Facebook é citado em um a cada cinco divórcios ingleses. Mas será que ele é mesmo o culpado? Especialistas discutem a questão

Facebook é citado em um a cada cinco divórcios ingleses. Ele tem culpa no cartório?
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Facebook é citado em um a cada cinco divórcios ingleses. Ele tem culpa no cartório?

Uma pesquisa feita na Inglaterra revelou que o Facebook é o responsável por 20% dos divórcios no país. O levantamento levou em conta cinco mil petições de separação e encontrou 989 instâncias que citavam a rede de relacionamento.

Mas será que a internet é mesmo uma ferramenta que facilita traições? Segundo a psicóloga Carmen Magalhães, especializada em relacionamentos, ela pode deturpar a realidade. “Tudo pode ser pensado e calculado na internet. O tímido se torna espirituoso e extrovertido. As fotos mostradas são as melhores, com ângulos que as pessoas querem mostrar”, diz. “É mais fácil vestir uma máscara sedutora e fugir da realidade. O homem gosta do jogo da conquista e tem uma ferramenta que facilita suas escapadas sem que isso interfira no seu dia a dia, já que ele pode conversar do trabalho”, completa.


Espiã da web

O fato de seu namorado ou marido passar horas na internet não significa que ele está traindo e não é indicado vasculhar todos os sites que ele visitou. Carmem diz que se a pessoa mudou repentinamente de comportamento, isso sim pode ser um sinal de que algo anda errado. “Agressividade, desculpas que antes não existiam e distanciamento podem revelar que está faltando diálogo entre o casal. Mas não incentivo ninguém a vasculhar sites de relacionamento em busca de algum vestígio. Se não há carinho e confiança, o melhor é partir para uma conversa franca. Pode ser que o processo seja revertido se ambos perceberem o que está dando errando”, sugere.
Luciana Ruffo, que é psicóloga do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática da PUC-SP (NPPI), diz que, na verdade, as pessoas não traem por culpa da internet. Ela apenas facilita a descoberta. “As pessoas utilizam esses canais como prova de uma traição, mas não acho que ela seja a causadora, 20% é um número muito alto para responsabilizar a rede”, diz.

De acordo com ela, se a pessoa tem uma predisposição a trair, não precisa de nenhum site de relacionamento para isso. “O que acontece é que esses sites facilitam que você encontre pessoas com afinidades e, por isso, pode acelerar o processo. Quando eu tenho intenção, encontro uma ferramenta para isso. A internet aumenta a possibilidade, mas não a cria. Não é ela que faz você trair. Não dá para culpar uma ferramenta por um comportamento humano. A internet é um reflexo do que a gente faz na vida real”, completa.

Sites como o Facebook andam causando muitas brigas entre casais. A explicação para isso, diz Luciana, é que as pessoas têm a fantasia de que são únicas. “Quando a gente está com alguém, tem ilusão de que não existe espaço nem para o parceiro pensar em outros. Os sites de relacionamentos mostram que você não é único”. E isso não significa que conversar com alguém configure uma traição. “Quando lido por alguém que não sabe o contexto, um recado simples pode parecer a prova de uma traição e gerar uma briga ou até uma separação”, diz.

A necessidade de saber com quem o outro se relaciona pode virar algo doentio. “Acho que quando existe uma desconfiança real, a mulher até pode usar a internet para averiguar e até se livrar de uma roubada, mas não para ficar vigiando o namorado ou marido o tempo todo”, diz Luciana.

Real x virtual

O psiquiatra e psicoterapeuta Luiz Scocca, especializado em transtornos sexuais, diz que em seu consultório aumentaram os casos de pacientes que relatam traições virtuais. Mas ele acredita que elas diferem pouco das situações reais. “Imagine que está em uma festa com seu namorado, você vai ao banheiro e logo que volta ele está conversando com uma garota. É algo parecido. Aquele contato pode evoluir para uma troca de telefones, uma conversa, um encontro”. Luiz diz que o mundo virtual facilitou a aproximação entre as pessoas, mas que, no fundo, uma traição é uma traição. “Deve-se agir como em qualquer traição, isto é, conversar muito, tentar ponderar os problemas do casal, rever a relação e até se separar, se for o caso”, diz.

Luiz fala que a internet propiciou o surgimento de novos formatos para compulsões e maus hábitos e que as pessoas devem, antes de tudo, cuidar de sua saúde física e mental, preenchendo suas vidas com atividades produtivas. “Quando sua vida está esvaziada de qualidade, acaba sendo preenchida com coisas como esta, ou seja, relacionamentos virtuais pouco profundos”, diz.

Segundo o psicólogo, se a relação está desgastada a internet é um caminho muito fácil, ainda mais pelo acesso móvel. “Se sua relação está ruim, não adianta se distrair virtualmente. O melhor é tentar trabalhar o que há ainda dentro da própria relação. O problema de traição já existia, a internet só facilitou as coisas. São questões que existem muito antes do computador”, diz.


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