Mais por estilo do que para marcar as horas, o relógio de pulso volta a conquistar uma geração que parecia perdida para ele

Andy Greenblat mostra seis tipos de relógios de pulso em voga entre os clientes de sua loja na Califórnia
Peter DaSilva/The New York Times
Andy Greenblat mostra seis tipos de relógios de pulso em voga entre os clientes de sua loja na Califórnia
Michael Williams, autor de “A Continuous Lean”, um blog sobre estilo masculino, se desfez de seu Timex quando comprou seu primeiro celular, em 2001. Tyler Thoreson, chefe de um site de vendas, geralmente deixa seus esquecíveis relógios em uma gaveta. E Eddy Chai, dono da Odin New York, uma butique nova-iorquina, desistiu de usar relógios de pulso quando tinha vinte e poucos anos e decidiu que estava maduro demais para seu Casio.

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Mas depois de ficarem com os pulsos livres pela maior parte da década passada, os três – todos com mais de 30 anos e considerados formadores de estilo – estão voltando no tempo. Thoreson, 38, quer comprar um IWC vintage de ouro ou um Rolex GMT-Master. Chai, 38, tem usado um Rolex antigo, meio solto, “menos para ver as horas do que como jóia”, diz. E Williams, 32, foi mais longe e comprou logo três. “Atualmente, não há nada mais cool do que usar um relógio de pulso. Se for o Rolex que era do seu avô, melhor ainda”, diz Williams.

Há menos de uma década, o tempo dos relógios de pulso parecia estar acabando. Com celulares, iPods e outros aparelhos equipados com marcadores de hora cada vez mais populares, houve quem declarasse os relógios de pulso antiguidades prestes a se unir às fitas VHS, Walkman e calculadoras.

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O relógio de pulso “pode estar seguindo o destino do ábaco”, declarou um artigo no jornal The Sacramento Bee em 2006. Para o Times de Londres, a peça estava “no mesmo caminho do relógio de sol”. The Boston Globe, em um artigo de 2005, foi mais enfático: “Qualquer um que precise saber as horas hoje em dia será mais esperto se perguntar a alguém com mais de 30 anos. Para a maioria dos jovens, o relógio de pulso é um artefato obsoleto”.

Ou não.

Benjamin Clymer, 28, dono de uma revista online sobre relógios
Elizabeth Lippman/The New York Times
Benjamin Clymer, 28, dono de uma revista online sobre relógios
O apelo retrô faz com que a peça venha vivendo um crescimento no interesse especialmente das pessoas na casa dos 20 e 30 anos.

Há alguns meses, Gilt, o site de vendas onde Thoreson trabalha, organizou uma promoção de relógios antigos. Catorze dos dezessete itens à venda por um preço médio de R$ 7.500 foram vendidos em seis horas. Agora, ele promove um evento desses por mês.

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Em defesa dos que previam o fim da peça, eles não estavam totalmente errados. Poucas pessoas precisam de relógios de pulso para ver as horas. Melanie Shreffler, editora-chefe do Ypulse, companhia que pesquisa tendências entre jovens, diz que “mesmo os estudantes que usam relógios sacam seus celulares quando querem ver as horas”.

Hoje em dia, um relógio de pulso pode parecer pouco prático, frívolo e uma maneira cara de mostrar seu estilo. Mas isso é apenas outra forma de dizer que é moda.

“Levando em consideração o quão casualmente a maior parte das pessoas se veste no dia a dia, um relógio glamouroso é um dos poucos acessórios que podem ser ao mesmo tempo esportivos, luxuosos e úteis”, diz o estilista Michael Kors, que também assina uma linha de relógios enormes fabricados pela Fossil e muito populares entre mulheres com menos de 30 anos.

Para uma geração criada com Game Boys, no entanto, o apelo parece ir um pouco mais fundo do que simplesmente o desejo por outro acessório de moda. Em um mundo cercado pelas eternamente brilhantes telas de LCD, há algo de chique em usar um instrumento mecânico.

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“Uma máquina cool cheia de partes em movimento tem algo intrinsecamente interessante para alguém nascido nesta geração, porque não há mais nada assim em suas vidas”, diz Mitch Greenblatt, fundador, ao lado do seu irmão Andy, da Watchismo, uma revendedora de relógios de vanguarda na Califórnia. Isso pode explicar a razão de os relógios-esqueleto – aqueles em que as engrenagens ficam à mostra – serem cada vez mais populares atualmente, diz ele. “Você quer ver as partes em movimento”.

De fato, há alguma intimidade que se cria entre o usuário e o relógio que precisa de corda. “Um relógio mecânico depende de você tanto quanto você dele”, diz Benjamin Clymer, 28, que tem uma revista online sobre o assunto. “Sem você, ele morre”, afirma, quase com afeto paternal.

Grandes magazines estão embarcando na onda da nostalgia. A J. Crew vende uma linha de simples e tradicionais Timexes (uma marca que até há pouco tempo era vendida em farmácias). American Apparel tem feito algo similar com relógios retrô de gerações um pouco mais novas, apostando que os consumidores da Geração Y que eram jovens demais para lembrar de quando os VJs mandavam na MTV vão cobiçar os Casios e Seikos daquela era. A cadeia de lojas começou a vender relógios em dezembro, quando o dono Dov Charney teve um palpite de que as “a molecada ia amar isso”.

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Seu palpite é apoiado pelos números da indústria. Depois de cair 35% em 2008 e mais 13% no ano seguinte, as vendas de relógios entre 150 e mil dólares se recuperaram e, no último trimestre, estão 15% acima do mesmo período do ano passado. Os relógios de luxo estão ainda melhor. As vendas daqueles com valor entre dez mil e 25 mil dólares subiram 33%.

O Swatch Group, maior fabricante de relógios de pulso do mundo, está trabalhando para conseguir aumentar a capacidade de sua fábrica depois que seu lucro bruto subiu 42% no último ano (a companhia, que é dona da Omega, Longines e mais uma dúzia de outras marcas além da Swatch, é também uma grande fornecedora de peças para outras marcas). A Fossil Inc. viu suas vendas globais subirem 44.4% no primeiro trimestre.

Mas a nova onda dos relógios vai além do gosto pelo simples e retro. Jovens consumidores buscam peças enormes e chamativas, dizem os vendedores. Se você vai usar um incômodo anacronismo no seu pulso, é melhor que reparem. “Os gadgets mais legais que eles compram hoje em dia são iguais aos de todos os outros amigos”, diz Mitch Greenblatt da Watchismo. “Mas um relógio diferente tem boas chances de ser uma peça única em seu círculo social”.

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