Pesquisa do IBGE mostrou que elas estão se casando mais tarde e pedindo os divórcios em mais de 70% das separações não-consensuais

Em 2008, 71,7 por cento das separações judiciais não-consensuais foram requeridas pelas mulheres
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Em 2008, 71,7 por cento das separações judiciais não-consensuais foram requeridas pelas mulheres
Divulgada ontem, a pesquisa de Registro Civil do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) demonstra que a data marcada para usar véu e grinalda acontece cada vez mais tarde na vida das brasileiras. A maioria das mulheres solteiras que se casaram em 2008 tinham idade média de 26 anos, três anos a mais do que a marca de 1998. A taxa de mulheres que se casaram entre 25 e 29 anos cresceu 9%, de 19,4% em 1998 a 28,4% em 2008. Por outro lado, não ocorreu o mesmo entre os casamentos na faixa etária de 15 a 19 anos, que de 22,6% em 1998 caiu para 16,3% em 2008, com uma baixa de aproximadamente 6%.

Para a psicanalista e terapeuta Lidia Rosenberg Aratangy, autora de “O Anel que tu me Deste – O Casamento no Divã”, o aumento da idade média com que elas se casam é sinal dos tempos. “As mulheres querem primeiro consolidar uma carreira profissional ou terminar sua formação acadêmica”, comenta.

Os meios de comunicação também têm certo peso neste assunto. A imagem da mulher na mídia não é mais a da ‘moçoila casadoira’ que só experimentava o sexo depois do casamento. Pelo contrário: hoje, revistas e programas de TV oferecem modelos diferentes. “A mídia estimula a autonomia profissional feminina e valoriza a experiência sexual”, comenta Dulcilia Buitoni, professora de Pós-Graduação na Faculdade Cásper Líbero e autora do livro “Mulher de Papel – A Representação da Mulher pela Imprensa Feminina Brasileira”.

Comodismo masculino
No entanto, o dado mais impressionante da pesquisa ficou na outra ponta do “e viveram felizes para sempre”: o divórcio. As estatísticas apontam que 71,7% das separações judiciais não-consensuais foram requeridas pelas mulheres. Ou seja, quando o fim da relação não é de comum acordo, parece que resta quase que somente a elas tomar a iniciativa.

Será que aquela popular frase que diz que os homens não se separam é verdadeira? Para eles, o casamento, ainda que não ande muito bem, continua sendo uma instituição confortável. “Em geral, os homens têm menos motivos para a separação, uma vez que ainda têm alguém que se dedique aos cuidados da casa e dos filhos”, aponta Lidia.

A liderança feminina no requerimento das separações não-consensuais é uma constante em todos os estados do Brasil, refletindo um certo comodismo masculino vigente. Lidia assinala ainda a persistente diferença no tratamento social à traição, quando cometida por eles ou por elas: “os homens gozam de uma liberdade de movimentos maior do que as mulheres e contam com maior complacência social para eventuais escapadas”, diz.

E se até a palavra “divórcio” era um tabu social no meio da década de 70, coube à televisão mais uma vez o papel de desmistificar a figura da mulher separada. Em 1979, o seriado “Malu Mulher”, dirigido por Daniel Filho e estrelado por Regina Duarte (recém-separada à época), tocou neste e em outros assuntos difíceis: orgasmo, aborto, câncer de mama e, claro, o divórcio. Pode parecer que era só mais um programa de TV, mas no Brasil isso tem um peso especial, como atesta Dulcilia. “O grande fazedor de cabeças do país é a teledramaturgia. Ela influenciou muito na mudança e na aceitação de outros padrões”, acredita.

(Colaborou: Renata Losso)

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