Lisbeth Salander e outras personagens femininas que valem seu final de semana

Lisbeth Salander, interpretada por Rooney Mara, na versão americana do filme Os Homens que não Amavam as Mulheres
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Lisbeth Salander, interpretada por Rooney Mara, na versão americana do filme Os Homens que não Amavam as Mulheres
Você não vai escapar de assistir a versão 'hollywood' do primeiro livro da trilogia 'Milennium', de Stieg Larsson, Os Homens Que não Amavam as Mulheres . O filme de David Fincher, o mesmo diretor de Seven e de Clube da Luta , estreia agora, dia 27.

Rooney Mara como a detetive Lisbeth Salander na versão americana de "Os Homens que Não Amavam as Mulheres"
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Rooney Mara como a detetive Lisbeth Salander na versão americana de "Os Homens que Não Amavam as Mulheres"
Não consigo imaginar dois filmes mais 'masculinos' do que Seven e Clube da Luta e confesso que justamente por isso fiquei curiosa para saber como o diretor vai tratar de Lisbeth Salander, principal personagem de Milennium , que, é um tipo bastante peculiar de mulher. No livro, ao menos, ela é descrita como uma criatura de aparência frágil, muito pequena, franzina, até, coberta de tatuagens e cheia de piercings, profundissimamente ferida na sua relação tanto com o feminino como com os outros. Justamente por causa dessa impossibilidade de se relacionar, vira uma superhacker, capaz de se infiltrar em qualquer computador do planeta.

A Lisbeth do cinema parece mais erotizada do que a do livro, onde é quase como uma menina que ela oferece o corpo machucado, tateando na expressão de um afeto quase impossível e permanentemente ameaçado.

Leio que Stieg Larsson queria que Lisbeth lembrasse 'Pipi, Meias-longas', personagem de uma série de animação sueca, da qual você talvez lembre: Pipi era uma garotinha de 9 anos, nada convencional, usava as tais meias longas coloridas, uma de cada cor, as tranças permanentemente desmanchadas, tinha uma força de superherói e adorava desafiar sobretudo adultos chatos. Ah, Pipi, feito Peter Pan, não queria crescer, não via vantagem nenhuma no mundo dos adultos!

Essa Lisbeth do cinema está sendo descrita na web como a expressão mais perfeito de um ícone feminista. Por paradoxal que isso possa parecer, há quem diga com igual vemeência que ela é só uma fantasia masculina de mulher desejável: fisicamente frágil, emocionalmente, uma criança, intelectualmente, um gênio indestrutível!

Prefiro imaginar Lisbeth como a versão adulta, sofrida, mas surpreendentemente aberta para a vida de Pipi, Meias-longas!

Personagens femininos fortes de fato alimentam a imaginação. E nesse início de ano, além de Lisbeth, me apaixonei pelas mulheres de The Help ( Histórias Cruzadas , em português). O filme de Tate Taylor é passado em Jackson, no Mississippi, em algum momento da década de 1960, o movimento pelos Direitos Civis prestes a eclodir, a tensão entre negros e brancos pairando feito nuvem de tempestade sobre as belas casas brancas do sul dos Estados Unidos.

Nesse cenário, as imagens são belíssimas, as conversas na hora do chá são amenas, risonhas e cruéis. Cruéis também parecem ser as mulheres de cabelos armados e jeito de 'barbie'. Para nós, parecem caricaturas, mas não são. Refletem o tal ‘espírito da época’, um jeito de estar no mundo nos anos 1960, onde a vida era feita para ser exibida e tudo que não se encaixava no modelo de família perfeita deveria ser devidamente varrido para baixo do tapete. Por uma empregada, claro, e negra!

É a história dessas empregadas negras ('the help', em inglês, poderia ser entendido aqui como 'serviçais') que Eugenia “Skeeter” Phelan (Emma Stone), jovem de 'boa família sulina' voltando feliz para sua casa branca depois de terminar a faculdade, resolve contar num livro.

Aibileen (Viola Davis) e Minnie (Octavia Spencer) são as primeiras a aceitar a proposta. E elas falam, e falam, de como ocupam o lugar de mães pretas de crianças brancas que um dia vão crescer e aprender a 'ter nojo delas', da revolta com os banheiros para negros, das humilhações, falam de submissão e dos afetos que se costuram e se cozinham em meio a tanta distância, falam de risos e de pequenas e grandes vinganças.

Vão tecendo essas falas e tecendo vão descobrindo seu rosto, sua força, sua petulância, seus talentos...

Preste atenção em Missus Walters, interpretada por Sissy Spacek, delícia de ‘velhinha’!

Mas você não vai passar o final de semana todo no cinema.

Por isso, saímos de Jackson, Mississipi, direto para Teerã, Irã, junho de 2009: às eleições fraudulentes, segue-se uma enorme manifestação de protesto. Um jovem desaparece. Sua mãe, Zahra, junto com seu irmão, vão procurar por ele nessa história em quadrinhos, escrita por dois rapazes que preferiram se manter anônimos e assinam apenas Amir & Khalil. Zahra é uma mulher treinada durante muitas gerações para ser submissa, conciliadora. E é assim que ela começa a procurar pelo filho. Mas os quadrinhos vão revelando outras Zahras, feitas de determinação e de uma inabalável convicção na força de seu amor de mãe.

Quando você começar a ler O Paraíso de Zahra observe como os cabelos de Zahra vão embranquecendo, veja como ela vai ocupando um espaço cada vez maior nos quadrinhos. Personagens se fazem em detalhes minúsculos e são detalhes minúsculos que compõe a vida das mulheres e que nos fazem reconhecer nelas um pouco de nós mesmas.

Para facilitar:

Millenium - Os homens que não amavam as mulheres ( The Girl with the Dragon Tattoo, 2011 )

Direção: David Fincher

Estreia: 27 de janeiro de 2012

Histórias cruzadas (The Help, 2011)

Direção: Tate Taylor

Estreia: 23 de março de 2012

O Paraíso de Zahra

Editora Leya

Amir e Khalil

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