Conheça a história da garota que já viveu todos os papéis nas ruas de SP

Especial meninas de rua: A história de uma jovem que lidera 20 crianças. Na foto, meninos e garotas consomem cola no centro de SP
Daniel CB
Especial meninas de rua: A história de uma jovem que lidera 20 crianças. Na foto, meninos e garotas consomem cola no centro de SP
Quem olha, arrisca 11 anos de idade, no máximo, por causa da altura que não passa de 1,50 metro, da cintura fina, do corpo desnutrido. Quem ouve, deduz que ela já viveu muito mais do que os anos que aparenta: a garota diz morar na rua há mais de uma década, conta que já usou todo tipo de droga, enfrentou três gestações, um estupro. Apanhou da polícia. Foi presa. Perdeu o pai e viu a mãe enlouquecer no crack após a morte de três de seus irmãos. Sente-se responsável por 20 crianças sem família.

Bia Formiguinha tem 19 anos.

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Novas meninas de rua assumem vaidade e liderança

Formiguinha não é seu nome verdadeiro. Nas ruas, o apelido é outro – sua estatura de chefe não é abalada pelo batismo que destaca a fragilidade de sua estatura física. Mas a pequena líder não permite que a identidade real seja divulgada.

Foi esta jovem que primeiro mostrou à reportagem que a vaidade e a liderança agora também compõem o retrato da população de 6.800 crianças do sexo feminino que vive pelas ruas do País, segundo o censo feito pelo Conselho Nacional de Crianças e Adolescentes (Conanda). Desde sábado, uma série de reportagens é publicada sobre estas meninas, resultante dos 40 dias que o iG acompanhou a história de Bia e outras 13 garotas do asfalto.

Encontro

Vaidade a céu aberto: meninas cuidam da aparência mesmo longe de casa. Uma ajuda a outra a ficar mais bonita
Daniel CB
Vaidade a céu aberto: meninas cuidam da aparência mesmo longe de casa. Uma ajuda a outra a ficar mais bonita
Em uma tarde de sexta-feira, a reportagem encontrou Bia dormindo em uma das ruas do Centro de SP. Os cabelos desarrumados logo foram presos em tranças. Da mochila que servia de travesseiro, ela tirou um lápis de olho branco, marcou as pálpebras, passou blush e gloss. Quase todas as meninas da turma usam piercing no nariz. Moda lançada por Bia, a primeira que adotou o acessório e furou a narina das colegas a seco, da mesma forma que fez em si. “Com um outro brinco, a gente fura. Dói, escorre lágrima, mas fica da hora”, contou.

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Bia é quem comanda o grupo de cerca de 20 meninos e meninas, que perambulam e dividem colchões na região central. Um exército mirim com garrafinhas plásticas em punho, todas cheias de tíner ou cola – sempre providas por Bia (o custo é de R$1. Um café no Centro vale R$ 2,50). É ela também quem separa brigas no grupo, como a que o iG testemunhou.

Sentindo-se lesado em uma partida de damas – o tabuleiro fora emprestado por assistentes sociais - Júlio atirou peças pelos ares e começou a distribuir insultos à menina Bruna. A intervenção de Bia pôs fim à discussão: “Júlio! Recolhe as peças agora! E pede desculpas pra Bruna. Tô mandando!”.
Quando o assunto é comida, as ordens de Bia também são respeitadas. “Divide com ele! E você, compra um lanche”.

Daniel CB
Meninas que viveram na rua contam como encaram a maternidade
É difícil saber como Bia chegou ao poder. É possível que a origem esteja na presença de três irmãos de sangue no grupo - dois deles ela proíbe de cheirar cola. Assim, a autoridade conquistada quando morava com a mãe foi estendida. Os garotões do grupo obedecem Bia mas negam que ela manda. "Na rua é cada um por si e ninguém manda em mim", disse um deles, após tomar um tapa na cabeça dado por Formiguinha em represália ao seu mau comportamento.

Dialeto
Com algumas garotas, Bia usa um dialeto próprio, incompreensível para os meninos. Antes da primeira sílaba de cada palavra coloca a letra “P”. Usa a letra “M” antes de pronunciar a segunda sílaba e a “R” anteriormente à terceira. Neste linguajar, perguntou às colegas se aceitariam conversar com a reportagem. Foi decidido que sim. Mas nada de imagens.

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Na selva de pedras que é a rua, este grupo do Centro tem três regras vigentes: ninguém entrega os amigos à polícia, ninguém pode abusar das meninas amigas de Bia e não é permitido se deixar fotografar. Quem se arrisca, pode levar uma pedrada.

Nas poucas vezes em que volta para casa, Bia também impõe normas aos outros irmãos, à mãe e até aos vizinhos. “Qual é a regra da minha cama? Ninguém senta, só as visitas”, disse na vez em que autorizou a reportagem a acompanhar seu retorno ao lar. Bia referia-se à cama de casal, onde dorme sozinha enquanto os sete irmãos revezam o espaço entre um colchão e um beliche. A mãe dorme no chão. Aos vizinhos, marmanjos e adultos, ela ordena, sem cerimônias, que lavem suas roupas.

“De alguma forma, a ascensão da mulher registrada nos setores formais, como mercado de trabalho, política e poder público, aparece no submundo”, afirma Ariel Alves, advogado da Fundação Criança, que atua com meninos e meninas em situação de rua. “Já temos meninas que lideram grupos, que coordenam pequenos furtos e tráfico de drogas. Em alguns casos, este potencial é usado de forma pejorativa. Elas, por causa da sensualidade precoce, podem fazer a diferença nos negócios com relação aos usuários de droga.”

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Rolê
A vaidade que acompanha Bia, de fato, não reflete apenas a vontade de ser bonita. Em um dos dias em que estava de calça legging rosa, short por cima, tênis de marca, coque na cabeleira e uma mecha solta na testa, o visual havia sido montado para fazer “correrias”: furtos em lojas ou de motoristas e pedestres distraídos.

Em um desses “rolês” – dos quais só participa quem ela escala – acabou sendo pega pela polícia. Já tinha passagem na Fundação Casa (antiga Febem), mas, naquela ocasião, a maioridade a levou pela primeira vez à uma cadeia de adultos, onde ficou sete meses. Saiu para parir o segundo filho, Felipe, o mesmo nome do pai da criança. O primogênito de Bia se chama Lucas, também em homenagem ao primeiro marido.

Tanto Lucas quanto Felipe – os antigos namorados de Bia - estão presos e não participam da educação das crianças.

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Segurança de loja aborda mulher que vive nas ruas do Centro de SP
Francisco Mitre
Segurança de loja aborda mulher que vive nas ruas do Centro de SP
O pai do terceiro filho é desconhecido. Esta gestação se deu em uma viagem de crack. Após queimar a pedra, Bia foi estuprada, ficou caída em um beco por dois dias e engravidou. “Fui salva por dois nóias que me encontraram desmaiada. Fui para a Santa Casa. Quando saí, decidi não usar mais crack. Agora só cola.” Esta criança nasceu morta.

As 40 Bias
A liberdade provisória concedida a Bia a obriga a visitar o juiz de tempos em tempos. Em um dos dias em que foi ao Fórum Criminal, o iG tentou acompanhar a audiência.

Na tentativa de descobrir a Vara em que ela seria atendida (são 31 no total), o banco virtual que contém o nome de todos os réus foi acionado. Só este ano, 40 mulheres com o mesmo nome de batismo de Bia cometeram furtos e estão com alguma pendência judicial.

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Essas outras Bias podem ser donas-de-casa, estudantes, profissionais que cometeram deslizes. Mas podem ter outras semelhanças à Formiguinha, como o estupro, a vaidade como mecanismo de sobrevivência e até serem líderes de meninos e meninas de ruas.

Fotografia
Os educadores que há anos acompanham a história de Bia Formiguinha contam que nem sempre ela foi a chefe. Já atendeu aos comandos de outra menina, que agora está presa, já andou desarrumada e já mudou a aparência (loira, ruiva, morena).

Bia se transforma assim como a rua. Marcelo Caran, coordenador do Projeto Travessia – que atua com crianças do centro – compara o dinamismo a uma fotografia. “Está sempre diferente. A situação de hoje, pode não existir amanhã.”

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Um dos desenhos de Sílvia e uma parte de sua fotografia. A menina se transformou nas ruas. Do olhar ingênuo ao desconfiado, ela hoje está mais parecida com a irmã Bia
Francisco Mitre
Um dos desenhos de Sílvia e uma parte de sua fotografia. A menina se transformou nas ruas. Do olhar ingênuo ao desconfiado, ela hoje está mais parecida com a irmã Bia
A constante mudança das “fotografias da rua” também é expressada por Sílvia, irmã biológica de Bia – uma das crianças proibidas, até então, de cheirar cola.

A menina de 14 anos, cabelos tingidos de vermelho e unhas coloridas em azul turquesa, arriscava dizer, quando estava perto do grupo, que era a “ruivinha mais gostosa da rua”. Mas, longe do alvoroço de crianças e adolescentes, lançava sorrisos tímidos para falar de garotos.

O cartão que ganhou de um menino, “que queria namorar, mas ela não”, ela guardava com cuidado dentro de um saquinho. Mostrava toda a sua meninice nos desenhos que fazia quando ganhava lápis e papel. Corações e muitas flores preenchiam a folha, que ela assinava com letra caprichada.

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Sílvia ainda tinha vínculo com a mãe e dizia que não gostava de ficar na rua. Mas a idolatria da menina pela figura de Bia a manteve fora de casa. Praticamente a única que não carregava uma garrafa plástica.
Nos últimos dias, Sílvia acabou sendo apreendida quando tentou roubar uma latinha de guaraná. Foi para a Fundação Casa. Pelo relato de alguns educadores que acompanham o grupo, Sílvia já não é mais a mesma. A ingenuidade e os sorrisos tímidos perderam lugar para um olhar magoado e cheio de desconfiança. Ela também foi flagrada usando cola. “Está muito parecida com a Bia”, disse um dos educadores.

Close
Nestas transformações, só o sonho de ser cabeleireira permaneceu imutável em Bia. Talvez, por isso, ela goste tanto de enfeitar suas colegas.

Na última semana de acompanhamento das meninas do asfalto, Bia não apareceu mais na rua, acuada pela ofensiva policial no local. No último encontro, não se despediu e só reforçou o “não” para novo pedido do iG de posar para uma foto, ainda que não a identificasse.

Bia, há 12 anos, está em close nas ruas do centro de São Paulo. Não parece favorável, agora, a deixar que as lentes das câmeras sejam a ponte entre sua história anônima e, ao mesmo tempo, escancarada ao mundo, que já a excluiu.

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