Demorar mais para se casar, na maioria dos casos, significa ficar mais tempo na casa dos pais. E como ficam as relações?

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Filhos adultos se sentem donos da casa dos pais e dão palpites em tudo
Não faz parte da cultura do brasileiro deixar a casa dos pais assim que faz 18 anos ou entra para a faculdade. O momento mais comum para largar a família de origem é o casamento. Se as uniões estão acontecendo mais tarde, o corte do cordão umbilical também é postergado.

“A adolescência está encompridada, vai até os 30 anos”, acredita a psicóloga Ana Maria Fonseca Zampieri, autora de Erotismo, Sexualidade, Casamento e Infidelidade (Ágora).

Isso tem implicações tanto para os pais quanto para os filhos. No caso de Daniel Gibson, por exemplo, médico de 29 anos, a questão refletiu diretamente na sua formação. “Vou sair da casa dos meus pais no fim deste ano, quando me casar. Esse tempo foi essencial porque pude gastar mais tempo com a minha formação. Com menos gastos, tive mais disponibilidade e escolho melhor as oportunidades de trabalho”, conta. Os pais de Daniel têm 56 anos. Sua mãe se aposentou recentemente, enquanto seu pai ainda trabalha.

Ambos incentivaram o comportamento de Daniel, pois acreditam que ele só deveria sair de casa quando tivesse plenas condições financeiras para manter o mesmo padrão de vida. Em contrapartida, como primogênito, Daniel se prepara para retribuir tudo o que seus pais fizeram por ele. “Com certeza cuidar dos meus pais está no rol das minhas responsabilidades. Pretendo ter mais tempo quando eles precisarem de mim, bem como planejar as questões financeiras relacionadas" , diz.


O alívio de ver os filhos criados e poder aproveitar a vida está demorando mais para chegar. Os filhos adultos se sentem donos da casa dos pais, dão palpites na organização doméstica e em como o dinheiro deve ser usado.

Considero dois fatores que justificam esse prolongamento da posição de filho: está cada dia mais difícil conquistar a independência financeira e existe uma menor repressão ao exercício da sexualidade ”, explica a psicóloga Maria Luiza Dias, autora de Famílias e Terapeutas: Casamento, Divórcio e Parentesco (VectorPro).

Filhos e filhas têm o aval dos pais para levarem namorados e namoradas para casa e manterem relações sexuais com eles ali mesmo.

“Isso não deixa de ser uma forma de os pais ficarem tranquilos. A violência urbana os enche de preocupações assim que seus filhos saem de casa”, lembra o sociólogo Luiz Antônio Nascimento, professor da Universidade Federal do Amazonas.

No entanto, o custo dessa tranquilidade para os pais é adiar viagens, planos de morar em outra cidade ou até a aposentadoria. Se os pais têm condições financeiras melhores do que os filhos, eles se sentem na obrigação de segurar as pontas enquanto a prole junta dinheiro para sustentar a independência.

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“Aqueles com baixa renda muitas vezes se ressentem disso, mas não têm coragem de exigir colaboração. Sugiro que os pais falem sobre isso e peçam compartilhamento das contas. Eles merecem ter dinheiro para o lazer a essa altura da vida”, diz Ana Maria Zampieri.

Por outro lado, o aumento na expectativa de vida leva os idosos a serem produtivos por mais tempo, o que também favorece o sustento dos filhos por mais tempo. Se antes 60 anos era uma espécie de marco para sentar e esperar o final da vida, hoje maioria das pessoas nessa idade têm disposição para trabalhar.

Se a vida ativa dos pais é prolongada com a permanência dos filhos em casa, a prole demora mais para sair da adolescência e assumir responsabilidades. Mas isso não é obrigatoriamente sinal de amadurecimento tardio.

A autonomia da geração mais nova não está necessariamente relacionada diretamente com o fato de residir na família de origem. Há jovens que moram fora e são dependentes, até levam a roupa para a mãe lavar. Outros ainda moram com os pais e são extremamente autônomos ”, lembra Maria Luiza Dias.

A psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo, autora do livro Descobrimento Sexual do Brasil (Summus) concorda que não há grandes problemas para os filhos que ficam até mais tarde na família.

“Existe, sim, o risco de amadurecimento tardio, mas com o aumento na expectativa de vida, a fase adulta ainda se prolongará por um longo período”. Ela acrescenta que a vida contemporânea traz inevitavelmente essa nova forma de vida . “São tantos estímulos, que precisamos de mais tempo para completar as fases. O tradicional é transcorrido mais lentamente, porque as pessoas estão muito ocupadas com outras coisas, como estudos, viagens e outros projetos de vida”.

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