Um dia, o livro e o filme de David Nicholls, e outras ideias para falar de amor e aproveitar seus momentos de preguiça

Imagine um dia qualquer, digamos 15 de julho. Agora imagine que alguém resolvesse contar a história da sua vida olhando apenas para esse único dia. A cada ano, durante 20 anos, esse escritor com veleidades de deus esperaria amanhecer o dia 15 para olhar para você e descobrir por onde você anda e o que está fazendo. Mergulharia ainda mais fundo e olharia para os amores, as tristezas, os enganos e as fantasias dentro do seu coração.


Se esse dia em que tudo começa e tudo termina fosse hoje? Como encontraria você?

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Contar a história de um casal começando num dia 15 de julho em que eles se encontram na formatura da faculdade e acompanhando-os sempre no mesmo dia durante 20 anos é o que torna o romance Um Dia, de David Nicholls, um livro ao mesmo tempo engraçado, leve e...incomodativamente verdadeiro!

Cartaz do filme, Um dia, com Anne Hathaway e Jim Sturgess. Data prevista de estreia: 2 de dezembro
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Cartaz do filme, Um dia, com Anne Hathaway e Jim Sturgess. Data prevista de estreia: 2 de dezembro
David Nicholls é roteirista premiado algumas vezes. Talvez por isso faça cada capítulo do livro corresponder a um dos vinte dias 15 de julho que Emma e Dexter vão viver em duas décadas, e amontoe ali, naquelas 24horas, os mistérios, surpresas, aproximações e afastamentos, acertos e desacertos que compõem as idas e vindas de todas as histórias de amor. Coisa de bom roteirista, a vida picotada em minicrônicas sem enredos espetaculares onde quase todos nós poderíamos caber. Daí o incomodativo.


Acompanhar a história de Emma e Dexter ao longo dessa sucessão de dias 15 de julho faz a gente ficar imaginando que, de fato, cada dia encerra um pequeno mistério. Por isso, talvez, David Nicholls faz seus personagens viverem e reviverem o mesmo dia, à exaustão. A história deles, assim como a nossa, é tecida nos pedacinhos de cada dia.


Um Dia virou bestseller, vendeu mais de um milhão de cópias e foi traduzido em 37 idiomas, desde que foi lançado, em 2009. A adaptação para o cinema era inevitável e tem Anne Hathaway e Jim Sturgess nos papeis principais. A estreia no Brasil está marcada para 2 de dezembro.


Os atores veteranos William Hurt e Isabella Rossellini em cena de
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Os atores veteranos William Hurt e Isabella Rossellini em cena de "Late Bloomers - O Amor Não Tem Fim"

E já que estamos falando do amor jogado no tempo. Vale a pena ver Late Bloomers , com Isabella Rosselini e William Hurt, direção da francesa Julie Gavras, que vem sendo descrita como a Sophia Copolla européia por também ser filha de um diretor famoso, Costa Gavras. O filme esteve na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas agora pode ser visto num circuito maior.

Mary (Isabella Rossellini) e Adam (William Hurt) são casados há 30 anos e descobrem, para seu espanto, que estão envelhecendo. Cada um a seu modo, ambos tentam lidar com as dificuldades da velhice recém-percebidas e com a perspectiva da morte. Nenhum dos temas centrais da questão do envelhecimento fica de fora, estão todos lá, mas são tratados de forma bem-humorada e com irresistível sotaque britânico.

A Mary de Isabela Rosselini é linda (reparem no casaco vermelho-sangue da cena inicial!), apaixonante e engraçada nas suas perplexidades, o filme é dela e de Noreen Mantle, no papel de Nora, a avó nada clichê, cujo panetone pode 'abater um homem à distância' na expressão do genro, e que arranca boa parte das risadas da platéia.

Nem sempre cabe bom-humor nos amores jogados no tempo. Os poemas de Lya Luft em O Lado Fatal foram escritos pouco depois da morte de seu grande amor, o psicanalista Helio Pellegrino, com quem viveu por apenas três anos. O livro foi lançado orginalmente em 1988 e retirado de circulação muitas edições depois, a pedido da autora. Agora, foi relançado e deveria ficar na mesa de cabeceira de todas as mulheres, jovens ou velhas. Porque não são só os homens que precisam da receita de Vinícius de Moraes Para Viver um Grande Amor, o exercício de construir o ser amado, no limite da fantasia e da concretude, vale também para as mulheres: "Aquele que amei era velho e moço, ríspido e cândido, apaixonado e solitário e compreendeu a minha alma inquieta talvez como ninguém", ensina a poetisa.

Amor é assim, para a gente viver como e enquanto pode.. .


Um dia, o livro,
Autor: David Nicholls
Tradução de Claudio Carina
Editora Intrínseca

Um dia , o filme
Roteiro: David Nicholls
Direção: Lone Scherfig
Emma e Dexter: Anne Hathaway e Jim Sturgess

Late Bloomers (não é incrível que não mexeram no título original?)
Direção: Julie Gavras
Mary e Adam: Isabella Rossellini e William Hurt

O Lado Fatal - poemas
Autora: Lya Luft
Editora Record

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