Protesto que discute a violência contra a mulher, “Marcha das Vadias” ganha edição brasileira neste sábado (4)

Manifestantes na versão australiana da marcha pedem fim da culpa da vítima e dizem:
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Manifestantes na versão australiana da marcha pedem fim da culpa da vítima e dizem: "pergunte-me o que estou pedindo", em referência ao argumento de que a vítima "pede"
Começou com uma palestra em uma universidade em Toronto, Canadá, em janeiro deste ano. Durante um seminário sobre segurança no campus, um policial disse às alunas que elas evitariam estupros se não se vestissem como vadias (“sluts”). Indignadas com o que consideraram uma expressão oficial da responsabilização da vítima, elas pediram uma retratação. Enquanto o episódio era investigado, ativistas organizaram a primeira Slut Walk – em português, Marcha das Vadias. Cerca de mil mulheres, muitas delas vítimas de estupro, abuso e assédio sexual, se vestiram com roupas que desafiam o código do policial canadense e saíram em passeata para dizer que não, as vítimas de estupro nunca “estão pedindo”.

Povoados de ativistas de minissaias, lingerie, cinta-liga e decotes, o evento acabou gerando uma onda de Marchas das Vadias pelo mundo. Desde a primeira, já foram 15 eventos, e ainda há mais dezenas marcados até outubro. No Brasil, a manifestação acontece neste sábado (4), às 14h, na avenida Paulista, em São Paulo. A organização espera reunir 2.500 pessoas. No próximo dia 18, o evento acontece em Belo Horizonte.

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Participantes da versão australiana da marcha, que aconteceu no último dia 28
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Participantes da versão australiana da marcha, que aconteceu no último dia 28
“Uma massa dessas na rua expõe esses pontos para a sociedade: se os homens podem andar de qualquer jeito, por que as mulheres não podem? Nem por isso os homens são agredidos, xingados, estuprados”, diz Silvia Koller professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Com que roupa?
“Estamos pedindo respeito, independentemente da indumentária. A roupa não faz diferença no manifesto”, diz Madô Lopez, 28 anos, redatora que está organizando a marcha no Brasil, junto com a escritora Solange Del Ré, 30 anos. “É um problema corriqueiro que toda mulher enfrenta. Se você vai comprar um cigarro no bar, pode ser intimidada, como se estivesse provocando essa reação só por ser mulher”, afirma Solange. “A gente sabe que tem mulheres sendo espancadas no Brasil. Mulheres que são estupradas por causa da roupa que estão usando”.

O controle sobre o que as mulheres vestem se reflete mesmo em um evento que questiona exatamente isso. Muitas ativistas vêem com reservas esse tipo de manifestação, em que o corpo das participantes pode ser encarado como uma atração. “É preciso cuidar para não cair num outro extremo: de uma coisa caricata ou uma brincadeira”, afirma Silvia Koller.

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Solange Del Ré, uma das organizadoras da Marcha das Vadias
Arquivo pessoal
Solange Del Ré, uma das organizadoras da Marcha das Vadias
Por isso, é possível que a versão brasileira acabe sendo menos explícita. “Não é carnaval nem festa à fantasia. É uma causa séria. Não tem regra do que vestir. Quem tiver hábito de usar vestidos curtos e decotes pode ir assim. Vamos vestidas com as roupas que usamos normalmente para sair”, afirma Madô.

Silêncio e violência
Para Regina Facchini, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero PAGU, da Universidade Estadual de Campinas, o protesto é uma forma de quebrar o silêncio. “A Marcha das Vadias está ligada ao combate da violência sexual, seja estupro ou a episódios de violência como uma faculdade gritando em coro para a estudante Geisy Arruda que ela é uma vadia. É essa a questão que está ali colocada”, afirma a socióloga, que pretende participar da marcha. “Quando uma mulher se comporta de uma determinada maneira ou tem uma determinada aparência, regula-se o comportamento dela por meio da violência.”

As ofensas e intimidações são sintomas da reivindicação principal da marcha, que é que a culpa pela violência sexual não seja revertida para a vítima. “Antes até do assédio, falta discutir mais profundamente a questão do estupro. Se o assédio é banalizado, o estupro é muito mais grave e acontece no Brasil, com pouca repercussão”, afirma Lia Zanotta, professora titular de Antropologia da Universidade de Brasília, especialista em estudos sobre violência contra a mulher. “Mesmo manuais jurídicos apresentam que você deve desconfiar quando uma mulher denuncia o estupro.” De acordo com a professora, na cultura brasileira é esperado que, mesmo quando a mulher quer sexo, ela diga não. “Logo, quando ela não quer e diz não, é interpretado como um sim. Se ela para de gritar e tentar enfrentar o agressor fisicamente, é interpretado como uma aceitação.”

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Para a pesquisadora, eventos como a marcha são bem-vindos. “Já temos campanhas contra violência sexual, mas falta a implementação de uma política preventiva efetiva.”

Palavras
Regina Facchini afirma que a própria palavra “vadia” é usada para agredir. “É a estratégia de usar uma palavra com estigma”, afirma. “A palavra não vai perder a carga pejorativa numa única marcha, mas acredito que o efeito é cumulativo, como aconteceu com o movimento LGBT. As paradas gays mostraram para a imprensa e para a sociedade a existência da homofobia.”

Esse tipo de transformação é lento. Autor de “A Linguagem Proibida” (Ed. T.A. Queiroz), Dino Preti, professor titular de Língua Portuguesa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professor emérito da Universidade de São Paulo, afirma que esse estigma tende a se perder, porque acompanha mudanças sociais. “Não é da noite para o dia, mas quando a sociedade passa a aceitar melhor determinados comportamentos, as palavras pejorativas ligadas a ele vão perdendo a força também”, diz. “E sexo é um tema importantíssimo, atinge a pessoa. A sociedade é muito machista.”

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