Em pesquisa realizada com mulheres de áreas urbanas, mais da metade declarou confiar no parceiro - apesar de sofrer abuso

Pesquisa realizada em Toronto e Nova York apontou que mais de metade das mulheres que passam por situações de abuso no relacionamento ainda confiam em seus parceiros.

O estudo ouviu 611 mulheres que moram em áreas urbanas e têm baixa renda. 42,8% disseram ter sofrido abuso de seu parceiro no ano anterior à pesquisa. Dentre os tipos de abuso, o mais citado foi o psicológico. Em segundo lugar, vem o abuso físico e, por último, o sexual.

Apesar disso, 54% veem seus parceiros - ainda que tenham abusado delas - como confiáveis. E 21% acham que os homens com os quais se relacionam têm qualidades positivas significativas, como por exemplo "ser afetuoso".

Baseados nos resultados da enquete, os pesquisadores dividiram os homens abusivos em três perfis: o "confiável, mas abusivo", que representa 44% dos casos; o "positivo e controlador" (identificado em 38% das histórias) e o "abusivo perigoso" (18% dos casos).

Para Patricia O'Campo, diretora do Centro de Pesquisas do Hospital St. Michael, em Toronto, os resultados do estudo sugerem que é preciso estudar o problema da violência masculina a partir do ponto de vista feminino. "A importância de ouvir as mulheres não pode ser mais destacada - e precisa de aprofundamento", disse.

Para a socióloga e antropóloga Barbara Musumeci Soares, coordenadora do CESeC – Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro, o resultado não surpreende. "Se a mulher está em um relacionamento de violência e ainda não saiu dele, certamente vê pontos positivos no agressor. É possível ser perpetrador de agressões - psicológicas, físicas ou sexuais - e ainda ser um bom pai ou um bom provedor aos olhos da vítima", declara.

Na opinião da socióloga, o maior desafio dos programas de apoio às vítimas de violência é desenvolver políticas que sirvam para todos. "A violência física e psicológica é bilateral e acontece em todos os grupos sociais", diz. "Não se pode ter modelos esquemáticos unilaterais, dissociados das experiências reais, como acontece na lei vigente hoje, que criminaliza sem distinção - extremo oposto da lei anterior, que não tratava nenhum dos problemas de violência doméstica com a gravidade devida", conclui.

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