Conheça a paraibana que fez das tragédias da própria vida formas de lutar pela comunidade e se tornou uma Promotora Legal Popular

Alan Sampaio
Agredida pelo ex, Sabina foi à delegacia e ouviu que era "briga de marido e mulher"
Sabina Batista tem muito orgulho de sua história, apesar de ela ser marcada por episódios tristes: violência sexual, gravidez precoce, casamento arranjado, desprezo da família, abrigo na rua, agressão doméstica, separação, dependência química. "Transformei tudo de ruim que eu passei em ações. Lutei muito e só me pergunto se um dia vão se lembrar disso", afirma.

A história da paraibana criada no município de Sousa começa com a fuga dela para Brasília em 1976. Ela não podia se casar com o então noivo - um casamento arranjado pelas famílias, diga-se de passagem - porque estava grávida de outro. Pouco tempo antes do casamento, Sabina foi estuprada. Mas, para todos, tanto fazia. Na opinião da família, ela não era mais digna.

Brasília surgiu como opção de recomeço porque alguns parentes moravam na cidade. Quando souberam da gravidez de Sabina, no entanto, a colocaram para fora de casa também. Aos 19 anos, grávida, em uma cidade tão distante da sua, Sabina precisou encontrar abrigo na rua. As passarelas subterrâneas de Brasília se tornaram sua casa por alguns dias.

Logo, Sabina conseguiu morar de favor na casa de uma pessoa que conheceu na parada de ônibus próxima ao local que dormia. Em troca de abrigo, ela cuidava da casa e dos filhos da senhora. Quando o filho de Sabina nasceu, porém, o marido da senhora não quis que ela permanecesse mais na casa. "Ele tinha medo que eu abandonasse meu filho com eles", diz.

Novamente, Sabina procurava um canto em que fosse aceita. Conheceu uma moça que lhe ofereceu emprego de garçonete em um restaurante na Ceilândia, cidade-satélite da capital federal. Em troca, ela tinha um quartinho para dormir e a avó da moça cuidava do filho de Sabina. "Meu filho tinha 12 dias quando comecei a trabalhar", relembra.

Não demorou para que a vida de Sabina entrasse nos eixos. Conheceu um padeiro, que se apaixonou, quis se casar e adotar seu filho. Nos três primeiros anos, a vida a dois foi uma maravilha. Depois, os problemas começaram a sugir. O marido virou alcoólatra. Muito ciumento, passou a bater em Sabina.

Revoltada com a situação, ela procurou uma delegacia. Sofreu com o deboche dos policiais. "Eles diziam que isso era briga de marido e mulher", recorda. Por fim, o casamento acabou. Com mais dois filhos nos braços, Sabina voltou a trabalhar. No emprego na área de limpeza de órgãos públicos, ouvia histórias semelhantes à sua e sugeria mudanças. Queria que as colegas também dessem um basta nas agressões dos maridos.

Sem planejar, Sabina foi se engajando na defesa dos direitos das mulheres. Acompanhava as amigas na delegacia, procurava projetos nos órgãos de saúde e assistência social. Tornou-se líder comunitária. Depois, trabalhou como agente de saúde. Visitava as famílias da comunidade de Samambaia, para onde se mudou em 1999. Via muitas meninas como ela, grávidas, jovens e sem nada. "Criei um projeto para montar enxovais para elas", diz.

Educação formal

Sabina só cursou até a 6ª série do ensino fundamental. Ao longo da vida, optou por trabalhar e fazer cursos mais rápidos de liderança, de Justiça, Saúde. Qualquer coisa gratuita que lhe parecesse boa para a militância em nome das mulheres e minorias. Em 2006, conheceu o projeto Promotoras Legais Populares (PLP). Iniciativa de uma organização não-governamental do Rio Grande do Sul, o projeto promove cursos para mulheres em todo o País.

Alan Sampaio
Sabina entregou o filho à prisão; queria que ele cumprisse o que devia ao Estado
Em Brasília, a Universidade de Brasília, o Centro Dandara de Promotoras Legais Populares, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, Núcleo de Gênero e Agende (Ações em Gênero, Cidadania e Desenvolvimento) promovem, todos os anos, cursos para dezenas de mulheres. No período de oito meses, em encontros aos sábados, essas futuras promotoras populares discutem direitos, conhecimentos teóricos e práticos sobre leis e têm a possibilidade de desenvolver críticas e reflexões sobre as condições em que vivem.

"Eu descobri, com o curso, que eu já era uma PLP, mas sem a formação teórica. Eu fui lapidada com o curso. Ele mudou muito a minha vida. Aprendi a continuar ajudando minha comunidade, mas da forma mais correta, procurando redes de apoio", conta. "É um curso de educação jurídica popular feminista, que trata de vários temas. É um curso longo e sedutor, muito reflexivo e até doloroso em alguns momentos", comenta Cintia Mara Dias Custódio, da coordenação do curso. A proposta é promover mudanças na vida dessas mulheres.

Na mesma época do curso, Sabina enfrentou outra batalha: o filho se tornou dependente químico. Para piorar, terminou preso. Por pouco, Sabina não desistiu de tudo. "Quase entrei em depressão. Me fechei em casa, mas quanto mais eu me escondia, mais pessoas batiam na minha porta pedindo ajuda. Vi que era uma missão mesmo", conta.

Mais uma vez, ela arregaçou as mangas. Conseguiu uma clínica de reabilitação para o filho e depois, o entregou para a Justiça. Ela queria que ele cumprisse o que devia ao Estado. "O delegado me disse: a senhora sabe o que está fazendo, né? Seu filho pode amá-la ou odiá-la para sempre. Mas eu insisti. E deu certo. Hoje, ele já cumpriu a pena, trabalha e está longe das drogas", garante.

Sabina conta com orgulho todos os "títulos" que carrega: representante da sociedade civil no Conselho de Saúde do Distrito Federal e no Conselho de Direitos Humanos; presidente da Associação dos Carroceiros do Distrito Federal (não é carroceira, mas defende a causa); agente de justiça comunitária, "terapeuta" voluntária no presídio feminino do DF.

"Me orgulho muito de tudo que vivi, especialmente quando vejo uma delegacia para mulheres. Foi muita luta para isso!", diz sorridente. Aos 56 anos, Sabina ainda sonha com a escola. Diz que está tentando concluir o ensino fundamental em um supletivo. Casada de novo, está em paz com o passado. "Faria tudo de novo, só que melhor ainda!".

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