Consultoras de moda e etiqueta, professoras universitárias e antropóloga analisam o caso da aluna da Uniban

Geisy e o vestido na sala de aula
Reprodução
Geisy e o vestido na sala de aula
Nada justifica a agressão sofrida por Geisy Arruda, aluna de Turismo da Universidade Bandeirante que teve de ser escoltada até a saída da faculdade no dia 22 de outubro após ser cercada por uma multidão de alunos por causa do vestido que usava. No último domingo, a universidade legitimou a turba ao anunciar a expulsão de Geisy. No dia seguinte, o reitor revogou a decisão. Um minivestido pode causar tanto furor? Especialistas em moda e comportamento fazem suas avaliações.

O caso repercutiu quando imagens da saída da aluna gravadas por um celular, em meio ao tumulto e ao coro de xingamentos, foram postadas no YouTube. Geisy usava um jaleco por cima de um minivestido vermelho, o causador da confusão. “Geisy se equivocou na avaliação do poder de uma roupa”, analisa Gloria Kalil, autora de livros sobre comportamento e etiqueta e consultora de moda. “O único equívoco dela foi usar uma roupa de ‘balada’ para ir à faculdade – o que, é claro, não justifica as reações dos alunos, nem da universidade”.

Mirian Goldenberg, antropóloga, professora de Antropologia na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e autora de “Toda Mulher é Meio Leila Diniz” , acredita que centenas de casos como este já aconteceram por aí, em faculdades, nas ruas e em diversos outros lugares.  “A diferença é que este foi registrado e fez com que todo mundo falasse do assunto”.

Para Lícia Egger-Moellwald, professora da Universidade Anhembi Morumbi, consultora de etiqueta e colunista do iG Delas , a ousadia fashion da aluna expôs o preconceito que existe em todo mundo. No entanto, Geisy não foi a primeira aluna universitária a causar comoção em uma sala de aula por causa da maneira como se apresentou.

“Uma vez eu estava dando uma aula na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) e uma aluna de longos cabelos loiros entrou na classe de calça de cintura baixa, top e barriga de fora”, relembra Lícia. “A aula simplesmente parou ali – mas a menina não foi perseguida ou acuada pelos alunos”.

Vestida para matar
A escolha de uma roupa passa por uma série de fatores. Todos os dias, quando você abre o guarda-roupa de manhã, escolhe não só um conjunto de peças, mas também uma mensagem – mensagem esta adequada ao lugar onde você vai e ao que você quer dizer para as pessoas que vai encontrar.

É uma espécie de código silencioso. Subentende-se que uma pessoa não vai de chinelos a uma entrevista de emprego, da mesma forma que não iria de longo e salto à praia. No entanto, há sempre margem para interpretações. “O erro de Geisy foi não imaginar que aquela roupa causaria tamanho impacto”, avalia Lícia.

Se o caso de Geisy pode ser definido, então, como um “erro de comunicação”, as faculdades poderiam estabelecer um código mais claro sobre o que pode ou não ser usado em suas dependências? A consultora considera isso impossível. “O vestuário é uma expressão individual”, alerta.

Alexandra Farah, colunista de moda, concorda. Para ela, hoje em dia cada um se veste como quiser, na hora em que quiser. A repercussão do que aconteceu com Geisy pode levar as próprias alunas a repensar suas vestimentas, mas para Alexandra isso seria um retrocesso na moda.

Para a antropóloga Mirian Goldenberg, que também é professora universitária, a conduta de um aluno ou aluna não pode ser determinada pela roupa. “Isso é medido pelo interesse, pela participação e pelo respeito - inclusive o respeito ao que é diferente”, opina. “Ontem, com os termômetros em 40 ºC aqui no Rio, eu tinha três alunas de short e havaianas na sala. Elas entraram, participaram da aula e saíram sem ser incomodadas”.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.