Valorizar o vínculo de confiança e saber as consequências da revelação são requisitos essenciais para se manter um segredo

Contar um segredo que não podia ser revelado é uma forma de se sentir poderoso por ter uma informação valiosa
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Contar um segredo que não podia ser revelado é uma forma de se sentir poderoso por ter uma informação valiosa
Os militares que participaram da missão que resultou na morte do terrorista Osama Bin Laden, conhecidos como Seals - força especial da marinha dos EUA usada em missões de risco –, terão suas identidades mantidas em segredo pelo governo americano. A decisão foi tomada para preservar a segurança dos envolvidos na operação. Nem eles, os homens que empunharam as armas, nem nenhum dos envolvidos pode dizer que participou de um dos momentos históricos mais importantes do século. Imagine ter uma informação tão importante e não poder contar para ninguém. Será que é fácil garantir esse tipo de sigilo?

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Na vida cotidiana, os eventos podem não ter a magnitude de uma ação histórica, mas mesmo assim às vezes o segredo é considerado necessário – e a língua coça. É muito comum que as pessoas contem segredos para os amigos ou familiares e peçam sigilo. Pode ser um fato profissional, problemas familiares ou pessoais. Não importa a relevância do assunto, segredos são feitos para serem respeitados, afirmam especialistas.

Mas a verdade é que, para que um segredo seja realmente guardado, é necessário que haja um comprometimento muito grande dos que foram escolhidos para partilharem do acontecimento. Além disso, pensar nas consequências da revelação do fato em si é fundamental. Se estas duas condições não estiverem claras, é provável que haja um vazamento de informações. Quem quer compartilhar algo que requer sigilo deve ter muito cuidado para decidir em quem confiar.

Informação privilegiada
A psicóloga clínica Eda Fagundes explica que ser escolhido para ser depositário de um segredo demonstra um vínculo de confiança que não deve ser quebrado. “Saber respeitar a vontade de manter algo sob sigilo é uma questão de valores culturais. Precisamos ser mais treinados a entender a grande importância que tem um segredo. Na vida cotidiana, são poucas as pessoas que conseguem enxergar isso”, afirma.

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Uma das razões que fazem uma pessoa tornar público o que lhe foi confiado, segundo a psicóloga clínica Camila Mareze, é a sensação de poder que vem com a informação. “Saber algo que todos sabem perde um pouco a importância. Agora, quando só você tem conhecimento daquilo, a informação se torna privilegiada.”

De acordo com Camila, revelar um segredo sem pensar nas consequências consiste numa ação egoísta cada vez mais comum. “Ninguém está dizendo que é fácil não deixar escapar alguma coisa que deveria ser segredo, mas, se você sabe que corre o risco de contar o que te falam em sigilo, peça para não te contarem.”

Código de ética
Em alguns casos, saber manter os fatos em segredo é obrigatório por lei. Médicos, psicólogos, advogados e outros profissionais precisam respeitar a ética exigida para o exercício da profissão. Não é uma questão de consciência apenas. A violação destes códigos consiste em aplicação de punições.

A professora doutora em ginecologia e obstetrícia Maria Cristina da Silva Lazar confessa que isso nem sempre é fácil. Quando escolheu fazer medicina, sabia do pré-requisito da profissão. No entanto, ela confessa que não imaginava que viveria tantos conflitos em sua carreira.

“Eu jamais revelei uma informação de um paciente meu, mas já tive vontade. Médico é ser humano e, quando vemos uma situação que não está correta, temos o impulso de julgar. Isso é perigoso, porque a ética médica não nos permite emitir opiniões pessoais”, confessa Maria Cristina.

Na opinião de Eda Fagundes, o que diferencia o cidadão comum de um profissional que não pode divulgar certas informações que chegam ao seu conhecimento é a valorização da importância do vínculo de confiança. “Um médico ou um psicólogo, por exemplo, sabe que a discrição é base para uma carreira sólida. Sem isso, ele deixa de ser ético. O que é gravíssimo.”

Sem exceções
A advogada Andréa de Souza Gonçalves, 37, também já passou por conflitos internos referentes à obrigatoriedade do sigilo profissional. Ela conta que, na advocacia, não há exceções: nada que o cliente revela pode ser compartilhado com outras pessoas. “Apesar de saber que uma empresa que eu venha a defender, por exemplo, seja culpada, não posso deixar isso vazar. Às vezes, ficamos bastante divididos entre o que é certo fazer e o que podemos fazer”, revela.

Mas e quando a pessoa realmente não consegue ficar calada? “Bom, eu acho que ela precisa ver se está na profissão correta. Simples assim”, afirma Andréa. Ela conta ainda que discrição é um traço de sua personalidade, mas acredita que essa habilidade pode ser treinada e aprendida. “O ser humano consegue se adaptar a diversas condições. É tudo uma questão de necessidade.”

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