Para produzirem seu próprio alimento, americanos de áreas urbanas criam cabras no quintal e irritam vizinhos e autoridades

Heidi Kooy ordenha uma de suas cabras em seu quintal, enquanto a outra brinca sobre a casa do cachorro
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Heidi Kooy ordenha uma de suas cabras em seu quintal, enquanto a outra brinca sobre a casa do cachorro
Quando Heidi Kooy comprou suas duas cabras nigerianas anãs no ano passado, ela estava cheia de fantasias sobre leite fresco e queijo caseiro, iogurtes e sorvetes. No entanto, ela admite que criá-los em seu quintal na cidade de São Francisco, nos EUA, tem seus desafios. As cabras destroçaram seu pé de nectarina, mastigaram a cerquinha vermelha, se esbaldaram com as vinhas, engoliram as rosas-chá como se fossem balas e arrancaram a proteção impermeabilizante da casa.

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Ela vive no subúrbio de São Francisco, em um quarteirão onde casas em tom pastel são construídas uma bem ao lado da outra. Com medo de atrair olhares de reprovação dos vizinhos, ela regularmente coloca os bichos no carro e leva para o parque para que eles possam se exercitar. E há algum tempo, uma das cabras passou semanas cobrindo Heidi de arranhões e hematomas, em uma experiência que ela descreve em seu blog como “o inferno da ordenha”.

A efervescente empreiteira de 41 anos está irredutível. “Acho que precisamos relaxar nossas barreiras culturais que relegam a agricultura apenas ao campo, e isso inclui pequenos gados”, diz ela, cruzando de galochas o quintal de 300 metros quadrados onde ela tem também uma hortinha orgânica, seis árvores frutíferas e quatro galinhas poedeiras. “É parte de repensar a produção de comida numa paisagem urbana. Você só precisa manter tudo limpo”.

Obstáculos
Cabras leiteiras estão se tornando a nova fronteira para urbanóides ansiosos em produzir a própria comida. Apesar de serem proibidos em muitas cidades, como Nova York, Heidi descobriu uma cláusula do Departamento de Saúde de São Francisco que permite dois caprinos por casa, e aspirantes a criadores de Portland e Berkeley se entusiasmaram ao descobrir regras similares. Em outras cidades, entusiastas fazem lobby por leis mais lenientes.

Mas apesar dos esforços, as cabras aparentemente terão dificuldade de alcançar a popularidade atingida nos últimos anos pelas galinhas no quintal ou colméias no telhado. Mesmo nas cidades onde as criaturas são permitidas, a ideia do balido dos ruminantes na casa ao lado passa dos limites para muitos cidadãos e oficiais, para quem eles são barulhentos, sujos ou simplesmente feios.

Uma das cabras anãs nigerianas sendo ordenhada no quintal
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Uma das cabras anãs nigerianas sendo ordenhada no quintal
Brooke Salvaggio e seu marido, Dan Heryer, ambos de 28 anos, têm cultivado algumas coisas há dois anos no quintal da casa da avó de Brooke, numa área residencial de Kansas City. Recentemente, trouxeram três mini-cabras para a propriedade. Foi apenas questão de tempo até o departamento de zoonoses aparecer e aplicar uma multa de 300 dólares. O casal recorreu, o que levou a uma acalorada audiência no Paço Municipal, onde, Brooke conta, “todos aqueles vizinhos com quem nunca tínhamos falado apareceram do nada para dar testemunhos horríveis”.

Um deles, Kathleen Oades-Kelly, terapeuta cujo quintal faz divisa com a fazenda de mentorinha, diz que ficou alarmada com o barulho e o cheiro dos bichos, assim como com a possibilidade de que poderia haver até nove filhotes vivendo lá depois que eles dessem cria. John Kelly, seu marido, tinha medo de que os bichos trouxessem parasitas para a vizinhança, e lamentava ter que ver os caprinos de sua varanda enquanto tomava café da manhã.

Outros vizinhos se preocupavam com a chance de a proximidade com bodes e cabras desvalorizar sua propriedade. A cidade votou contra Brooke e ela não pôde manter os animais.

“As cabras faziam muito barulho e irritavam as pessoas”, diz Bonnaye Mims, membro do conselho local que avaliou o caso. “Se fosse uma área rural – e nós temos áreas assim na região, com cavalos e vacas – eu teria dito que estava tudo bem. Mas eles simplesmente não tinham espaço para fazer isso”.

As cabras foram exiladas para um sítio na área rural. Enquanto isso, Salvaggio e Heryer compraram uma grande área em uma região sem vizinhos e pediram permissão para mudar de uso residencial para de agricultura, com sucesso. Eles se mudaram e levaram com eles as cabras.

Entusiastas
Alguns moradores de áreas urbanas estão tentando mudar isso. Há três anos, Jennie Grant, 46, uma jardineira de Seattle, fundou a Goat Justice League para lutar pela legalização dos animais. Ela conseguiu convencer o conselho municipal a mudar as regras e, desde então, 36 bodes e cabras foram licenciados como animais de estimação na cidade. Isso inclui suas duas pequenas cabras, que correm pelo quintal de 120 metros quadrados com vista para o lago Washington e a propriedade de Bill Gates (“Eu às vezes me pergunto se Bill Gates vê minhas cabras”) e enchem seus jarros com quase oito litros de leite gordo e fresco por dia no ápice da produção, e boa parte dele vira queijo.

Sobre a casa do cachorro, num quintal em São Francisco
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Sobre a casa do cachorro, num quintal em São Francisco
“De repente, você tem um quilo de queijo de cabra a cada três dias”, diz Grant, recordando algumas de suas criações recentes com o ingrediente: pizza com cebola caramelizada e queijo de cabra, suflê com o laticínio e alecrim, cheesecake de cabra com avelã. “Muda completamente o jeito que você cozinha”.

Inspirados pela vitória de Seattle, um ramo da Goat Justice League cresceu em Charlottesville, e também teve sucesso em seu esforço para legalizar a criação urbana. Muitas outras cidades têm a mesma campanha.

Realidade
Mas muitos aspirantes a criadores não vão tão longe, porque abandonam a ideia assim que descobrem as dificuldades de manter o animal. Em Portland, cerca de 200 pessoas se inscreveram em um curso chamado Cabras na Cidade. Berkeley tem o workshop Cabras Urbanas esgotado desde o ano passado. Novella Carpenter, que ministra o curso, diz que o principal é “administrar as expectativas e assustar as pessoas”.

Entre as necessidades dos caprinos estão o acesso a veterinários especializados, fornecimento constante de feno de alta-nutrição e um serviço de garanhão para reprodução – nenhum dos itens exatamente fácil de encontrar na cidade, diz Carpenter, que cria cabras em casa há três anos. Os chifres precisam ser aparados, e ela recomenda um cercado seguro com paredes de cerca de 1,5 metro para evitar que eles “destruam as coisas que você ama”. E o que mais impressiona os aspirantes a fazendeiro: as cabras precisam ser ordenhadas duas vezes ao dia, todos os dias.

“Eu não estou simplesmente dizendo ‘cabras são ótimas, compre algumas’”, explica Carpenter. “É muito trabalho cuidar delas. No fim do meu curso, as pessoas dizem ‘meu Deus, eu não sabia que era tão complicado’”.

Comendo na mão da dona Heidi Kooy
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Comendo na mão da dona Heidi Kooy
Alguns fazendeiros urbanos seguem irredutíveis. Jules Dervaes, agricultor autossuficiente urbano, vive em Pasadena, na Califórnia, com seus três filhos adultos em uma área de 800 metros quadrados com oito patos, oito galinhas, três colmeias, dois gatos, minhocas para húmus e um tanque de tilápias. Há alguns anos, ele acresentou duas cabras à turma, e rapidamente passou a gostar de sua inteligência felina, personalidade canina e graça em geral, apesar do trabalho que elas dão.

“Eu perdi duas árvores, madeira da casa, cinco ou seis vassouras”, conta Dervaes, 63. “Nós tivemos que proteger nossos investimentos mais do que com galinhas ou patos. Na cidade, onde não há muita forragem e o espaço é compacto, meu amigo, elas comem árvores e moitas como se não fossem nada”.

Para resolver, ele passou arame nos troncos de árvore e na garagem de madeira onde vivem as cabras. Na falta de cuidados veterinários na proximidade, sua filha Jordanne, 27, se cercou de livros sobre o tema e aprendeu a adminitrar cuidados básicos como vermifugação. Para conseguir alfafa, Dervaes dirige 40 quilômetros até Los Angeles.

Ele recentemente também criou a Barnyards and Backyards, uma rede social para que pessoas urbanas que criam gado possam se conectar com seus colegas do campo para pedir conselhos. Mesmo assim, ele se pergunta se suas cabras cosmopolitas talvez não estivessem melhor em outro lugar. “No fim,” diz Dervaes com alguma resignação, “talvez nós tenhamos que nos mudar para o campo”.

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