A vida não começa aos 50, mas pode ser a melhor fase para as mulheres que chegam nessa idade com saúde e independência financeira

A modelo Inès de la Fressange, que voltou a desfilar para a Chanel aos 53 anos
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A modelo Inès de la Fressange, que voltou a desfilar para a Chanel aos 53 anos
Sexo com mais prazer, carreira estabilizada e muitas vezes no auge, liberdade sobre a própria vida e autoestima no lugar. É essa a bagagem que as mulheres estão trazendo para a maturidade. Não faltam exemplos para pontuar essa tendência: a V Magazine estampou Jane Fonda, 72 anos, Sigourney Weaver, 61 e Susan Sarandon, 63, na capa. A Chanel trouxe de volta à passarela a modelo Inès de La Fressange, de 53 anos, e Tom Ford incluiu em seu último desfile a ex-modelo Lauren Hutton, 67 anos, a jornalista Lisa Eisner, 53, e a atriz Julianne Moore, 50.

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“Não são episódios isolados. A mulher e o homem ganharam muitas décadas de vida, e estão chegando aos 80, 85 anos trabalhando e com saúde”, diz a antropóloga Mirian Goldenberg, que após estudar a mulher de 40 anos, se dedica agora ao envelhecimento e à maturidade.

“A mulher que tem essa idade hoje viveu sua juventude nos anos 60, a década em que as pessoas mudaram sua visão sobre a mulher, o sexo e a conjugalidade. É um caminho sem volta.” Para a antropóloga, essa imagem de mulher poderosa e independente cada vez mais presente na mídia permite que a mulher comum viva plenamente e com liberdade sua maturidade.

A atriz Susan Sarandon, 63, na capa da revista V, em edição chamada
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A atriz Susan Sarandon, 63, na capa da revista V, em edição chamada "quem liga para a idade?"
Duas condições são fundamentais para essa realização na maturidade, de acordo com Mirian: saúde e independência econômica. Em setembro, ela lança o livro “Corpo, envelhecimento e felicidade”, focando na fase em que a mulher passa a usufruir de prazeres e cuidados que, em outra fase da vida, dedicou à família e provar sua capacidade como esposa, mãe e profissional. “Pela primeira vez na vida elas podem ser elas mesmas, escolher o que querem para si. Elas se sentem mais felizes do que quando eram mais jovens”, afirma. “Quanto avançam na idade, mais livres elas são, tanto da ideia de que o corpo é um capital, como na de que precisam de um marido”.

Mas esse processo não acontece da noite para o dia. Por enquanto, a historiadora Mary Del Priore tem uma visão menos otimista da mulher brasileira madura. “Sociólogos têm apontado a dificuldade da brasileira de envelhecer. Ela está aprisionada nessa dificuldade de ir para o ‘país das cabeças brancas’, as pessoas não querem de forma nenhuma envelhecer”, afirma. Segundo Mary, no Brasil, as mulheres bem cuidadas são de classe mais alta, com condições financeiras para bancar tratamentos mais sofisticados e um acesso a mais saúde e qualidade de vida. “As mulheres trabalhadoras, com dois ou três turnos, não têm acesso nem políticas públicas para elas, na prevenção de doenças como câncer de pele e obesidade mórbida. Elas são raramente preparadas para envelhecer diante desse modelo que não podem incorporar.”

Goldenberg capta uma preocupação, contudo, que vai além da estética. “Elas querem ficar bem, se cuidam mais do que os homens, fazem pilates, nadam. Mas é para ficar bem e com saúde, não para ficar jovem”, afirma. “Ela não deixa de tomar um chopinho com as amigas”. O marco, segundo a antropóloga, é a virada aos 50. “Se ela tem saúde e uma aposentadoria, é uma época sem grilos. Ela não se preocupa em arrumar marido, e sim em buscar um novo rumo. Começa uma reinvenção da própria vida”.

É difícil dizer que as personagens de novelas brasileiras e minisséries como "Cinquentinha", de 2009, ícones mundiais, como Madonna, esbanjando vitalidade nos planos aos 53 anos, ou a atriz Ângela Vieira, que posou para a Playboy aos 47, impulsionam a mudança de papel social da mulher ou se são um reflexo dela. O fato é que, como afirma Goldenberg, é “na segunda metade da vida da mulher brasileira que acontece um aumento do poder subjetivo”. Elas estão com tudo e um futuro inteiro pela frente.

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