Evitar discussões ou brigas de maneira crônica pode ter sérias consequências a longo prazo, como surtos de raiva

Faz algumas semanas que Casey Heynes ganhou notoriedade: o australiano de 15 anos de idade é protagonista de um vídeo amador que vem circulando na internet e contabiliza centenas de milhares de acessos. Nas imagens, ele está no pátio do colégio quando toma um soco no rosto. O agressor, outro garoto, segue com os golpes, provoca. E então, num ímpeto, Casey suspende ao ar o colega de escola e o arremessa contra o chão, com fúria. O agressor inicial levanta-se cambaleante e desnorteado, enquanto Casey se afasta.

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Já na fase posterior à fama repentina, ele explicou num programa de tevê que vinha sendo vítima de bullying havia três anos. Faziam troça de seu sobrepeso. Jamais reagira, e chegou mesmo a considerar suicídio, em suas próprias palavras. Até que veio o tal ataque furioso.

No caso (extremo) de Casey, há diversos componentes envolvidos no episódio: a reação ao vexame recorrente a que estava exposto, o sentimento acumulado por longo período etc. Mas, em alguma medida, pode-se especular que ocorreu um surto de raiva, que é uma das decorrências possíveis da opção por evitar conflitos a todo e qualquer custo.

Ao se falar em “conflitos”, agora, devem ser consideradas as discussões naturais, as trocas verbais, trocas de ideias – e nada de tomar isso como sinônimo de embate físico. Ocorre que há pessoas que fazem de tudo para escapar dessas situações. Evitam tanto quanto lhes for permitido, e tal postura periga provocar danos.

Muitos evitam discussões por medo de serem rejeitados
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Muitos evitam discussões por medo de serem rejeitados
“Se você não coloca essa energia no lugar adequado, ela vai se expressar de alguma outra forma. Pode ser no físico (alguma doença) e pode ser no emocional (de maneira concreta, nos aspectos interpessoais, nos relacionamentos)”, aponta o psicólogo Lucio Guilherme Ferracini, diretor de ensino e ciências da ABPS (Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama). Segundo ele, o indivíduo absolutamente avesso à discussão, em casos mais sérios, se isola, tem alteração prejudicial dos vínculos e sua produtividade diminui.

Para ‘não perder a amizade’
O coordenador de logística Hugo Fonseca Garcia, 34, de Belo Horizonte (MG), conta que sua maneira “pacífica” tem reflexos em todos os campos de sua vida e que já se sentiu prejudicado por diversas vezes. “Eu estive num relacionamento em que fui taxado até como ‘político’. Ela me perguntava: ‘Por que você é desse jeito, por que você não discute?’. Sem contar que a gente fica querendo soltar e também fica engolindo aquilo ali”, recorda. “Sofre por dentro de alguma maneira, e pode até descontar em outra coisa que não tem nada a ver.”

A despeito desses efeitos negativos, ele diz que gosta de ser assim e julga que os benefícios superam os problemas. Inclusive no emprego, em que ocupa uma posição que muitas vezes faz a ponte entre diretoria e operários. “É uma empresa italiana, a maioria discute, tem conflito. Já fui cobrado de ser mais assertivo, mas entendem meu jeito. E não quer dizer que eu não tenha opinião forte. O que eu faço é mostrar minha opinião de modo diferente.”

Observa, no entanto, que carrega alguns arrependimentos das brigas que “não comprou”, como aquela em que, tempos atrás, colocado contra a parede por um casal de amigos, optou por não tomar partido. “Fui omisso, para não perder a amizade. Deveria ter agido de outra forma”, assegura.

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A exemplo de Hugo Garcia, o consultor empresarial Eduardo Eiji Vargas Kuwabara, 29, de São Bernardo do Campo (SP), afirma que sempre se esquivou das brigas. “Imagino que, em algumas situações, se eu tivesse tido uma postura mais enérgica, não teria sido afetado. Quando a pessoa percebe que você fica na defensiva, acaba abusando.” Refere-se, sobretudo, à época da escola.

Ele acha que, no momento atual, é necessário mais cuidado: “Hoje, vejo até um pouco como uma falha mesmo, principalmente na vida adulta. Não é bom ser 100% passivo, evitar o confronto. Tenho me policiado em certas situações, para tomar posição. Mas, ainda que queira adotar essa postura, é muito difícil para mim. Tenho um perfil muito mais conciliador, diplomático”.

Lidar com as diferenças
O psicanalista Ernesto Duvidovich, diretor do CEP (Centro de Estudos Psicanalíticos), entende que não há uma fórmula capaz de dizer quando vale a pena comprar uma briga. Depende da pessoa, da circunstância de vida de cada indivíduo. É matéria relativa, portanto, de acordo com a sua compreensão. As intensidades dos sentimentos variam de sujeito para sujeito. Ademais, vínculos e relações passam necessariamente por discussões, necessárias à saúde física e mental.

Entretanto, ele fala em “patologias de conflito”. “A falta total de conflito é a pior delas, se é definitiva, se é algo que predomina. É uma condição interna que precisa de tratamento, porque vai dificultar muito a vida do sujeito. Poderá adoecê-lo, e vai atrapalhar seu desempenho, tanto pessoal quanto profissional”, avalia.

Como exemplo típico, ele cita as discórdias entre casais. Existem, obviamente, os que não conhecem momentos de harmonia, de encontro – estes estariam com o tipo inverso de patologia. Mas aqueles que não têm nenhum conflito estão estagnados, não crescem e acabam estabelecendo uma relação “infantilizante”.

“Inclui-se, aí, uma questão fundamental, muito mais sutil: saber lidar com diferenças. Alguém que cronicamente se apaga ante qualquer diferença, que escolhe não confrontar em qualquer ordem, está incapaz de lidar com divergências. Tem a fantasia de que o outro nunca vai admitir uma diferença, é algo que ele projeta no outro. Ele não sabe lidar com a situação e supõe que ninguém saiba.”

Medo de ser rejeitado
O psicólogo Lucio Guilherme Ferracini ressalva que a pessoa que apresenta tal característica é costumeiramente vista como generosa. E tem medo de magoar, de provocar qualquer rejeição. No fundo, porém, ela talvez se afaste do enfrentamento para não perder a posição de bem vista, bem quista. “O preço que ela paga está numa balança desigual, pendendo mais para o sofrimento”, pondera.

Para Ernesto Duvidovich, o mal-estar, em si, não é patológico. Em relação a sentimentos íntimos, as pessoas podem viver arrependimentos, viver a culpa por tomar parte em entreveros, por expressar descontentamento, por não expressar. “O mal-estar faz parte do sujeito. A modernidade cria uma imagem de subjetividade induzindo algo como ‘você tem que ser feliz!’, e isso significaria não ter conflito, nada de brigas. Esse ideal subjetivo gera muitas inibições”.

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