Sete pais contam como assumiram a homossexualidade para os filhos

Eduardo Honorato, psicólogo de 31 anos, e o companheiro adotaram um menino, hoje com quase dois anos, e apostam que a criança vai tirar de letra a sua estrutura familiar. “Eu já converso, por mais que ele não entenda tudo. Digo que ele tem dois papais, que a mamãe carregou na barriga, mas não pôde ficar com ele”. O garoto já sabe e quando acorda, chama os dois na babá eletrônica: “Papai!”.

Christian  Heinlik com Paulo Vinícius, adotado há três anos
Arquivo pessoal
Christian Heinlik com Paulo Vinícius, adotado há três anos


A explicação mais complexa que o psicólogo teve que dar até agora foi para seus sobrinhos: “Um deles perguntou como eu tive filho se um menino não pode carregar um bebê na barriga”, conta. “Eu disse que alguns nascem da barriga e outros do coração. Ele desceu da cama e foi beijar a testa do meu filho”, relata.

A maior preocupação de Honorato é com o preconceito e a aceitação externa, nas ruas. “Sempre vai ter, não tem como fugir. Mas a cada coisa que aparecer a gente vai encarar com ele”, diz Eduardo, que até hoje não enfrentou problemas: “As pessoas são muito receptivas”, conta. “Todo mundo sempre olhou e elogiou a família linda”.

Depois do divórcio
A revelação é um pouco diferente quando os filhos são fruto de uma relação heterossexual anterior. O fotógrafo Maurício, de 44 anos, foi casado por dez. Cinco anos após o divórcio abriu o jogo com o filho Bryan, então com oito anos, durante uma viagem para Petrópolis. Ele chorou: “Vão te sacanear papai". No mesmo dia, ouvindo a conversa de Maurício com o namorado ao telefone, Bryan perguntou: “Você não vai mandar beijo, pai?”. “Liguei novamente e mandei um beijo”, conta ele.

Bryan e sua tatuagem com o nome do pai Maurício, gay assumido
Arquivo pessoal
Bryan e sua tatuagem com o nome do pai Maurício, gay assumido

Agora com 18 anos, Bryan diz que se dá muito bem com o namorado de Maurício: “Saímos juntos, vamos ao cinema”, conta ele, que tatuou “Maurício” no braço esquerdo. “A gente vai para as baladas, ele acha super legal”, diz o pai. “Ele se tornou um militante sem querer no colégio, exclui amigos que falam coisas preconceituosas”, completa.

Hoje Maurício mantém um blog que fala sobre homossexualidade. “A revelação foi marcante na vida dele e na minha. Fui contar o que aconteceu comigo para ajudar outras pessoas”, explica. Segundo ele é importante que as crianças tenham contato com a realidade homossexual desde pequenas, sem subestimá-las. “Elas se tornarão heterossexuais mais abertos ou homossexuais mais livres. Só têm a ganhar”, diz.

Quando contar?
Não há regra que define o melhor momento ou maneira de esclarecer a questão. “Essa revelação geralmente é a última e a mais importante a ser feita, chamada de último armário", diz a psicóloga Vera Lúcia Moris, coordenadora do Grupo de Pais Homossexuais.

A profissional de recursos humanos Débora tem 35 anos e é mãe de dois adolescentes , de 14 e 16, frutos de um casamento de dez anos. Poucos meses após a separação, decidiu contar para as crianças, então com cinco e oito anos. "Enquanto eles ainda são crianças, acho que é mais fácil contar. Sempre fui muito amiga deles e conversei sobre tudo. Falar de homossexualidade, para mim, é natural". Jairo, filho mais velho, vive com a mãe e Mônica, casadas há 3 meses. "Os meus filhos acabam se identificando mais com minhas namoradas do que comigo. Contam tudo para elas", brinca.

Jessica Gutierrez é coordenadora do Grupo de Mães e Pais LGBT. Ela contou para sua filha aos três anos quando achou uma reportagem em uma revista sobre pais e mães gays. “Comecei a mostrar as fotos pra ela e contar as histórias daquelas pessoas. Ela falou ‘é que nem a gente, né?’. Ela mesma percebeu, entendeu e desde então ela pergunta tudo que tem dúvida”.

Aos 36 anos, Jéssica mora com a namorada, que também tem uma filha. As duas meninas falam abertamente sobre o relacionamento das duas. Tanto que uma explicou para a outra sobre a opção sexual da mãe. "Ela já cresceu sabendo, foi criada assim", diz Gutierrez sobre sua menina de 11 anos.

Cada um tem seu tempo

Christian Heinlik:
Cauê Diniz
Christian Heinlik: "Expliquei que gostava delas para serem minhas amigas, mas, para namorar, preferia homens”

Para Christian Heinlik, de 37 anos, o momento de contar para o filho Pedro Vinicius, de 10, veio de repente. "Estávamos voltando da escola e duas meninas mexeram comigo na rua. Falei para o Vini: 'Olha só, seu pai é velho mas ainda dá pro gasto.' Entramos no carro e ele me perguntou se eu gostava de mulheres. . Outras questões foram surgindo com o tempo. "Aos poucos ele perguntava se ele teria dois pais e assim foi elaborando a questão aos poucos", conta.

Pedro Vinícius foi adotado por Heinlik quando tinha 8 anos de idade. Para o pai, a naturalidade com que ele sempre tratou a homossexualidade contribuiu para tornar as coisas mais fáceis. "Se eu fizesse disso um evento, seria difícil contar. A minha preocupação maior era respeitar o tempo dele", diz.

Esperar é bom?
O filho da professora universitária Beth, de 51 anos, soube da homossexualidade da mãe em uma festa, há três anos. "Esperei passar oito anos da minha separação com o pai dele, que foi muito dolorosa, para poder contar. Aproveitei o clima alegre para chamá-lo para uma conversa e disse que era homossexual." A reação de Rafhael, então com 16, foi receptiva. "Ele me disse que o que importava para ele era a minha felicidade". Mas os sentimentos ainda estão se assentando: "Não moro com meu filho, ele está com a minha mãe e me cobra mais presença. Mas eu quero viver esse meu lado e sou muito feliz com a minha companheira".

Ele é, eu também
O produtor cultural Thiago, de 27 anos, assumiu a homossexualidade antes que o pai. "Eu mesmo cheguei para ele e falei: 'Pai, eu sou gay. Sei que você também é." Filho de um casamento que durou 20 anos, Thiago gostaria de ter ouvido a declaração do pai primeiro. Após a separação ele percebeu que o pai começou a ter muitos amigos e dizia que alugava o quarto da casa para um deles. "Mas só tinha uma cama na casa! Eu achava muito engraçado porque já sabia que ele era gay, mas ele não contava para a gente." O produtor cultural diz que sempre lidou bem com a questão, mas gostaria de poder conversar com o pai sobre o assunto.

Para Christian Heinlik, não há uma 'melhor maneira' de lidar com a questão. "Não há uma regra, são vários caminhos. O importante é respeitar o olhar do outro para contar no momento certo em que ele puder entender." Jéssica entende que a revelação é mais difícil quando o filho é adolescente ou quando eles descobrem sozinhos. "Aí entra a questão da mentira dos pais, fica mais complicado", fala. Bryan, no papel de filho, também acredita na transparência: "Admito ser uma coisa difícil, mas sem esconder é maior a chance da criança aceitar bem".

*Algumas das pessoas entrevistas para essa reportagem optaram por não revelar o nome completo.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.