Para a autora de “O Anel que Tu Me Deste”, o aumento das taxas de divórcio significa, na verdade, que o casamento continua em alta

Lidia:
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Lidia: "o casamento não é uma instituição falida porque está em constante mutação"
Quando o assunto é o casamento e suas tortuosas sutilezas, Lidia Rosenberg Aratangy é uma referência. Não porque ofereça uma fórmula fácil para o sucesso da vida a dois, mas porque ajuda – em seu trabalho diário como terapeuta e com seus mais de 20 livros publicados – cada casal a encontrar um caminho. Às vésperas do lançamento da nova edição de “O Anel que Tu Me Deste: O Casamento no Divã” (Primavera Editorial), originalmente publicado em 2007, conversamos com Lidia Aratangy sobre o que as mulheres esperam do casamento e até que ponto vale a pena manter a união.

iG Até quando vale a pena insistir no casamento?
Lidia Rosenberg Aratangy:
Até o momento em que a esperança for maior que o ressentimento. O casamento não é uma instituição falida porque está em constante mutação. Aquele casamento de duas gerações atrás é que pode estar fadado ao fracasso, mas o projeto de vida de duas pessoas que pretendem envelhecer juntas não faliu.

As taxas de divórcio, a cada pesquisa nova do IBGE, continuam subindo. O que isso representa?
Lidia Rosenberg Aratangy:
As altas taxas do divórcio significam que as pessoas querem continuar se casando! Ninguém se divorcia se não pretende se casar de novo depois. Então, a alta dos divórcios significa que o casamento, na verdade, continua em alta.

O que tem de novo nesta edição do livro "O Anel que Tu me Deste"?
Lidia Rosenberg Aratangy:
Várias atualizações estatísticas, além de uma parte, no final, onde listo filmes e livros sobre o relacionamento amoroso. Tem também um capítulo novo, que eu tentei evitar na primeira edição, sobre a viuvez, mas que agora achei necessário. Quando a morte separa um casal que estava junto há 40 ou 50 anos, provoca um dilaceramento muito grande. Quanto mais intensa a entrega, maior a dor da perda.

Qual a maior queixa das pessoas em relação ao casamento?
Lidia Rosenberg Aratangy:
Todo casal vem com a esperança de que eu diga que o outro está maluco e precisa de terapia. Depois, no processo, isso toma diferentes formas – inclusive, eventualmente, chegando à descoberta de coisas difíceis, como a traição. Também existe a famosa queixa de que o amor acabou. Mas acho paradoxal: eles dizem que o amor acabou, mas procuram uma terapeuta de casais e não um advogado. Isso significa que ainda existe um sentimento ali. Ajudo a descobrir qual é esse sentimento que eles querem preservar.

Quais são as queixas mais comuns das mulheres?
Lidia Rosenberg Aratangy:
A falta de expressão dos homens em relação aos próprios sentimentos. Já os maridos se queixam de que elas não se dedicam o suficiente a eles ou aos filhos. Na década passada, percebi que as mulheres queriam homens mais sensíveis, que elas chamavam de "homens mais femininos", uma formulação muito preconceituosa, como se só o feminino pudesse ter esta característica da sensibilidade. De qualquer forma, acho que os homens atenderam a esse apelo. Não só os homens, aliás. Tanto homens como mulheres estão se tornando pessoas mais inteiras. Assim, as mulheres puderam assumir um lado mais racional, e eles, um lado mais 'sensível'. Mas agora as mulheres reclamam que eles não têm garra!

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"O Anel que Tu Me Deste: O Casamento no Divã": não há fórmulas mágicas para os casais
E os homens?
Lidia Rosenberg Aratangy: Os homens estão mais perdidos do que as mulheres. Hoje em dia, as coisas mudaram e todo mundo está um pouco sem bússola – o que é ótimo. Perder a bússola faz a gente achar uma nova orientação. Assim, se cada um olhar com curiosidade para seu parceiro ou parceira, vai achar coisas verdadeiras e interessantes.

Qual a identidade feminina hoje?
Lidia Rosenberg Aratangy:
Não existe uma só identidade. Somos uma espécie de caleidoscópio, com cristais que formam figuras diferentes, de acordo com o papel que se desempenha ou o lugar onde está.

Qual é a atual expectativa da mulher em relação ao casamento?
Lidia Rosenberg Aratangy:
Queremos tudo, que o casamento seja um porto seguro e dê a sensação de velas ao vento. E é importante saber que o casamento vai ter ambos os momentos, mas não vai ser tudo o tempo todo.

E do homem?
Lidia Rosenberg Aratangy:
Ele quer uma mulher acolhedora e disponível, mas ao mesmo tempo uma guerreira que divida as responsabilidades e a conta bancária. Uma mistura de gueixa com samurai. Também é uma expectativa difícil de ser atendida.

Ajustar as expectativas, então, é um bom passo em direção à felicidade?
Lidia Rosenberg Aratangy:
A melhor chance de uma relação amorosa durar é termos expectativas humanas, onde caiba a imperfeição. Não somos semideuses. Ainda bem.

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