Panelinhas, paquera, bagunça e até a primeira cola da vida fazem parte do dia a dia dos idosos estudantes

Na tarde de uma segunda-feira de agosto, a professora encerrou um pouco mais cedo o primeiro período de aulas da turma D. Os alunos, 19 ao todo, puderam então antecipar o intervalo. Reunidos no pequeno pátio, pareciam cansados – a aula tinha sido de educação física e fazia calor em São Paulo (SP) –, mas conversavam bastante. Não demorou para que recebessem uma leve repreensão. Apontando para a janela da classe onde estava outra turma, Cláudia Ajzen, também professora, alertou: “Silêncio, gente. O professor ainda está dando aula lá!”.

Na hora do recreio, os grupinhos se revelam, como em toda faculdade
Edu Cesar/Fotoarena
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Ao dar a “bronca”, que surtiu efeito imediato, ela confirmava o que havia dito cerca de uma hora antes. “Aluno é aluno, não importa a idade. Conversa na classe, dorme, faz bagunça...” Cláudia é gerontóloga e dá aulas na UATI – Universidade Aberta à Terceira Idade da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), inaugurada em 1999. O propósito não é apenas atualizar conhecimentos: especialistas apontam que o estímulo da convivência – a socialização – é essencial.

Na UATI da Unifesp, por exemplo, há seis turmas no campus de São Paulo e uma no campus da Baixada Santista. Elas têm aulas duas vezes por semana, ou de manhã ou de tarde, durante um ano. Mas tão fundamental quanto as aulas é o intervalo. “Dura meia hora. É bastante tempo, de propósito. Sempre falo que, nesse momento do cafezinho, eles não podem ficar dentro da sala. É para sair e conversar”, observa Nadir Nogueira, fundadora e coordenadora do programa.

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‘Panelinha’ e ‘fundão’
Às segundas, na capital, são duas turmas. No dia da visita, enquanto os 19 integrantes da turma D se dedicavam à atividade física num pequeno espaço externo disponível, os 20 da turma C assistiam, em classe, à aula “Adaptação: um desafio para o idoso”. Quando, enfim, soou o sinal, estes últimos chegaram ao pátio. Dentre todos os presentes, tinha um único homem – acompanhava-o a esposa.

Naturalmente, grupos vão se formando. As conversas não se resumem a assuntos tidos como “de gente mais velha”. Algumas senhoras especulam sobre a suposta idade da apresentadora Glória Maria, outras mencionam convites para sair que receberam do sexo oposto etc.

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Aos 64 anos, Clarice Laroza Vieira (turma C) conta que estar ali é como “voltar no tempo”: “Me sinto menos idosa, melhora minha autoestima. É como na época do colégio, tem o puxão de orelha, tem a ‘merenda’”. E tem a cola. No primeiro semestre, os alunos organizaram uma espécie de “ajuda mútua coletiva” para fazer determinado exercício em sala.

A atitude não rendeu suspensão ou advertência, evidentemente. A ideia da UATI não é aplicar provas ou dar notas. Mas o episódio rende comentários bem humorados até hoje: na ocasião, alguns alunos tiveram a oportunidade de “colar” pela primeira vez na vida. Clarice diz ainda que ela e os amigos combinam passeios, idas a bailes da terceira idade. “E tem também panelinhas, a turma do fundão. A Lili é da turma do fundão...”, brinca ela, apontando para uma colega. Era a mesma colega que, no meio da aula de educação física, tinha saído para fumar um cigarro.

Liliana, ou Lili, parece ser a mais popular dentre os alunos das segundas e quartas. Assistente social de formação, aposentou-se em 2004, depois de trabalhar por muito tempo numa instituição bancária. Aos 58 anos, segue sendo expansiva e confessa ter sido assim desde sempre. Afirma que recebe telefonemas das companheiras de curso e que já chegou a conhecer netos e filhos delas. Lili apresenta uma hipótese quanto ao papel de iniciativas como a UATI:

“Os idosos se aproximam ou de quem lhes dá ouvidos, ou de pessoas com quem se identificam, ou de quem lhes dá atenção. Estar aqui é importante porque tem aluno que perdeu filho, marido. O que eu mais reparei é que, para alguém assim, é muito importante o fato de poder dizer que tem um compromisso com alguma coisa – no caso, um compromisso com o curso. Essa é a verdade”.

Aula de Educação Física
Edu Cesar/Fotoarena
Aula de Educação Física

Fora da classe
A formação dos alunos da UATI é heterogênea: sociólogos, médicos, psicólogos. E já passaram por lá alguns alunos que não sabiam ler e escrever. Fizeram o curso e, simultaneamente, foram encaminhados para um programa de alfabetização promovido pela Unifesp, lembra-se Nadir Nogueira, a coordenadora. Para ela, o perfil variado é vantajoso, os alunos se ajudam na hora de providenciar os trabalhos finais, quando formam grupos e se reúnem nas casas uns dos outros.

Ministradas por professores da universidade e por convidados, as aulas tratam de saúde física e mental e se relacionam com assuntos como direitos humanos, psicologia, sociologia, história, geografia, política e artes. E existem os cursos chamados de “extracurriculares”: informática, português, inglês, coral, dança sênior e corte e costura.

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Além disso, todo mês acontece um passeio. Pode ser para um museu, o jardim zoológico, um parque. Ou para o aquário de Santos, como ocorrerá em breve. A ideia, observa Nadir, é fazer com que os alunos não limitem o convívio à UATI. “O trabalho social segue em conjunto com a missão de oferecer cultura. Queremos preparar essas pessoas para conviverem melhor consigo mesmas, com a família e com a sociedade. Isso aumenta a autoestima, e elas aprendem a exigir os direitos, a se impor mais.”

Namoro
Tempos atrás, a UATI chegou a ter 35% de alunos homens. Foi o recorde. Nadir recorda-se que namoros começaram ali, e há casais que prosseguem juntos. Até por motivos como esse, acontecem aulas sobre relacionamento, sexualidade e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Pesquisas indicam que cresceu significativamente o número de idosos do sexo masculino que, após o surgimento dos remédios para disfunção erétil, contraíram o vírus da aids. Eles retomaram a vida sexual e, por questões geracionais, são reticentes em adotar o uso do preservativo.

Atualmente, o percentual de homens na UATI é bem menor. As turmas C e D, por exemplo, têm um cada. Existe, inclusive, incentivo para que a presença deles volte a crescer: ao contrário das mulheres, os interessados em se matricular não precisam ficar na fila de espera.

No intervalo entre as aulas naquela segunda-feira de agosto, o único homem presente, dentre alunos, era Yoshihiko Obara, 74. (Seu colega da turma D chegaria somente para a segunda aula.) Contador aposentado, Obara foi eleito representante de classe turma C, cujas aulas frequenta ao lado da esposa, Maria Kizuko, 72. Ele circulava com desenvoltura entre as colegas. Perguntado se a condição de solitário o incomodava, respondeu, brincando, que não acha ruim ter “um harém” a seu redor. Maria, após assegurar que não sente qualquer ciúme, devolveu a brincadeira, considerando que é bom poder “vigiar” o marido.

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