Morte do chef francês assassinado pela esposa durante uma briga chama atenção para mulheres agressoras

O comerciante do interior paulista que não quis ser identificado pela reportagem também preferiu não se revelar para a Justiça. Durante os treze anos que viveu com uma companheira, o homem de 48 anos diz ter sido vítima de agressões frequentes ao longo de pelo menos dez. Nunca procurou a Justiça. “Quem tem coragem de dizer que apanha de mulher?”, pergunta. Não muitos. Mas embora o problema não seja sistêmico e disseminado como as agressões contra a mulher, homens também são vítimas de violência doméstica.

Há alguns dias, a polícia francesa encontrou o corpo do chef Jean-François Poinard , 71, desaparecido há quase dois anos. Sua companheira admitiu tê-lo matado a socos durante uma briga. A família do chef diz que, desde que os dois passaram a ter um relacionamento, em 2001, a mulher fez com que ele se isolasse dos parentes e amigos. Com exceção do desfecho trágico, a história é parecida com a do comerciante de São José do Rio Preto. “Minha mulher sempre foi muito ciumenta. Não me deixava sair sozinho, aos poucos fui deixando de ver meus amigos. Como ela e minha mãe não se davam bem, também evitava encontros de família para não ter briga em casa”, conta.

Mas as brigas aconteciam mesmo assim. “Ela sempre foi muito nervosa, se descontrolava, xingava. Desde o começo atirava o que tivesse à mão contra mim. Depois de alguns anos, começou a piorar: me arranhava, puxava cabelos, dava tapas e socos”. Mesmo quando tinha marcas aparentes, ele nem se preocupava em esconder. “Ninguém nunca desconfiou, nunca falou nada. As pessoas não pensam nisso, acham que é briga de rua ou farra mesmo”, diz. Esse foi um dos motivos que o levaram a nunca procurar a polícia e a demorar tanto para terminar o relacionamento. “Eu tinha muita vergonha. Tenho certeza de que ia ser motivo de piada na delegacia. E, na verdade, eu tinha vergonha de mim mesmo, de estar passando por isso e não saber como resolver. Por muito tempo fingi que não era um problema de verdade, que ela era assim, nervosa, e pronto”, desabafa. Ele só resolveu que era hora de sair de casa quando a mulher o golpeou com uma faca durante uma discussão. “Foi no braço, levei sete pontos. Mas ela atacou sem nem olhar, poderia ter sido muito pior”.

Estatísticas

Não há pesquisas específicas sobre a violência doméstica contra homens no país. Mas alguns estudos dão uma ideia do quanto existe de agressão entre os casais brasileiros – e não apenas de homens contra mulheres. O primeiro é o levantamento da Fiocruz “Violência entre namorados adolescentes: um estudo em dez capitais brasileiras”, que entrevistou 3.200 jovens e constatou que nove entre dez adolescentes já foram vítimas ou praticaram algum tipo de violência dentro do namoro. Os diferentes tipos de agressão, da verbal até a sexual (qualquer forma de toque sexual sem consentimento) são divididos de forma praticamente igual ou muito semelhante entre os gêneros. Ou seja, as meninas praticam atos de violência com tanta frequência quanto os meninos.

Na verdade, em alguns casos elas aparecem como as maiores agressoras. Quando os pesquisadores perguntam sobre violência física, 24,9% dos meninos disseram já terem levado tapas, puxões de cabelo, chutes ou socos, contra 16,5% das meninas. A parcela feminina que admitiu já ter agredido seus parceiros também é maior que a deles: 28,5% das meninas contra 16,8% dos meninos. A explicação, de acordo com os autores do estudo, passa pela reprodução por parte das meninas do modelo de dominação masculina.

Dependência

A antropóloga da Unicamp Amanda de Oliveira investigou os relacionamentos abusivos em uma outra ponta da vida: ela acompanhou as denúncias de agressão por parte de idosos em delegacias do interior de São Paulo. “Nessa faixa etária, tanto homens quanto mulheres sofrem violência de familiares ou coabitantes. A grande surpresa foram as semelhanças. Existem muitos casos, principalmente de filhos, filhas, netos e netas. Mas também das esposas e maridos”, diz. Ao contrário do que esperava inicialmente, Amanda diz que as vítimas não eram dependentes dos agressores. Pelo contrário. “Essas pessoas normalmente eram os donos da casa, sustentavam a família que o agredia”.

Quando o aspecto cultural que permeia as agressões contra a mulher sai de cena, ainda restam os elementos comuns de um relacionamento violento. Em muitos dos casos registrados de agressão, a vítima também é agressora, tanto de um lado quanto do outro. E o que impede o fim desses relacionamentos também pode ter mais semelhanças do que diferenças. “Em relação aos homens, a gente encontrou até os mesmos elementos da violência doméstica contra a mulher. Como não querer sair de casa por causa dos filhos”, aponta Amanda.

O comerciante de Rio Preto concorda. “Ainda bem que nunca tivemos filhos. Se não, não sei se teria coragem de sair de casa”.

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