Nem sempre quem apresenta os sintomas de depressão tem a doença. A tristeza muitas vezes é temporária na vida da pessoa

Pelo menos 121 milhões pessoas sofrem de depressão, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Até o ano de 2030, a depressão se tornará a segunda doença incapacitante mais recorrente do mundo, atrás apenas da aids, de acordo com o estudo “Global Burden of Disease”, promovido em conjunto pela OMS, a Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard e o Banco Mundial.

Nem sempre a tristeza intensa ou prolongada significa depressão
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Nem sempre a tristeza intensa ou prolongada significa depressão
Na contramão da previsão alarmante, os psiquiatras americanos Allan Horwitz e Jerome Wakefield lançaram neste ano o livro "A tristeza perdida” (Editora Summus), no qual acusam a psiquiatria de transformar a “depressão em moda”. Segundo eles, em boa parte dos casos diagnosticados como depressão, a pessoa estaria simplesmente experimentando um sentimento humano, comum e necessário. Os médicos ainda afirmam que ter fases de tristeza é saudável. De forma semelhante a quem torce o pé e precisaria se imobilizar para a recuperação, quem sofre com um trauma psicológico usaria de mecanismos como a tristeza para se reorganizar interiormente.

Embora seja um sentimento normal e comum, a visão contemporânea da tristeza faz com que ela seja encarada como uma doença, algo que precisa ser eliminado imediatamente, defendem Horwitz e Wakefield. Sueli Damergian, livre docente do departamento de Psicologia Social da Universidade de São Paulo, acredita que ela seja indispensável. “É um sentimento que faz parte da alma, característico do ser humano. Quem não sente tristeza e angústia dificilmente vai entrar em contato com sentimentos mais profundos, entender o outro”, diz Damergian. “Negá-la é negar a realidade”, afirma a professora de psicologia.

O desejo por uma droga que acabasse com angústia é tão intenso que, quando o antidepressivo fluoxetina foi lançado comercialmente, em 1987, ganhou o apelido de "pílula da felicidade", refletindo a expectativa de que um remédio capaz de resolver o problema da tristeza para sempre. Não à toa, se tornou um dos medicamentos mais vendidos do mundo, segundo Sergio Blay, psiquiatra e professor da Unifesp. Cerca de 22,2 milhões de receitas de floxetina foram prescritas nos Estados Unidos em 2007, tornando-o o terceiro antidepressivo mais consumido depois da sertralina e do escitalopram, de acordo com relatórios da indústria farmacêutica americana.

Tanta pressa em resolver os problemas emocionais é comum, de acordo com Blay. "Ao passar por um sofrimento, pessoas leigas querem se ver livres dele o quanto antes. Cabe explicar que remédios podem tratar algumas coisas, mas outras não. Muitas vezes os pacientes têm expectativas falsas a respeito dos médicos e tratamentos", disse ele durante o 28º Congresso Brasileiro de Psiquiatria, realizado no fim de outubro em Fortaleza, no Ceará. Damergian, da USP, faz coro. “É importante sentir dor, e entender que essa dor não vai matar, e que pode te fazer crescer. Não existe pílula mágica que resolva o problema”, afirma a professora de psicologia. Rafael Faria Sanches, psiquiatra e doutor pela Universidade de São Paulo, vai além. “Se mal aplicado, o tratamento para depressão pode piorar mais do que ajudar”, disse o psiquiatra, no Congresso Brasileiro de Psiquiatria.

Além da tristeza
No caso de sintomas que persistem por semanas sem motivos fortes, como a perda de um ente querido, é necessário buscar um especialista. “Por conta das queixas físicas da depressão, os indícios podem ser facilmente confundidos com outros problemas", diz Blay. A maior diferença da tristeza comum para o sintoma patológico é que a depressão é uma doença incapacitante - a pessoa não consegue mais manter sua rotina e dar conta de sua vida, tendo ou não motivos objetivos para estar triste.

Entre os outros sintomas da depressão estão mudanças de humor, perda de interesse ou satisfação nas atividades outrora consideradas prazerosas, distúrbio de sono ou de apetite, perda de energia e falta de concentração. O problema é que não existem testes clínicos para diagnosticar a doença. “Existem algumas evidências usadas em pesquisa, mas não é como fazer um diagnóstico de diabetes”, diz Sanches. Os testes que são usados em pesquisa médica avaliam desequilíbrios no nível de neurotransmissores e mudança no metabolismo das regiões cerebrais. “Mas os resultados só são válidos para grupos de pacientes. Isoladamente, não é aplicável”, diz o médico.

Na dúvida, se os sintomas de uma possível depressão aparecerem, é necessário buscar ajuda médica. “Há quadros depressivos que precisam de fato ser tratados, porque causam prejuízo no trabalho, no dia a dia. Alguns pacientes passam períodos longos com os sintomas e a família acha que é normal, que a pessoa é assim", diz Blay, da Unifesp. “Além da pessoa ter os sintomas da depressão, eles têm que causar algum sofrimento e prejuízo significativos no funcionamento social, profissional ou emocional. Mas tristeza por si só não dura indefinidamente”, diz Sanches. Portanto, é preciso aprender a entender a aceitar a tristeza, quando ela acontece dentro dos limites de uma vida saudável, e procurar ajuda quando sair dela foge ao controle.

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