As histórias das mulheres que exercitam seu fascínio pela força praticando modalidades como strongman e levantamento de peso

Mãe, esposa, personal trainer e capaz de virar um pneu de 350 quilos. A capixaba Flávia Carvalho Bispo, 34 anos, nem imaginava que acharia divertido arrastar um carro, ou participar de uma corrida carregando uma tora de 30 quilos em cada braço. Ainda mais quando lembra o passado de gordinha. “Nunca gostei de academia. Um dia falei para meu marido, ex-fisiculturista, que queria fazer uma lipo para emagrecer. Ele pediu um ano para me treinar”. Ela seguiu à risca o treinamento e a dieta prescritos pelo companheiro e se apaixonou pelos treinos cada vez mais pesados.

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Da musculação de academia, Flávia passou, há 3 anos, para treinos de powerlifting, ou levantamento básico de peso. Recentemente, conheceu o strongman, esporte em que se usa força e técnicas para tombar pneus, suspender pesadas bolas Atlas ou correr carregando troncos de dezenas de quilos. A modalidade é recente no Brasil e ainda há poucos locais para praticar – toda a base de treino de Flávia vem do levantamento de peso. “Se eu tivesse isso no quintal ia me divertir todo dia. Meu desafio agora, além pegar técnica para levantar a bola Atlas, é puxar caminhão. Já puxei carro e caminhonete. Carro já é fácil demais”, se diverte. “Quando eu comecei, pensei ‘quero ficar forte’. Tanto os homens quanto as mulheres admiram a força. Isso vicia”, diz Flávia.

Críticas, ela diz que só recebe de uma ou outra mulher. “Meu marido adora, meu filho acha o máximo.” Mas afirma que ainda é mais difícil atrair mulheres para os esportes de força do que homens. “As meninas dizem que têm medo de espantar homens se ficarem mais fortes que eles. Ninguém se imagina puxando uma caminhonete ou fazendo um levantamento terra com 150 quilos num campeonato”.

Maria Moura da Silva, 37 anos, personal trainer, entrou “por brincadeira e curiosidade” no strongman. Como o marido também treina para a modalidade e já possui equipamentos, como os pneus. Junto com ela, praticam outros oito rapazes. “Estou pegando gosto pela modalidade, acho divertido. Como não tem mulheres competindo, é diferente”, afirma.Maria, que já faz treinos de força há 12 anos. “É uma modalidade compatível com um corpo feminino. Se tem poucas mulheres, não é nem por preconceito, mas falta de incentivo, falta de exemplos. É bonito a mulher fazer isso, dá uma adrenalina”, diz a cearense radicada em Minas.

A força é feminina
Se historicamente a força é associada aos homens, já há quem tente desconstruir o mito. A PhD em sociologia da ciência e recordista mundial de powerlifting, Marília Coutinho, faz um paralelo com o mito de Gaia, a deusa que os gregos associavam à Terra: criadora e acolhedora, mas capaz de criar maremotos e vendavais.

“Para mim, a força é transcendência. A força tem tudo aquilo que é mais essencialmente feminino - os arquétipos de deusas refletem isso. Não tem nada de violento nela, ser forte é ser pacífico. Poder gera mais agressividade do que a força. Se você é forte, controla a si mesmo.”

Contudo, há muitas barreiras a vencer ainda. “As mulheres são mais pressionadas a se engajar pela beleza, mesmo na hora de praticar uma atividade física”, afirma. “Uma mulher gastar muito da energia dela em algo tão social não é muito bem visto. Tanto que as portas de acesso ao esporte ainda são quase sempre técnicos, maridos ou companheiros.”

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Para Marília, há um grande espaço para mulheres nos esportes de força, por conta de características que podem atraí-las. “Levantamento de peso é meditativo, uma coisa de ir para dentro de si. Tudo que empodera, liberta. Mesmo um idoso é mais feliz se é forte, porque se torna independente”, diz Marília. “É condição sine qua non para ter paz. Sem falar na beleza: uma mulher fazendo supino [barra com peso erguida acima do peito] é bonito, é quase um balé.”

Supino é a especialidade da powerlifter Érica Batista Bueno
Arquivo pessoal
Supino é a especialidade da powerlifter Érica Batista Bueno
Levantar peso é o esporte que Érica Batista Bueno, 31 anos, escolheu, quase por acaso. “Eu fazia musculação como forma de fortalecimento para a ginástica olímpica, que sempre amei, mas tive que largar quando comecei a trabalhar e estudar ao mesmo tempo”, diz. “Até que meu namorado percebeu que meu desempenho no supino era acima do normal. Eu aumentava o peso com uma facilidade muito grande”, conta. Depois do bom desempenho logo na primeira competição, apaixonou-se. “Musculação eu achava repetitivo, mas depois de entrar no powerlifting, fiquei animada, porque você tem foco, tem uma meta. Comecei a gostar, criar o mesmo amor que eu tinha pela ginástica. Além disso, as competições permitem que você viaje e conheça outras pessoas”, diz Érica. “Força é algo interior, uma forma de mostrar para as pessoas o que tem dentro de você, o que você é.”

Preconceitos, ela garante que não enfrenta muitos. “Mas homem não gosta de treinar junto, porque bate no ego eu levantar mais peso do que eles. Onde eu treino já estão acostumados, mas se preciso treinar em outro lugar, eles não querem dividir o aparelho, por exemplo”, diz. Como muitas atletas, ela não pode se dedicar unicamente ao esporte. “De manhã, trabalho como recepcionista numa academia, treino à tarde e estudo Educação Física à noite”, diz Érica. Recém-chegada de um campeonato mundial de onde voltou com medalhas, ela conta que as atletas russas usam maquiagem até durante competições. “E ainda ganham! Acho que o segredo está na maquiagem”, brinca. “Nessa hora, eu nem penso se estou feia, bonita. Só quero levantar meu peso.”

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Vinda do atletismo, Ana Rosa Castellain, 26 anos, compete no levantamento de peso desde 2006. “Já no primeiro campeonato ganhei, bati record na minha categoria. Pensei: agora achei o esporte certo para mim”, afirma a atleta. “Eu só fazia musculação, mas dois dias antes do campeonato estadual, aprendi um pouco de técnica correta e participei. Nos testes, eu era sempre a mais forte, só perdia para três meninos. Hoje, é o que esvazia toda a agonia, esqueço todo o estresse. A cara está fechada, mas o coração esta voando.

Ana Rosa e outras atletas recebiam bolsas do governo que foram cortadas esse ano. “Sempre continuei trabalhando e treinando à noite. Fazer as marcas que eu faço hoje, com meu trabalho de diarista, é difícil. Meu braço às vezes não responde, cansado de esfregar o chão. Meu desgaste é grande, sempre vou treinar cansada”. “Como tranquei a faculdade, consigo ter um treino maior à noite”, afirma a Ana Rosa. Vaidosa, ela não abre mão de maquiagem leve e do cabelo em dia. “A gente já levanta peso, faz esporte masculino, se não tentar parecer mais mulher, complica. Meu pai brinca: tu vai para desfile de moda ou levantar peso?” O filho João Guilherme, de 7 anos, adora o esporte da mãe. “Ele vem para a academia, coloca um quilo em cada lado da barra e diz: quando eu crescer, quero ser forte como você, mamãe”, conta Ana Rosa, coruja.

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Também dividida entre a luta de braço e o trabalho como podóloga e designer de unhas, está Clélia Goulart, 32 anos. O Brasil é destaque nessa modalidade. “No feminino, somos a segunda melhor equipe do mundo! No geral, entre masculino e feminino, estamos em quinto.” Ela descobriu o esporte aos 13 anos, por acaso. “Vi atletas jogando e pedi para jogar. Eu pesava 90 quilos. Comecei a ganhar na categoria pesada e fui campeã. Levei a terceira colocação no meu primeiro mundial. Aí você encontra um estímulo: mexe com adrenalina, vicia”.

Clélia Goulart compete na luta de braço, esporte em que o Brasil tem destaque mundial
Jeff Binns
Clélia Goulart compete na luta de braço, esporte em que o Brasil tem destaque mundial
“Conciliar treinos e trabalho é um pouco complicado, porque dependo da agenda de clientes”, diz a atleta, que já terminou um relacionamento por conta do esporte. “E não me arrependo nem um pouco de ter deixado esse namoro. Para muitas mulheres, o primeiro ponto que impede contato com o esporte é medo de aumentar músculo. Se elas superam esse preconceito, arrumam um namorado que não gosta de academia porque ela vai conviver com outros homens”, afirma. “Se você se relaciona com alguém que não é da área, essa pessoa cobra exclusividade e afasta você dos treinos. A mulher que tem um marido que treina ou é técnico é sortuda.”

Para ela, a vaidade teve um papel-chave na descoberta do esporte. “Eu sou muito vaidosa. Eu era baleia mesmo e o esporte mexeu muito com minha autoestima. Eu era um patinho feio e conquistar os títulos faz as pessoas olharem para você pelo seu valor”, afirma. “Se eu não tivesse conhecido a luta de braço, seria uma pessoa obesa, procurando cirurgia de estômago”, diz a lutadora, que faz questão de passar batom e arrumar o cabelo nas lutas. “O treino é pesado, a competição é forte, então você aprende a ser forte e a não ser submissa”. Seja na delicadeza ou na luta, Clélia é dura na queda.

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