Pessoas que se apegam muito a objetos de valor podem ser menos seguras em seus relacionamentos pessoais, diz estudo

Seres humanos têm a necessidade de se sentirem seguros, e a sensação de segurança pode vir tanto de bens materiais quanto de relacionamentos estáveis. Se as pessoas não se sentem amadas e aceitas pelos outros, dizem os cientistas, a importância das coisas aumenta.

"Nós conduzimos duas pesquisas e o resultado básico encontrado nas duas é que, se você faz com que as pessoas se sintam seguras nas relações interpessoais, elas atribuem um valor menor a suas posses”, afirma Margaret Clark, autora do estudo e professora de Psicologia na Universidade de Yale.

"Acho que as pessoas sabem muito bem que elas não precisam de tudo que têm ou querem adquirir. Ninguém precisa dizer isso a elas. Mas elas podem não saber a razão de quererem isso”, diz.

"Humanos são criaturas sociais e têm seus pontos vulneráveis. Relacionamentos íntimos dão proteção. Por exemplo, crianças não sobrevivem sem outras pessoas. Mas posses materiais também dão proteção e segurança. Humanos precisam de comida, roupas e abrigo para sobreviver. Então é preciso uma mistura de coisas para que as pessoas se sintam seguras. Mas se uma das fontes de segurança é aumentada, as pessoas se preocupam menos com as outras”, explica.

O estudo
Para confirmar esta teoria, Clark e seus colegas da Universidade de New Hampshire e da Universidade de Genebra conduziram dois estudos. O primeiro incluiu 185 pessoas entre 18 e 71 anos; 70 das quais eram do sexo masculino.

Os participantes foram aleatoriamente designados para um grupo a quem foi pedido que escrevesse um parágrafo sobre alguma vez em que se sentiram amparados ou para outro grupo a quem foi pedido que escrevesse uma descrição de alguma experiência agradável em um restaurante. Então foi pedido que os dois grupos atribuíssem um valor monetário aos cobertores que usavam em casa.

O grupo que foi estimulado a se sentir amparado atribuiu um valor médio de 33,38 dólares, enquanto o outro grupo avaliou o mesmo objeto em média em 66,49 dólares – quase o dobro.

Uma vez que o cobertor é um item extremamente pessoal e frequentemente associado à segurança, os pesquisadores decidiram investigar também o que aconteceria com um item mais genérico e sem relação com calor e conforto. Neste segundo estudo, 98 pessoas (30 delas homens) com uma idade média de 21 anos, foram aleatoriamente separadas em três grupos. Cada grupo tinha que organizar 30 frases, 20 das quais tinham sentido neutro. As dez restantes variavam conforme cada grupo.

Um grupo organizou frases usando palavras de segurança e amparo, como “abraço”, “amor”, “compromisso” e “conforto”. Outro teve que usar palavras positivas, como "feliz", "alegre", "festivo" e "vitória”. O grupo final usou frases com palavras neutras, como "barco", "livro", "sapato" e "cerca". 

Os participantes então tiveram que estimar o valor da caneta que usaram para completar o teste, escolhendo um valor entre 25 centavos e 9,75 dólares. O grupo que usou palavras reconfortantes como “amor” estimou o preço da caneta em 3,23 dólares, enquanto aqueles com palavras positivas escolheram 4,11 dólares. O grupo neutro estimou a caneta em 4,18 dólares.

Clark diz que as descobertas podem auxiliar especialistas a ajudar pessoas que costumam acumular muitas coisas ou que compram compulsivamente. E, ela afirma, pode ajudar na vida cotidiana também. "Se você entende o que está por trás dos impulsos dos outros, pode criar uma estratégia para combater isso. Se tem um cônjuge que faz compras demais, no lugar de brigar por causa dos gastos um elogio pode funcionar mais do que simplesmente dizer que a compra é supérflua”, diz Clark.

"O ponto central deste estudo é que uma vida satisfatória envolve muito mais do que adquirir bens”, afirma Richard Morrissey, diretor do Center for Psychological Services na St. John’s University em New York City. "Objetos nos dão uma sensação de segurança, mas se nos sentimos seguros nos relacionamentos, damos menos valor para coisas”.

Morrissey diz que terapia pode ajudar as pessoas a mudar a forma como pensam e ajudar na compreensão de que elas não precisam comprar coisas para se sentirem melhor.

"É como a história do copo meio cheio ou meio vazio. Duas pessoas podem olhar para a mesma situação de maneiras diferentes. Não enxergue a vida de maneira pessimista. Ninguém sabe o que o futuro nos reserva, então não é irracional acreditar que amanhã será um bom dia”, diz Morrissey.

Os resultados da pesquisa aparecem na edição de março do Journal of Experimental Social Psychology.

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