Por que cada vez mais trintões não saem debaixo das asas dos pais?

Felix Lima
"Ela se sente menos sozinha, já que meus irmãos moram longe", diz Luciana Lopes Ramos, 38 anos
O tal sonho de ser dono do próprio nariz parece estar em segundo plano para muitos filhos. Aliás, é cada vez maior o número de pessoas que continua a viver na casa dos pais, mesmo depois dos 30 anos. Os motivos são muitos. As vantagens e as desvantagens também, inclusive para os pais, que ora não querem ver os filhos independentes, ora gostariam de ver o filho ganhar o mundo.

Dener Gomes da Silva, jornalista, de 35 anos, gostaria de ter seu canto, mas não foi possível ainda por dois motivos. “Em parte, fico por opção minha, pois ainda não tive condições para sair de casa. Mas também por causa da minha mãe, que vai ter um treco quando eu sair”, conta. “Gosto de morar com eles, mas já não me sinto tão à vontade. Aí reside outro problema: sou filho único, e todas as vezes que falei em sair de casa, minha mãe considera como se eu estivesse a abandonando”.

Já Rodrigo Rey, empresário de 32 anos, diz que sua mãe acha – e inclusive diz isso – que está na hora de ele casar. Mas o namoro ainda é recente (apenas dois meses) e, portanto, não dá para pensar nisso. E, para ele, mudar de casa vai acabar em casório. “Se você mora sozinho, a namorada passa os finais de semana lá, dorme alguns dias da semana, deixa umas peças de roupas... Quando perceberem, casaram”.

Abrir mão da mamata também é difícil. “A vantagem de morar com os pais é ter mais segurança, com menos gastos. Chegar e encontrar a casa sempre arrumada, roupa limpa e passada, jantar pronto”, lista ele.

Mas para Margareth dos Reis, psicóloga, viver com os pais não é tão cômodo assim. “A pessoa se mantém no papel de filho. Acaba não vivendo o papel principal nunca. Quando você sai de casa, assume outros papéis: pode ser o administrador da casa, o pai de família, o marido”, explica.

Algumas vezes, a escolha de permanecer sob a segurança dos pais pode ser o medo de assumir esses novos papeis, segundo ela. “Pode, também, sinalizar a dificuldade de afastamento, de assumir responsabilidades, o medo do contato com uma vida diferente e tudo aquilo que cerca essa nova vida”.

“Ela faz tudo”
A designer Luciana Lopes Ramos, 38 anos, não reclama da convivência com a mãe. “Na maior parte do tempo, é bom. Não somos muito grudadas, mas não temos desentendimentos, até porque eu não paro em casa”, descreve. Além disso, não abrir mão do conforto pesa bastante. “Ela faz tudo: cuida da casa e das contas”. Mas Luciana ajuda nas duas coisas e também considera a convivência importante para a mãe. “Ela se sente menos sozinha, já que meus irmãos moram longe e eu sou a única filha mulher”.

A falta de liberdade é o que mais incomoda a designer. “Tenho vontade de fazer reuniões com os amigos, mas é como se a casa não fosse minha. Parece que estou invadindo a propriedade de outra pessoa. Ela não se incomodaria, mas não me sinto à vontade”. Mesmo assim, mudar-se só passa pela cabeça de Luciana se ela for se casar. “Não vejo sentido em morar sozinha em um apartamento pequeno – que ficará vazio a maior parte do tempo – e minha mãe ficar só”.

A posição de Luciana parece bastante sensata – mas a psicóloga Margareth dos Reis alerta para o perigo do argumento de que é sempre preciso esperar algo para sair da casa dos pais. “Isso pode ter a ver com a necessidade de adiar esse momento. Podem ser pessoas que têm insegurança de que não conseguem sobreviver sem a proteção dos pais”.

Felix Lima
"Minha mãe vai ter um treco quando eu decidir sair de casa", conta Dener Gomes da Silva, 35 anos
Casa, comida e roupa lavada
Alexandre Ricciardi, assessor comercial de 39 anos, diz que a opção de morar com os pais é dele e não incomoda ninguém. “Ainda não tenho grana para comprar um apartamento. Não quero morar de aluguel. Na casa dos meus pais tenho condições de juntar dinheiro”, diz. E confessa: “Mesmo assim não sei se moraria só... Talvez teria a casa para encontrar amigos aos finais de semana, para ter mais liberdade”. E é claro que a mãe apoia. “Por ela, eu não sairia de casa nunca”.

Ele conta que a convivência familiar é muito boa, portanto, não há pressa. “Quem não gosta de ter roupa lavada, cama arrumada, comidinha pronta, gente para conversar e muita mordomia?”, pergunta. Mas a tal liberdade... “Acho que a maior desvantagem é não poder levar em casa quem você quiser, dar satisfação quando sai do trabalho direto para um happy hour ou andar peladão dentro de casa. Coisas simples, que não considero tão importantes a ponto de ir morar sozinho”.

Além dos filhos, a psicóloga lembra que muitos pais também têm dificuldade de se desligar e pressionam os filhos a ficarem. “As escolhas fazem parte da vida adulta. E muitas dessas escolhas não incluem a família toda. Permanecer na casa dos pais por pressão limita muito a vida, assim como é limitador achar que o filho é responsável pelo bem estar dos pais”, diz ela. Conversar, então, é a solução. “É preciso mostrar à família que o vínculo vai continuar e isso pode fazer muito bem para todo mundo”.

Mudança de gerações
Na opinião da psicóloga, a mudança na criação dos filhos tornou mais comum o fenômeno dos trintões que não saem do ninho. “Acho que essa é uma geração mais insegura. No passado, os pais criavam os filhos para se acertarem profissionalmente e serem independentes”, diz a psicóloga. “Houve uma mudança e os pais passaram a ser cobrados para proteger ao máximo e dar tudo que os filhos precisam”.

Por outro lado, Margareth afirma que se os filhos demoram mais para serem independentes é porque a convivência, atualmente, é mais fácil do que antes. “Hoje, os jovens podem ter a vida deles. Podem ter muita coisa que no passado só poderiam viver depois que saíssem de casa. É mais simples ter liberdade”, compara. Ainda assim, ela apoia a decisão de se desabrigar das asas familiares.

“A vontade dos pais vai se manifestar em algum momento. Eles vão interferir”, alerta. E, principalmente, ela diz ser positiva a saída para enxergar melhor a vida e até valorizar mais o esforço dos pais. “É preciso saber o valor que as coisas têm. Tudo aquilo que você não teve participação e sempre esteve lá, pronto – como a cama arrumada e a comida pronta. Isso permite que você se torne um adulto”, finaliza.

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