alguém. Geralmente os meninos se assustam comigo. Eu sempre ouço: “mas casar e ter filhos são sonhos de toda mulher!”. Eu não sei se atrapalha, mas a verdade é que estou sem namorar faz bastante tempo.

Minhas tias mais velhas sempre me olham torto. Meu avô já me disse que eu cheguei à idade da moça velha, daquela que não casa mais. O namorado de uma prima insinuou que eu poderia ser lésbica, como se as lésbicas não se casassem também”.
Vivian Carvalho tem 29 anos, é analista de qualidade e mora em São Paulo


“Nas minhas brincadeiras de casinha, eu morava sozinha”

Paula Baltazar:
Arquivo pessoal
Paula Baltazar: "minhas amigas desenhavam vestidos de noiva, pensavam nos nomes dos filhos. Eu simplesmente não me identificava com nada daquilo"
“Não acho estranho que as pessoas se casem; na verdade, o casamento é completamente normal, uma consequência padrão dos relacionamentos, ao menos na nossa sociedade. Apenas nunca tive esse desejo. Hoje, quando vejo amigos se casarem, ao me colocar na mesma situação, meus pensamentos são: falta de liberdade ou de privacidade.

Quando eu era criança, minhas brincadeiras, como as da maioria das crianças, eram uma imitação da vida adulta, ou como eu queria que ela fosse. Nessas encenações eu era uma jornalista, uma arqueóloga, professora ou médica... Basicamente variava de acordo com meus filmes ou séries favoritos, mas nunca era uma esposa, uma mãe de família. Minha casa imaginária era só minha. Na minha vida adulta, desde as brincadeiras, não tinha o marido ou os filhos.

Nessa época era uma coisa natural para mim, mas me dei conta realmente que não queria me casar quando os adultos começaram a fazer as perguntas de praxe, ou comentários do tipo: "quando você se casar, isso muda", ou "espere até ter seus próprios filhos". Só percebi que isso não era tão convencional quando começaram as conversas entre as amigas, aí eu soube que a maioria das meninas sonhava em se casar. Elas desenhavam seus vestidos de noiva, pensavam nos nomes dos filhos. Eu simplesmente não me identificava com nada daquilo.

Entre meus amigos e familiares sempre houve respeito por essa opção, mas entre as outras pessoas com quem preciso conviver, como colegas de trabalho ou pessoas mais velhas, a reação é sempre a mesma: basicamente me sinto como um dos casos do “Arquivo X””.
Paula Baltazar tem 34 anos, é desenhista e mora em Sorocaba, interior de São Paulo .


    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.