Papa aprova movimento que promove devoção a anjos e tem representações no Brasil. Mas alerta contra rebeldes

O comunicado do papa Bento 16 aprovando a Obra dos Santos Anjos e alertando sobre membros rebeldes não virou conversa de bar em Guaratinguetá (SP). Poderia. O catolicismo é assunto importante na cidade onde nasceu Frei Galvão, primeiro santo brasileiro, e onde, na época de vila, apareceu a imagem de Nossa Senhora que deu origem à cidade e à catedral de Aparecida, à sombra de onde está Guaratinguetá. Cercada de missões e obras religiosas, já recebeu até visita do atual papa, e em qualquer esquina algum representante dos quase 80% de guaratinguetaenses católicos diz ter algum amigo padre. Ainda assim, a carta divulgada pelo Vaticano na semana passada passou batido. Talvez porque poucos saibam que o mosteiro da cidade é um dos dois únicos no Brasil a abrigar o tal movimento.

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Estátua de anjo no Louvre, em Paris
Domingo Alberto Del Monaco Braga serve um ótimo feijão tropeiro na sua Gruta da Gratidão, onde vende também as obras de seu amigo padre Peixoto. Para comemorar o primeiro ano de seu estabelecimento, mandou celebrar aquela que acredita ser a primeira missa para os três pescadores que encontraram a imagem de Aparecida. Apesar de tanto envolvimento com o catolicismo e a região, Domingos nunca ouviu falar da Obra dos Santos Anjos. Conhece o Mosteiro de Belém, mas diz que os padres de lá não participam tanto da vida de Guaratinguetá. “São mais reclusos”, diz. O Bar do Nésio fica bem mais perto do mosteiro. Mas mesmo o atendente que teve seu casamento realizado por um membro do mosteiro afirma não conhecer a obra.

A Obra dos Santos Anjos é uma associação católica que nasceu da experiência mística da dona de casa austríaca Gabrielle Bitterlich. Ela escreveu mais de 80 mil páginas baseadas nas revelações que diz ter recebido de um anjo. Seus escritos abordam muitos temas do catolicismo, mas, principalmente, aqueles relacionados à devoção aos anjos. Aí começou a controvérsia. Alguns dos ensinamentos da “Mãe Gabrielle”, como é conhecida entre os devotos, falam de um mundo que é palco de batalhas espirituais entre anjos e demônios, cada um com funções específicas e nomes próprios que muitas vezes se aproximam dos usados por práticas consideradas supersticiosas para a Igreja Católica. “Essas revelações são revelações pessoais que de fato não são conforme os ensinamentos da Igreja”, diz o bispo de Petrópolis Dom Filippo Santoro e membro da Comissão para Doutrina da Fé da CNBB.

A partir de seu nascimento, em 1949, a Obra dos Santos Anjos passou por exames e ajustes do Vaticano. Para que seguissem católicos, deveriam banir o uso dos escritos de Gabrielle, as referências aos nomes de anjos usados por ela e o apego a práticas antigas de missa – “temos uma certa tendência a usar latim demais”, explica padre Basílio, prior do outro mosteiro brasileiro, localizado em Anápolis (GO). O último exame terminou em 1992, e determinou o início da verificação da adequação do movimento às normas estabelecidas. Enfim, no início deste mês, o veredicto: “graças à obediência demonstrada pelos seus membros”, o Vaticano considera que a Obra dos Santos Anjos está “serenamente” em conformidade com a Igreja.

Rebeldes

“O Vaticano reconhece que, no geral, esta orientação é positiva”, diz Dom Filippo. Mas a carta de aprovação traz também uma ressalva. O papa alerta contra membros do movimento, “inclusive sacerdotes”, que não aceitam abrir mão da fé na luta entre anjos e demônios e cuja atuação “é feita de forma muito discreta e se apresenta como se estivesse em plena comunhão com a Igreja Católica”. O bispo explica: “Do ponto de vista disciplinar, alguns membros continuam não seguindo as normas indicadas. É uma aprovação final que convida os bispos a serem vigilantes em relação a estes membros estranhos que não obedecem, porque podem ser fatores de divisão dentro da Igreja”.

Discreta é mesmo a palavra. Se existem membros “rebeldes” no Brasil, eles passam despercebidos. O arcebispo de Aparecida, Dom Damasceno, diz que não há nenhum problema com a casa de Guaratinguetá. “É um fenômeno bem limitado no Brasil”, reforça Dom Filippo. O prior do mosteiro de Anápolis faz eco: “É uma realidade que não existe aqui, acontece mais na Áustria, Alemanha e Colômbia”. A julgar pela repercussão em Guaratinguetá, os membros regulares também passam despercebidos.

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