Mãe de dois filhos, Dafna Michaelson decidiu passar um ano na estrada registrando perfis de pessoas que estão mudando vidas

Dafna na Golden Gate, cartão-postal
californiano:
Reprodução
Dafna na Golden Gate, cartão-postal californiano: "Sou apenas o fio condutor para contar histórias"
Dafna Michaelson já passou mais de 10 meses em uma viagem tão ambiciosa que chega a causar vergonha no pessoal que desenvolve guias de viagens.

Ela está ziguezagueando os Estados Unidos e, em cada estado que chega, com sua filmadora em punho, entrevista pessoas que estão trabalhando para tornar melhor a vida do próximo em suas comunidades.

Cada vez que volta para casa, no leste de Denver, aos finais de semana, as imagens em vídeo são carregadas em seu website , para mostrar estes norte-americanos que estão fazendo sua parte. E, segundo ela espera, encorajar outras pessoas a fazer o mesmo.

“Já consegui tanta coisa que nem sei por onde começar. Pessoas que conheci pelo país me inspiraram de uma maneira que até então eu julgava impossível. Sou apenas o fio condutor para contar suas histórias”, diz Michaelson.

Tem o imigrante curdo que foi recebido a cuspidas ao mudar-se para Sioux Falls, South Dakota, e hoje comanda um centro de diversidades na cidade. Tem o texano que presta serviços de voice-mail para pessoas que moram na rua. Tem ainda a mulher de Syracuse, Nova York, que ajuda a preparar o sopão que ela mesma já tomou no passado.

As sementes do projeto "50 in 52 Journey" foram semeadas em 2008, durante uma conversa com seu namorado. Ele perguntou o que ela faria se ganhasse na loteria. Sua idéia inicial era entrevistar os governantes da nação em relação aos desafios enfrentados por seus cidadãos.

Foi quando uma luz se acendeu em sua mente. “Porque não relatar histórias de pessoas que estão conseguindo resolver seus problemas?”, pensou Michaelson. “Se eu pudesse sair pelo país gravando estórias do cotidiano das pessoas que trabalham para ajudar o próximo, talvez isso servisse de inspiração para outros também fazerem sua parte”.

A partir daquela ideia ela criou a ONG Journey Foundation, dispondo de US$ 24 mil, e começou a angariar doações e fundos para financiar o projeto.

“Decidi que, se eu iria pedir dinheiro a outras pessoas, eu também teria de me dispor do meu”, disse Michaelson, nova-iorquina com mestrado em administração. No dia 31 de dezembro ela deixou seu emprego na Denver Health, onde era diretora de serviços voluntários e informações de pacientes, e pôs o pé na estrada.

Até o momento, ela já entrevistou mais de 300 pessoas em 42 estados e no Distrito de Columbia. Há algumas semanas ela estava em Iowa. Depois, tomou um voo para Rhode Island. O Colorado é a parada final de sua viagem de um ano pelo território americano.

Michaelson consegue a maioria das dicas sobre pautas futuras através de mídias sociais: Twitter, Linked-In, Facebook, Help a Reporter Out, dentre outras.

Antes de visitar cada estado, ela lança mensagens de email sobre o projeto, pedindo por indicações de pessoas que estão tentando impulsionar suas comunidades. É uma rede bastante ampla. “Depois disso, basta seguir estas direções”, disse ela.

Na Louisiana: Dafna já entrevistou mais de 300
pessoas em 42 estados
Reprodução
Na Louisiana: Dafna já entrevistou mais de 300 pessoas em 42 estados
Alguém como você
Michaelson já postou mais de 290 vídeos em seu website, a maioria deles com duração de 7 a 10 minutos. Os personagens são pessoas de 14 a 91 anos de idade e de uma infinidade de origens.

“Se você olhar no site, vai encontrar alguém exatamente como você”, disse ela. E esse é o diferencial do projeto: mostrar que você não precisa ter superpoderes para fazer sua parte. “Se nos sentimos capazes, é nossa a decisão de levantar a mão e nos oferecermos para ajudar”, disse ela.

Sua primeira entrevista foi com Bob Downing, presidente e fundador de liga esportiva de adultos em Wilmington, estado de Delaware. A liga apoia pessoas de todas as habilidades atléticas e faixas de renda e tem o objetivo de despertar novas amizades.

“A maioria dos adultos têm a tendência de pensar que já têm todos os amigos que precisam, mas eu acho que as coisas não são bem assim. Você nunca sabe o que pode estar perdendo”, disse Bob. Sobre a honra de abrir a série de vídeos de Michaelson, ele confessou: “Eu desapareço quando comparado ao trabalho de outros”.

“Esta mulher está chamando a atenção para as vozes positivas dentre de comunidades espalhadas por todo o país, e ela é uma dessas vozes”, disse Downing.

Maré de sorte
Michaelson parece estar em uma maré de sorte desde que começou as viagens. Claro que parte disso tem a ver com suas aptidões. Ela tem o dom de encontrar as pessoas certas e abordá-las com perguntas inteligentes. Mas o destino também tem colaborado. “O clima tem sido incrível. Mesmo no Alaska estava perfeito e eu consegui chegar a Washington D.C. exatamente quando as cerejeiras estavam em flor”.

Como as viagens sempre guardam surpresas, Michaelson também teve de passar por alguns momentos bastante constrangedores. Por duas vezes ele deixou as chaves trancadas no porta-malas do carro. Em Vermont ele fez uma manobra em cima de uma pilha de compostagem orgânica.

Seu trabalho não deixa de ser cansativo. Ela faz diversas entrevistas em cada estado, fazendo o odômetro de seu carro alugado trabalhar bastante. Ela fez uma viagem de 23 horas pelos estados de Carolina do Norte e do Sul. “No final eu estava exausta”, disse ela.

Para Dafna, o diferencial do projeto é mostrar
que você não precisa ter superpoderes para
ajudar os outros
Reprodução
Para Dafna, o diferencial do projeto é mostrar que você não precisa ter superpoderes para ajudar os outros
Mãe e viajante
Michaelson tem 36 anos e dois filhos: Gavi, a filha de 8 anos, e Eytan, o filho de 7. Ela geralmente está na estrada de quarta a sexta-feira. Nestes dias, seus filhos vão para a casa do pai, seu ex-marido. Ao voltar para casa Michaelson retoma seu posto de mãe.

É uma correria, mas ela acaba rendendo ótimos trabalhos escolares para seus filhos. “Tento tornar meu mundo e de meus filhos um pouco melhor. A viagem tem sido catártica, pois se posso encontrar e mostrar pessoas que estão resolvendo seus problemas, sinto que, de uma pequena maneira, estou cumprindo minha missão”.

Depois de praticamente 10 meses na estrada, o banco de memórias de Michaelson já está lotado com suas experiências pessoais de viagem. “Conheci algumas das pessoas mais incríveis que este país tem a oferecer”, disse ela.

Dentre os entrevistados, o sentimento é mútuo. “O que ela está fazendo é muito inovador”, disse Ebba K. Ebba, pediatra que vive no Alabama e está trabalhando na construção de um hospital infantil em seu país de origem, a Etiópia. “Somos uma pequena organização, mas ela está nos oferecendo uma enorme divulgação. E é um grande sacrifício para ela ficar longe de sua família. Entrevistar pessoas como nós não tem nenhum glamour, mas ela enxerga os fundamentos morais mais altos”.

O projeto já está numa fase mais tranquila, mas Michaelson pretende continuar o trabalho de sua fundação recém-criada. Seu objetivo no próximo ano: criar uma rede para conectar pessoas que estão lidando com problemas comunitários em determinado estado com pessoas que estão fazendo o mesmo em outra parte do país.

“Você consegue ter uma ideia de como os Estados Unidos são, e de quão grande nós somos. Com todos os problemas, existem pessoas maravilhosas neste país. Se nos juntarmos em um objetivo comum, seremos uma nação melhor do que nunca”, disse ela.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.