Maria de Fátima é uma vilã muito mais completa. Mas isso não faz de Norma uma mocinha

Mais de 20 anos depois, a novela "Vale Tudo", de Gilberto Braga, fez uma nova geração de pessoas grudarem os olhos na telinha para descobrir que fim levou a megavilã Maria de Fátima e também saber quem matou Odete Roitman. O canal de TV a cabo Viva levou ao ar, na madrugada desta sexta-feira (15), o último capítulo da trama que fez enorme sucesso em 1989, e repetiu o burburinho com sua estreia na TV paga.

As duas décadas que se passaram não deixaram a trama desatualizada. “Os vilões são sempre atuais. No caso de Vale Tudo, a Maria de Fátima era jovem, bonita e tinha uma mãe humilde, que sofria bastante. Ela queria melhorar de vida. Isso ainda é muito presente. O desejo da população é esse, o que não quer dizer que as pessoas que se identificam com a personagem concordem com suas maldades”, explica Cristiane Valéria Silva, psicóloga mestra em Artes pela Universidade Estadual de Campinas
(UNICAMP).

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Maria de Fátima
Mesmo depois de inúmeras maldades, Maria de Fátima, interpretada por Glória Pires, não teve o final esperado para uma vilã. Ela se casou com um príncipe italiano, em mais uma armação orquestrada por seu amante. Já Odete Roitman, personagem de Beatriz Segall, foi morta por engano por Leila, feita por Cássia Kiss. Outra que não pagou pelo crime que cometeu: fugiu do país ao lado de seu marido.

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Mas ao contrário de Odete Roitman, odiada por grande parte dos telespectadores, Maria de Fátima não despertou a ira popular. De acordo com Claudino Mayer, pesquisador de teledramaturgia da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro “Quem Matou... o Romance Policial na Telenovela” (Ed. Annablume), a explicação para tal empatia é simples: “Odete Roitman repudiava o Brasil e isso provocou muita revolta na época. Ela agredia o povo. Maria de Fátima era diferente. Ela queria status e dinheiro. A ascensão social era difícil e por isso as classes C, D e E projetavam na personagem as suas aspirações. Ela tinha traços humanos fortíssimos que acabavam causando muita identificação.”

Norma não é vista como vilã pelos telespectadores, mas é assim que os psicólogos a enxergam
DivulgaçãoTV Globo
Norma não é vista como vilã pelos telespectadores, mas é assim que os psicólogos a enxergam
Norma
A personagem interpretada por Glória Pires atualmente em Insensato Coração, mais uma vez é perdoada pela população, apesar de passar por cima das leis e da moral. A atriz já declarou que muitos a param na rua para se solidarizar com as injustiças sofridas pela enfermeira, que era humilde e trabalhadora no início da trama.

Mas será que Norma pode ser considerada uma vilã ou é apenas uma coitada, vítima das armações de Léo, interpretado por Gabriel Braga Nunes? “Que ninguém se engane. Ela é uma vilã, sim. É ardilosa, sagaz, planeja suas ações e seu objetivo é a vingança”, afirma Claudino. Já Cristiane não é tão enfática. “Norma é uma vilã, mas pode também ser considerada uma justiceira. Com Léo, por exemplo, não há dúvidas: é um vilão. Ele comete crimes, faz intrigas e não poupa nem seus familiares. Mas Norma tem a motivação de consertar uma injustiça que foi feita com ela no passado.”

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Depois de ter cumprido pena por assassinato injustamente – o homicídio foi cometido por Léo -, Norma muda e mostra o seu lado impiedoso. “Ela vira uma continuação das maldades de Léo. Mas para as pessoas está realmente difícil enxergá-la como uma pessoa má que merece punição pelos seus atos”, afirma Claudino, que estuda a vilania nas telenovelas

Maria de Fátima x Norma
Entre Norma e Maria de Fátima, qual seria a mais impiedosa? De acordo com Claudino não há dúvidas: “Maria de Fátima é muito mais vilã do que Norma. Em telenovela podemos observar que uma vilã atual traz características de outros antigos. Com a personagem de Vale Tudo não foi assim. Ela surgiu completa e muito além de seu tempo. Não foi resultado de uma evolução.”

“Em termos de evolução de vilania, a Norma poderia ser avó da Maria de Fátima que representou uma revolução para os padrões da época. Até hoje poucas vilãs de telenovelas estão à altura da Maria de Fátima”, ressalta Claudino.

Cristiane também considera Maria de Fátima muito mais vilã que Norma. Em termos de construção de personagem, ela é mais completa e possui traços claros de vilão. “A motivação da Norma a torna uma vilã mais fraca. Ela não é movida por motivos egoístas, como Maria de Fátima. Ela quer justiça. A motivação faz toda a diferença, neste caso”, afirma.

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