Doações e ajuda se intensificam no período das festas, mas, e depois?

Não deixe a generosidade do Natal terminar no Natal. Ajudar é bom o ano inteiro!
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Não deixe a generosidade do Natal terminar no Natal. Ajudar é bom o ano inteiro!
Nas entrelinhas do significado do Natal, uma palavra aparece discreta: solidariedade. Para algumas pessoas, o dia 25 de dezembro é o primeiro passo de uma ação positiva que pode durar o ano todo, o que ajuda a transformar a vida da população de baixa renda e também de quem se prontifica a explorar o universo do trabalho voluntário. Estender a mão a quem precisa, segundo especialistas, é um ato de se colocar no lugar do outro e de se negar a ignorar o sofrimento alheio. Com o apelo comercial que move a troca de presentes nesta época do ano, fica praticamente impossível não se engajar em campanhas que arrecadam, por exemplo, brinquedos para crianças carentes que dependem da boa vontade de terceiros para realizar mesmo pequenos sonhos.

Hoje, centenas de entidades assistenciais organizam campanhas de arrecadação que atingem os lugares mais distantes do Brasil e facilitam imensamente a vida de quem quer ajudar.

Quando as comemorações natalinas terminam, no entanto, menos de 10% das pessoas que se prontificaram a fazer doações continuam a praticar atos solidários.

Na entidade assistencial Mãe Maria Rosa, em Campinas, no Interior de São Paulo, a coordenadora da campanha de Natal, Vera Longuini, explica que a ausência de elo entre quem doa e quem recebe a doação é um dos fatores principais desse distanciamento que acontece durante todo o ano.

“Geralmente as pessoas não sabem para onde vai o presente que estão comprando. Por isso, não costumam manter um elo com essa criança”, explica .

Uma das ações mais importantes que se pode fazer nesta época é conhecer as instituições que cuidam das crianças carentes. Muitas vezes, a visita chega a ser mais importante para as crianças que, por exemplo, vivem em orfanatos, do que os próprios presentes. Carinho e afetividade são essenciais neste período do ano em que as pessoas anseiam pelas manifestações de união e de espírito de família.

O sentimento de solidariedade que toma conta de milhares de pessoas no final do ano é facilmente explicado por psicólogos e psicanalistas. Além do apelo tão inflamado desta época, quando as pessoas são chamadas a todo momento pela televisão, no trabalho e até mesmo em condomínios onde moram a colaborarem com o próximo, muitos aproveitam e fazem da prática uma forma de se redimir e tentar amenizar erros e a falta de compaixão durante o ano todo.

“Muita gente ajuda entidades, adota crianças e vira até Papai Noel. Há campanhas por todos os lados. Pode-se dizer que é o período em fica mais forte, em todo mundo, esse sentimento de compaixão ao próximo. Mas a verdade é que muitos ajudam para se sentirem melhor e tirarem um peso da consciência por possíveis erros cometidos durante o ano”, destaca a psicóloga e psicanalista Paula Cordeiro Zílio.

Segundo ela, outro fator que leva uma multidão a praticar atos solidários é o sentimento de "ponto final" que o mês de dezembro carrega. “As pessoas acreditam que fecham ciclos quando acaba o ano e isso faz com que elas queiram fazer o bem e se enxerguem nas dificuldades dos outros.

Algumas até pensam em continuar ajudando, mas quando chega janeiro, fevereiro e as contas começam a pesar no bolso, facilmente esquecem dos problemas alheios e acabam não ajudando como poderiam ou deveriam”, afirma.

Uma das formas de ajudar quem precisa no final do ano é participar da famosa “sacolinha de Natal” - que nada mas é do que a doação de itens de primeira necessidade, além do brinquedo. “O objetivo dessa doação é transformar o Natal das crianças. Por isso, promovemos a arrecadação das sacolinhas. Isso substitui a coleta de brinquedos usados, que era praxe antigamente. Uma das maiores alegrias das crianças carentes hoje é tirar o plástico de um brinquedo novo. Nós mostramos para essas crianças que elas têm o direito de ter brinquedos de qualidade que foram comprados especificamente para elas”, conta vera Longuini.

A coordenadora da Mãe Maria Rosa diz que hoje sobram “padrinhos” e faltam crianças para receber tantas doações no Natal. Há 10 anos, a entidade apadrinhava cerca de 70 crianças. “Hoje são 500 e, mesmo assim, sempre sobra gente querendo ajudar”, conta.

Para estreitar a relação entre o padrinho e seu afilhado, a organização da campanha permite ao doador saber o nome da criança, idade e quais serão os itens que devem constar na sacolinha. Segundo Vera, além do brinquedo, os padrinhos também precisam comprar produtos de higiene e roupas.

“As pessoas não imaginam que para a população de baixa renda ganhar um shampoo, por exemplo, é um dos melhores presentes. Uma escova de dente chega a ser usada por essa criança durante anos. Produto de higiene vira luxo para quem luta para comprar arroz e feijão diariamente”, ressalta.

Foi justamente em uma dessas campanhas organizadas por entidades assistenciais que a empresária Maria Helena Rezende passou a ajudar de forma permanente uma família de baixa renda. “Eu me lembro que adotei uma garotinha que se chamava Suelen e tinha cinco anos. Comprei o presente e fui convidada a fazer a doação pessoalmente. Depois disso eu me senti como se fosse realmente uma madrinha dessa criança. Passei a ajudar mensalmente com uma quantia em dinheiro que serve para auxiliar nos estudos dessa garota. Hoje ela está com 11 anos e acompanho o seu crescimento - além de fazer visitas freqüentes, criei um vínculo afetivo com ela”, conta a empresária.

Luiz Roberto Lima é fotógrafo. Aos 35 anos, ele ainda se recorda com detalhes de como era a comemoração do Natal em sua infância. Luiz foi abandonado pela mãe e cresceu em um orfanato. No final do ano, algumas famílias buscavam as crianças para passar as festas em suas casas, mas ele conta que era um dos últimos a ser escolhido por ser negro e mais velho que os demais. Mesmo sem poder ficar com os presentes que eram doados no dia 25 - porque o orfanato retirava das crianças depois que os doadores iam embora -, Luiz lembra que a data era momento de euforia para todos.

A história de Luiz revela a importância das doações e a necessidade de acompanhar o trabalho das instituições que cuidam das crianças carentes no Brasil. Hoje é Luiz quem ajuda a população carente, organiza campanhas de arrecadação de alimentos e é solidário não só em datas especiais, mas durante todo o ano.

“Tenho várias lembranças do Natal, pois sempre foi uma data muito importante para mim e para as outras crianças do orfanato. Ficávamos eufóricos com a proximidade das festas de fim de ano, quando uma imagem de plástico grande do Papai Noel era afixada na parede. As visitas aumentavam e as doações chegavam de todos os lados", recorda.

Além dos brinquedos, Luiz conta que os doadores levavam comida, roupas e realizavam festas no orfanato. A parte mais legal segundo o fotógrafo, porém, era quando as visitas levavam as crianças do orfanato para os passeios no final do ano. “Meu Deus, era uma loucura, uma alegria imensa, mas tinha um porém: tínhamos que passar pelo gosto do visitante. Isto significava que as crianças mais novas e claras arrumavam famílias logo. Eu não tinha sorte, sempre era o último a ser escolhido. O mesmo processo tradicional de escolha na adoção era aplicado na seleção das crianças que iriam passar o Natal fora do orfanato”, conta.

Quando fez 16 anos, Luiz se emancipou. Por dificuldades financeiras depois de perder um emprego, chegou a morar na rua durante três anos. Depois disso, aceitou a solidariedade das pessoas e começou a trabalhar novamente. Decidiu fazer cursinho para ingressar na universidade e passou em Ciências da Educação na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Como o benefício da bolsa parcial foi cortado, Luiz ficou sem estudar durante um ano. Após refletir sobre sua carreira, optou por cursar Jornalismo. Há uma semana, Luiz encabeçou uma campanha de doação de alimentos para uma família de Campinas que mora em situação precária. E é assim que o fotógrafo vive hoje, lutando em defesa dos direitos humanos e se engajando em ações solidárias. Como ele mesmo diz, “solidariedade atrai solidariedade”.


Dicas na hora de montar a sacolinha de Natal

- Compre o brinquedo como se o estivesse escolhendo para alguém de sua família. As crianças carentes sonham com o que vêem nas vitrines ou nos comerciais de televisão;

- Se for comprar algo que precise de pilhas para funcionar, por exemplo, não esqueça de incluir este item na sacolinha;

- Produtos de higiene (como escova de dentes, shampoo e sabonete) são essenciais;

- Preste atenção no tamanho da roupa que consta na lista da criança para a qual você fará a doação. Não vá pela idade; muitos podem usar tamanho maior ou menor que a média estipulada pela faixa etária;

- Se for possível, participe da entrega desse presente ou vá conhecer a entidade assistencial que organiza a campanha;

- Se tiver condições, acrescente mais itens na sacolinha, como toalha de banho e roupa de cama.

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