Mesmo com realizações profissionais e uma vida completa e feliz, para muitas mulheres, é difícil escapar dessa cobrança

Samantha Abreu é linda e bem sucedida, mas enfrenta cobranças por um namorado
Arquivo pessoal
Samantha Abreu é linda e bem sucedida, mas enfrenta cobranças por um namorado
Aos 28 anos, a jovem biomédica Samantha Abreu voltou recentemente de um mestrado em sociologia na Suíça, trabalha, é bonita e tem amigos. Já está engatando um doutorado e concentra sua energia em acelerar sua carreira. Uma vida de dar inveja? Não, se depender da opinião de quem convive com ela. “A cada dia, a pressão para eu arrumar um namorado vai aumentando. É um tal de ‘todas as suas amigas estão casadas’, ou ‘está na hora de você me dar um netinho’, ou ‘você está rabugenta porque não tem um namorado’, entre outras”, desabafa.

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E por mais que Samantha saiba que as coisas acontecem a seu tempo, precisa gerenciar a pressa dos outros. “Eu acho que sou novinha, mas as pessoas não concordam. Todas as minhas amigas estão namorando ou casadas, e você fica ‘avulsa’ no meio, um pouco fora do papo”.

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Ela afirma que, a cada problema que surge, alguém comenta do tal namorado. “Como se o namorado fosse a solução para tudo”, critica. Ela precisa também não se deixar abater pelos conselhos de quem diz que ela precisa “pensar positivo” e “gostar dela mesma”. “Acho isso ladainha. Vejo mulheres feias, bonitas, felizes, depressivas, altas, baixas, empregadas e desempregadas namorando. Não creio que eu deva mudar a maneira como eu me sinto, me recuso a acreditar que eu tenho algum defeito e por isso estou sozinha”, diz.

Segundo Samantha, a cobrança é tão forte que às vezes passa pela cabeça o medo de acabar sozinha. “Você se pergunta se tem alguma coisa errada com você. Existe uma pressão velada quando as pessoas perguntam qual seu estado civil. Eu sei que sou bonita, eu sei que sou inteligente, mas e daí? Se as pessoas parassem de me lembrar o tempo todo que eu estou solteira, eu nem pensaria tanto nisso”

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E se eles estiverem certos?
Há dois momentos em que a autocobrança é mais forte: na adolescência, e depois dos 30 anos, por conta do “relógio biológico”. “Não ter namorado significa que está longe o momento de realizar o desejo da família”, diz a psicóloga Marisa de Abreu. “Ter namorado é como se a moça tivesse um ‘selo de qualidade’ que demonstra que ela foi desejada ou aprovada por alguém. Ter um bom emprego passa a mensagem que ela é uma boa profissional, ser uma ótima atleta passa a mensagem de que ela é dedicada, mas ter um namorado passa a mensagem errônea de que ela é ‘mulher’ e agora está completa ao lado de sua ‘cara metade’”, diz a psicóloga. Não é de estranhar, portanto, que a vergonha muitas vezes acompanhe a ausência do tal “selo” – mesmo que ele não seja de fato desejado.

É um erro embarcar na sugestão de que há algo errado com você, em frases como “você é tão bonita, por que não tem namorado?”. Para o psicólogo Wilson Montiel, essa mulher entende a cobrança da família e dos amigos como um ideal a ser alcançado. “A mulher madura não procura um namorado para os outros, faz isso por si mesma só. Você tem que se fazer feliz, não aos outros”, afirma.

Namorado imaginário

Mesmo quem está segura da própria situação pode ter dificuldade em driblar o assunto quando ele é onipresente. Na adolescência, a analista de sistemas Jussara Ribeiro, 25 anos, criou um namorado imaginário para poder participar de conversas com as amigas. “Ele tinha nome, personalidade, data de aniversário, tudo”, conta Jussara.

“Na adolescência rola uma super cobrança. Tenho certeza de que a maioria inventava detalhes para manter o status.” Ela “arranjou” um namorado, mas não resolveu totalmente o problema: os amigos passaram a dar pitaco no namoro. “Aí deixei de ouvir as pessoas e fui atrás do que me fazia bem e pronto”, afirma a analista de sistemas.

Para a antropóloga Mirian Goldenberg, mulheres que optam por ficar sozinhas já são um fato na sociedade brasileira. “Já está acontecendo, falta mudar o discurso de vítima, de que ‘homens têm medo de mulher independente’. A cobrança interior ainda não diminuiu”, afirma. “Ainda não se vê como uma escolha da mulher, e sim como um fracasso. Na maior parte dos casos é uma escolha”, diz.

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Ela acredita que essa mulher, apesar de sofrer cobranças, é também muito invejada. “Para diminuir o estigma, era bom que mais mulheres assumissem que não querem ter um parceiro, se for a escolha delas. É um pouco sair do armário, porque nem todo mundo quer estar casado.” Claro que quem assume esse modo de vida precisa se preparar para críticas. “A mulher que faz uma escolha diferente é questionada pelas que fizeram a tradicional. Como alguém diz que não vai investir no casamento, e sim em viagens, na carreira?”, diz a antropóloga.

É preciso lembrar também que, mesmo que um par ainda faça parte dos planos, não adianta sofrer com ansiedade se ele ainda não veio. “É impossível saber quando uma relação vai dar certo. É preciso conviver e permitir que a construção se dê passo a passo. É importante administrar a expectativa de um ideal. Não acertou na primeira, mas pode acontecer na terceira”, diz Wilson Montiel.

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