Jovens goianas trocadas na maternidade descobrem que são irmãs por conta da semelhança física e contam ao iG como foi

Kátia Souza, 26, vive em Rio Verde (GO), cidade de pouco mais de 170 mil habitantes, e tinha uma história aparentemente comum. Mas uma descoberta tirou completamente a história de Kátia e outras cinco mulheres da cidade do corriqueiro: mães e irmãs de duas famílias que se conheciam apenas de vista tiveram suas histórias e seus laços afetivos transformados após descobrirem que duas meninas haviam sido trocadas na maternidade.

Tudo começou com a confusão que os clientes de duas lojas da cidade faziam. Vez ou outra, um entrava na loja onde Kátia trabalhava e a chamava de Juliana. O mesmo acontecia no local de trabalho da estudante de direito Juliana Flausina de Souza. Mas a curiosidade só ficou mais séria quando um amigo encontrou Juliana em uma festa e ficou intrigado com a semelhança física entre ela e sua amiga Kátia. A observação prosaica, mas assertiva, foi o ponto de partida de uma investigação que terminaria com um teste de DNA, que apontou a troca de bebês na maternidade pública de Rio Verde.

O caso veio à tona nos últimos dias, quando a Justiça determinou o pagamento de indenização, por parte da maternidade, a uma das mães que teve sua filha trocada. A maternidade deve recorrer.

As irmãs biológicas Juliana e Kátia, e, ao lado, as também irmãs Lucilene e Katiane
Randes Nunes da Cunha/Fotoarena
As irmãs biológicas Juliana e Kátia, e, ao lado, as também irmãs Lucilene e Katiane
Criada como irmã de Lucilene – embora seja irmã biológica de Kátia -, Juliana tentou não tocar mais nesse assunto, por medo de magoar aquela que foi a vida toda criada como sua irmã. “Eu não queria mais saber dessa história porque sentia que podia ser verdade. Não queria que a minha irmã e a minha mãe sofressem. Acho que amor é convivência. Ela é minha amiga, irmã e não consigo imaginar minha vida sem ela.”

Mesmo assim, Juliana conta que falou primeiro com a mãe, Maria Flausina, que decidiu ligar para Kátia. Logo depois, conversaram com o pai dela. “Meu pai ficou abalado, chorou muito. Todos nós sabíamos que poderia ter havido a troca pela semelhança entre mim e Kátia.”

Já se passaram três anos desde a descoberta através do exame de DNA, mas as feridas continuam presentes. “Minha mãe sofreu muito e ainda sofre. Eu aceitei com mais facilidade. Quando recebi o exame, a ficha caiu. A minha vida, como eu conhecia, mudou completamente. O que sempre penso é que fui e sou muito amada pela família que me criou”, conta Kátia, que não mantém uma relação muito próxima com a mãe biológica.

Confusão em família: as irmãs de criação Juliana e Luciene caminham juntas. Criadas pelos mesmos pais, Kátia e Katiane conversam
Randes Nunes da Cunha/Fotoarena
Confusão em família: as irmãs de criação Juliana e Luciene caminham juntas. Criadas pelos mesmos pais, Kátia e Katiane conversam

Durante muito tempo Maria Flausina foi vítima de desconfianças de que teria traído o marido, exatamente porque uma de suas filhas não tinha qualquer semelhança com suas outras filhas. “Minha mãe sempre falou para mim: se você não for filha do seu pai, também não é minha”, diz Lucilene.

A avó paterna de Lucilene, no entanto, sempre defendeu a nora Maria. Mesmo não tendo vivido o suficiente para ver que estava certa, ela afirmava, sempre que o assunto da traição aparecia, que o que tinha acontecido de fato era que Lucilene havia sido trocada na maternidade. “Ela defendia a minha mãe quando falavam alguma coisa sobre eu ser filha de outro homem. Minha avó estava certa”, diz Lucilene.

Já para a família de Kátia, a troca foi uma surpresa. Jamais essa hipótese tinha sido cogitada. “Foi um baque muito maior para mim e para minha mãe. Nunca imaginamos que isso tinha acontecido. Quando pegamos o resultado do exame foi que começamos a aceitar que a troca de bebês realmente pudesse ter acontecido.”

Rotina
Tanto Kátia quanto Lucilene confessam que, apesar de descobrirem que têm uma mãe de criação e outra biológica, os laços feitos através do convívio de quase três décadas se mostraram fortes e duradouros.

“Fico com medo que minha mãe sinta ciúmes se eu me aproximar muito da Aparecida. Eu considero a Maria minha mãe, mas o medo que ela se magoe existe”, confessa Lucilene. Ela teve poucos encontros com Aparecida, sua mãe biológica. “Fui algumas vezes na casa dela antes de receber o exame de DNA. Depois, não fui mais. Temos uma relação cordial e sou muito bem tratada por ela. Aparecida não me cobra uma convivência mais próxima. Quem cobra mais é a Katiane, irmã da Kátia. Bom, minha irmã também.”

Kátia passa pela mesma situação. A comerciante diz que a rotina mudou pouco e que as visitas à família biológica são raras. “A família da Lucilene me recebeu muito bem. Conheço a Maria, minhas irmãs e meus avós maternos. Sei que fui bem aceita, mas não passamos Natal ou Dia das Mães juntas. Não consigo chamar minha mãe biológica de mãe. Esse papel é da Aparecida.”

Indenização
A Justiça condenou, na terça-feira (13), a maternidade pública de Rio Verde a pagar R$ 40 mil, mais correção monetária desde 1985, de indenização por danos morais para Maria Flausina. “Eu acho que nenhum valor será digno diante de tudo o que aconteceu com a gente. Mas pelo menos essa sentença é uma forma de punir a maternidade”, afirma Kátia.

Lucilene conta que na primeira audiência o valor oferecido foi bastante irrisório. “Até a juíza ficou revoltada.” A dona de casa recebeu a notícia de que a maternidade vai recorrer da sentença. “Eu não tinha entrado com processo na Justiça porque sei que demora muito. Mas agora até fiquei com vontade. Acho que não reconhecer o erro é o mesmo que difamar nossas famílias. O erro foi da maternidade e não de nossas mães”, diz.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.