Elas toparam trocar de país e vivem cercadas de luxo. Mas, para a maioria, a vida não é nada fácil

Com o mercado totalmente globalizado, é grande o número de executivos que aceitam propostas de trabalho fora de seus países. Expatriados, eles se mudam com a família para uma vida completamente nova e com muitas regalias – casa bacana, escola particular para os filhos, carro com motorista -, mas nem sempre as coisas são um mar de rosas para as mulheres que os acompanham. A psicóloga brasileira Monica Domiano Núñez percebeu as dificuldades das mulheres que largam tudo para acompanhar os maridos por experiência própria: ela morou durante nove anos em diferentes países, como Holanda, Espanha, Inglaterra e Uruguai.

A psicóloga Monica Domiano Núñez
David Santos Jr / Foto Arena
A psicóloga Monica Domiano Núñez
Quando voltou ao Brasil, Monica buscou o apoio da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica (SBPA) e iniciou uma pesquisa com voluntárias expatriadas no país, a maioria delas de origem latina, para descobrir as angústias e problemas destas mulheres que, aparentemente, tinham tudo. Conseguiu reunir um grupo de 15 pessoas – com a participação também de dois homens -, e acabou se especializando na terapia voltada para expatriadas, em que realiza um trabalho com sonhos, e também presta consultoria para empresas, auxiliando na adaptação de estrangeiros no Brasil.

Monica conta que, durante o contato com as expatriadas e as sessões de terapaia, se deparou com um tipo padrão emocional muito característico de quem muda de país sem ter um objetivo pessoal ou profissional. No começo, principalmente nos seis primeiros meses, a mulher fica ótima. Gosta das novidades e se diverte. Depois desse período, vem a tristeza, o estresse, a saudade da família e do trabalho e, em muitos casos, a depressão – é a chamada síndrome de Ulisses, uma referência ao herói grego que passou por muitas adversidades e sofrimentos. Há mulheres que, mesmo não tendo depressão, acabam sofrendo de um outro problema: após a 2ª ou 3ª expatriação já não conseguem mais voltar para a cidade natal. “Elas criam essa necessidade de mudança, porque tudo caba se tornando monótono”, explica.

A psicóloga conta que, ao apresentar a temática em um Congresso de Psicologia Analítica ocorrido no Chile, recebeu um comentário surpreendente dos psicólogos ali presentes. “Um deles até me perguntou: ‘por que sofrem essas mulheres que têm tudo?’”, lembra. De acordo com Monica, a adaptação das expatriadas não costuma ser fácil. Elas passam por diferentes lutos, perdendo a família, a fluência na comunicação e o status social, por exemplo, e somente após um período médio de quatro anos elas conseguem chegar à maturidade da expatriação. “E é neste momento, quando estão bem adaptadas, que muitas delas seguem para um outro país com o marido”, afirma. Para ela, reconhecer a importância dessas mulheres é imprescindível para o sucesso da carreira e vida familiar dos executivos. “Infelizmente, nem todas as empresas e maridos são sensíveis a isto”, revela.

Segundo relatório da Brookfield Global Relocation Service, divulgado no ano passado, empresa norte-americana responsável pela produção do anuário “Global Recolocation Trends Survey”, 89% das rejeições às propostas de expatriação estão relacionadas à família, e 25% dos expatriados abandonam a empresa antes do término do período para o qual foram contratados. 28% destes profissionais relacionam o acontecimento às questões familiares. 

Mar de incertezas

A expatriada argentina Roxana Tabakman
David Santos Jr / Foto Arena
A expatriada argentina Roxana Tabakman
A argentina Roxana Tabakman, 45 anos, há oito no Brasil, teve dificuldades na adaptação. “Pedi licença por dois anos do meu trabalho, pensando em retornar após este período”, afirma a jornalista. Ela veio para São Paulo com o marido com duas ideias na cabeça: tomar sol e descansar. Depois de alguns meses, a ilusão de viver em um paraíso tropical acabou.

“Parece um filme isso que vivemos, não é real”. Uma das coisas que mais a incomoda é ter se tornado, de um dia para outro, a Roxana do 2º andar, quando antes era editora de uma importante revista argentina. “Antes eu tinha nome, sobrenome e um trabalho”, lamenta. Por outro lado, diz que passou a valorizar mais as pessoas. “Comecei a conviver com pessoas diferentes de mim, e deixei de lado alguns preconceitos”, afirma. E foram estas novas pessoas que estiveram ao seu lado quando ela enfrentou um câncer.

A expatriada colombiana Maria Cláudia Dazag
Arquivo pessoal
A expatriada colombiana Maria Cláudia Dazag
A colombiana Maria Cláudia Dazag, de 37 anos, saiu de Bogotá, a cidade em que morava, há um ano e dois meses. Ela conta que, ao chegar, tinha em mente que viveria uma experiência nova e estava preparada para isso. Porém, no início, enfrentou algumas dificuldades, principalmente na relação com o marido. “Tivemos muitos momentos de tensão. Ele até evitava reclamar porque, querendo ou não, era o responsável por tirar toda a família de Bogotá. Mas o clima pesado ficava pairando no ar. “Deve ter sido difícil para meu marido também, mas ele não falava nada, só era mal-humorado em alguns momentos”, descreve Maria Cláudia.

Hoje, realizando um balanço do que passou, ela acredita que só não enfrentou mais dificuldades graças à ajuda da empresa na qual o marido trabalha, que os auxiliaram para encontrar uma casa boa e a escola para as crianças, por exemplo. “No condomínio em que moro, existem muitas estrangeiras, acho que isso tornou a adaptação mais fácil”, explica a expatriada. No começo, é preciso ajuda para tudo. “Você não sabe o que fazer se precisa ir ao médico. Tudo é complicado porque não há referências”, completa.

Principais dificuldades das expatriadas

-Tristeza e possíveis crises de depressão

- A falta de suporte da empresa do marido pode, além de não atender às necessidades da mulher, colaborar para a existência de problemas conjugais

- Cuidar dos filhos não é uma tarefa fácil, fazer isso em tempo integral pode ser ainda mais complicado

- A ausência de uma vida espiritual pode gerar ainda maior dificuldade para enfrentar a solidão

- Falta de um projeto profissional é um dos principais problemas. A vida acaba ficando sem sentido e com uma sentimento de vazio

- Sentir-se sozinha, estar distante da família e não ter outras expatriadas por perto pode dificultar a experiência de viver em outro país

- Para sabe mais, acesse o blog Expatscorner

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