Um estudo norte-americano com militares dos sexos masculino e feminino analisou a saúde mental dos oficiais após combates

O estudo é pioneiro na análise de gênero entre os militares
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O estudo é pioneiro na análise de gênero entre os militares
Homens e mulheres militares expostos aos traumas da zona de combate passam pelos mesmos problemas de saúde mental e se recuperam na mesma velocidade, aponta um novo estudo norte-americano. A descoberta – a primeira a analisar o papel do gênero no estresse pós-combate – foi baseada em uma pesquisa respondida por homens e mulheres norte-americanos que combateram no Iraque e Afeganistão entre 2007 e 2008.

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O estudo tem dois destaques principais, de acordo com a autora Dawne S. Vogt, professora-associada de psiquiatria na Boston University School of Medicine. "Um deles é que mais mulheres do que nunca estão presentes em zonas de combate. Então, apesar de os homens ainda vivenciarem os traumas em proporções um pouco maiores, a diferença de exposição é relativamente pequena”, diz.

"O outro é o que sugere que as mulheres são tão resilientes quanto os homens no ano seguinte à volta do combate”, afirma Vogt said. "Essa descoberta é uma novidade, porque, historicamente, toda a literatura sobre traumas considera as mulheres mais vulneráveis. Mas, neste estudo, não é isso que se vê”.

Os pesquisadores ressaltam que a política oficial do Pentágono veta mulheres nas frentes de batalha direta, embora elas de qualquer forma sejam convocadas para situações de risco e combate. O veto oficial tem sido objeto de muito debate, apesar do fato de que, de acordo com o Departamento de Defesa norte-americano, 750 mulheres tenham sido mortas ou feridas em ação nas guerras do Iraque e Afeganistão desde 2009.

O estudo
Os autores do estudo entrevistaram uma amostra aleatória de 595 veteranos. O grupo era composto de 340 mulheres e 252 homens, e todos eles tinham voltado de suas respectivas zonas de guerra há cerca de um ano.

Os soldados homens eram, com mais freqüência, casados e com filhos, enquanto as mulheres eram, em média, três anos mais jovens e mais frequentemente pertenciam a minorias. Todos tiveram que responder se tinham disparado uma arma, atingido por um tiro e/ou testemunhado morte e ferimentos. Experiências pós-combate também foram analisadas, como manipular ou observar restos humanos e contato com prisioneiros.

Além disso, a pesquisa explorou o grau com que cada soldado temia por sua segurança e bem-estar, junto com as pressões e dificuldades do cotidiano. Os participantes também responderam sobre exposições a traumas anteriores aos combates e exposição a assédio sexual.

As respostas de cada soldado foram então comparadas ao seu desenvolvimento posterior de depressão, estresse pós-traumático, abuso de psicotrópicos e saúde mental em geral. Vogt e sua equipe notaram que, embora os militares do sexo masculino tenham sido um pouco mais expostos, a natureza traumática do grupo era bem similar entre os dois gêneros. As mulheres, em geral, tiveram um grau maior de estresse pré-convocação, e também mais incidentes de assédio sexual em serviço.

Em termos de experiência depois do retorno aos Estados Unidos, homens e mulheres parecem ter vivido os mesmos níveis de transtorno de estresse pós-traumático e depressão. A saúde mental em geral também foi equivalente entre os veteranos, apesar de o abuso de psicotrópicos ser mais comum entre os homens.

Os autores concluíram que soldados homens e mulheres parecem ser igualmente resilientes ao estresse e trauma do combate, pelo menos nos meses imediatamente seguintes à batalha.
"Uma implicação que eu acho que as pessoas devem prestar atenção é que as mulheres estão participando dos combates, mesmo que em níveis um pouco menores”, diz Vogt. "E portanto isso precisa ser levado em consideração quando elas voltam para casa, no sentido de cuidar da saúde mental delas”.

Repercussão
Para Keith A. Young, pesquisador do departamento de psiquiatria do Texas A&M Health Science Center no College Station, Texas, as descobertas estão dentro do que ele esperava.

"Não estou tão surpreso com o fato de que as mulheres oficiais vivam problemas mentais similares aos dos homens”, diz Young. “É claro que existe essa idéia de que as mulheres seriam mais suscetíveis ao transtorno de estresse pós-traumático. Mas acho que muitas das pesquisas anteriores não foram bem controladas e, na verdade, na maior parte dos experimentos com animais, são os machos que são mais suscetíveis. As fêmeas costumam ser mais resilientes”, afirma.

Young acredita, no entanto, que o que move o veto às mulheres nas frentes de batalha tem menos a ver com a vulnerabilidade psicológica e mais com o risco de abuso que prisioneiras de guerra possam sofrer. "De qualquer maneira, acho que a descoberta vai ajudar mulheres interessadas em seguir a carreira militar”, acrescenta.

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