Para os noveleiros, o segredo de Gerson pode não ter tido muita graça. Mas a vergonha das próprias fantasias sexuais afeta muitos

À parte o anticlímax dramático - no fim, a ex-mulher enojada e o irmão chantageador teriam dificuldades em expor o pobre Gerson (Marcello Anthony) pela falta de um nome para dar ao seu difuso e pouco singular segredo -, o personagem atormentado da novela "Passione" pode acabar tendo sido mais importante para muitos telespectadores assim do que se escondesse uma vida sexual bizarra e mirabolante. Gerson tem um problema: pensamentos e desejos que, para ele, são fonte de vergonha e sofrimento. Como para muita gente. "É muito comum. Aliás, o mais esperado é as pessoas se incomodarem com as próprias fantasias sexuais", diz o psicólogo e terapeuta sexual Paulo Tessarioli .

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O personagem Gerson em cena de terapia com Flávio Gikovate
Antes do incômodo das pessoas, no entanto, o incômodo de Gerson: Tessarioli explica que existe um "universo gigante de formas de se compreender o homem" dentro da psicoterapia e que, se Gerson entrasse em seu consultório, ele não entenderia que ele tem uma fixação por sexo em situações degradantes, e sim que essa é a forma de sua mente trazer para a consciência o abuso sofrido na infância, que não foi trabalhado até a vida adulta. Para o mesmo "paciente", o psiquiatra e também terapeuta sexual Carlos Eduardo Carrion opta por uma outra abordagem. "Essa história de um abuso, de um episódio que determina tudo, tem mais a ver com a necessidade que a gente tem de simplificar e encontrar respostas do que com a realidade", diz. "O mais provável é que exista na pessoa uma predisposição a uma doença, e que aquele episódio determine que ela vai então ter uma alteração de conduta".

Carrion usa "doença" para falar de Gerson não pelo teor de suas revelações, mas porque ele vive uma situação que traz sofrimento. Sofrimento e fixação exclusiva, para os dois terapeutas, são os limites para que a fantasia se torne preocupante. "Ficamos entre o campo moral e o campo médico, cada um decide o que é mais adequado. O que aponta para o quadro médico é o sofrimento. Sempre que há sofrimento, você pode pensar em doença", diz Carrion. Isso significa que o problema não é o que passa pela cabeça de cada um na hora da excitação, e sim o espaço que aquilo ocupa na vida da pessoa. "Não existe um pensamento ou uma fantasia doente. " Gerson tem um problema por dois motivos - porque sofre e porque só encontra prazer em um único tipo de pensamento.

Eu sou normal?

"Fantasia sexual é uma coisa algo fantástica e muito importante, que dá sentido para o contato sexual. Sem um correspondente imaginário, por exemplo, a masturbação é só uma atividade friccional, não tem sentido", diz Tessarioli. "Ajuda a se conhecer, descobrir do que cada um gosta e não gosta, o que tolera, o que gostaria de experimentar". O psiquiatra Carrion também destaca a normalidade e a importância da imaginação. "Tenho uma estante cheia de livros no meu consultório, e costumo mostrá-la a meus pacientes e dizer que 'tudo isso é produto de fantasia e todas essas pessoas são brilhantes'. E nos livros há assassinatos, estupros, todo tipo de coisa. Tudo fantasia".

Ter uma fantasia não significa colocá-la em prática. Elas funcionam bem no campo da imaginação, onde tudo vale. "O problema começa quando o desejo rompe a barreira física, ou seja, quando eu toco o outro", diz Carrion. Para dar esse passo, Tessarioli lembra que não há necessariamente obstáculos entre adultos que consintam e se preocupem com sua saúde e segurança. Mas ele costuma recomendar a seus pacientes que se imaginem no dia seguinte. "Se disserem que não têm certeza se sentirão bem, que terão ciúme ou que acreditam que só vão querer a nova prática para o resto da vida, talvez seja uma boa ideia manter a fantasia no campo das ideias naquele momento", diz.

Imagens no computador excitam, mas também despertam culpa em Gerson
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Imagens no computador excitam, mas também despertam culpa em Gerson
Se o encontro entre desejo, imaginação e realidade fosse sempre suave, os consultórios deles não estariam cheios. "Geralmente, as pessoas se incomodam até com as fantasias mais bobinhas. Não precisa ser nada muito bizarro", diz Tessarioli. Ele usa como exemplo pacientes que se sentem mal por pensar em um colega de trabalho atraente e atencioso quando transam com seus maridos. "Elas contam com muita vergonha, perguntam se é normal", explica. Quando a própria fantasia perturba demais um de seus pacientes, o psicólogo diz que muitas vezes isso é sinal de que há alguma coisa no histórico de vida que incomoda a pessoa. "Vou conversando, comendo pelas beiradas, e acabo descobrindo que aquela mulher que tem tanta vergonha de pensar no colega de trabalho teve uma mãe que traiu o marido e foi expulsa de casa, por exemplo".

Além de levar em consideração o quanto os próprios desejos são fonte de incômodo, o outro indício apontado pelos psicoterapeutas como preocupante é a fixação em uma única fantasia. "Sempre que você tem um quadro neurótico, tem um estreitamento de consciência. Ou seja, o cardápio de vida é menor", explica Carrion. "Um sujeito que a cada dia tem uma fantasia, mesmo que entre elas estejam as chamadas bizarras, está absolutamente dentro do normal. Mas um sujeito que só consegue fantasiar com uma mesma coisa já tem um indicativo de pobreza imaginativa por fator neurótico".

Para a vergonha de si mesmo e a falta de imaginação, o remédio é o mesmo: terapia.

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