As pessoas estão sempre erradas e suas relações são sempre complicadas? Às vezes, o culpado é você mesmo

Será que os errados são mesmo todos os outros?
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Será que os errados são mesmo todos os outros?
Você está bem atrasado para um compromisso e não consegue encontrar a chave do seu carro. A culpa, claro, é dos filhos que nunca colocam as coisas nos lugares certos, da empregada que vive “escondendo” as suas coisas, ou do parceiro, que perde tudo. Você jamais poderia ter perdido a chave. E, mesmo se acabar descobrindo que ela estava no bolso de trás, é porque “te deixam louco”. Acordar mais cedo para prevenir imprevistos e não sair de casa atrasado, então, nem pensar.

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Todo mundo já passou por isso alguma vez. E, geralmente, quando descobrimos que estamos errados, experimentamos alguma vergonha e um pouco de culpa. Mas muitas pessoas nunca chegam a essa fase – simplesmente porque não admitem que o problema pode estar nelas.

“Eu me achava maravilhosa e perfeita. Todas as outras pessoas sempre estavam erradas”, admite a advogada e professora Ruthe Rocha Pombo, que escreveu o livro "Como lidar com pessoas difíceis, a começar por mim" (Editora Santuário). Ruthe diz que era mais fácil achar que o outro era culpado e que ela era vítima da situação. Sempre.

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Disposição para mudar
Mas como perceber que você é o problema e mudar este tipo de comportamento? A terapeuta holística Márcia Malvazzo afirma que um bom parâmetro para enxergar seus próprios erros é começar a reparar quando a maioria das pessoas possui opinião discordante da sua. Será que todos estão errados e você está certo? “No momento que ocorre essa constatação, é hora de fazer uma auto-análise e ver o que está acontecendo de fato”.

Outra dica é reparar quantas vezes você se pega colocando a culpa em outras pessoas durante o seu dia. É normal cometer enganos, mas quando todas as pessoas do seu convívio cometem erros com muita frequência, talvez seja um sinal de que quem vem cometendo o erro de culpar os outros é você. “Eu comecei observando o comportamento alheio. Percebi que todos estavam sempre errados. Vi que quem precisava mudar era eu”, comenta Ruthe.

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De acordo com ela, a mudança é gradual e é preciso fazer um exercício diário para conseguir melhorar. “Precisamos gerenciar a nossa raiva e pensamentos negativos. É necessário falar para nós mesmos: ‘Para com isso. Pense melhor e veja se este tipo de comportamento não está te fazendo perder a razão’”. Ela afirma que não é simples, mas é possível.

Márcia ensina que se arrepender de certas atitudes é um importante sinal. “Se houver arrependimento verdadeiro e as desculpas forem sinceras, isso demonstra que já estão ocorrendo mudanças em seus maus hábitos.” Por isso, é importante ficar atento toda vez que você precisa pedir desculpas aos outros. Se isso se tornar muito frequente, é preciso analisar a razão disso. Vale pedir ajuda de pessoas de sua confiança, desde que você esteja disposto a realmente escutá-las.

Contar até dez
O livro de Ruthe nasceu depois que ela percebeu que acabou se isolando e sendo isolada pelas outras pessoas por causa do seu gênio, muito difícil de conviver. Foi também o que aconteceu com a consultora de Recursos Humanos, Marcia Morales, 51, que resolveu procurar ajuda depois de se ver cada vez mais isolada das pessoas que gostava.

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O isolamento é, com frequência, o sintoma que faz com que as pessoas revejam sua postura. Marcia ainda luta diariamente para controlar seu gênio forte. “Conto até dez antes de tomar uma atitude que eu tomaria antigamente sem nem pensar. Eu sou bem mais espiritualizada, o que me ajuda bastante também.” Marcia acredita que hoje seu convívio com amigos e familiares ganhou em qualidade. “Antes eu achava que absolutamente tudo tinha que ser do meu jeito, como eu achava que era o correto. Não abria mão de nada, nem profissionalmente nem pessoalmente”, conta.

A grande virada veio quando percebeu que estava perdendo pessoas de quem gostava. Elas se afastavam porque a convivência era muito complicada. “Comecei a ser deixada de lado”, relembra. Segundo Ruthe, a mudança geralmente vem quando o sofrimento começa a ficar muito intenso. “Só sofrendo nós conseguimos perceber que estamos tendo prejuízo com nosso comportamento. Se a pessoa for honesta, vai admitir que precisa mudar suas atitudes.”

A psicóloga clínica e coach Viviane Sampaio explica que as pessoas difíceis de lidar sofrem com seu jeito de encarar a vida. “Elas são as maiores prejudicadas. Com elas é tudo preto ou branco. Não possuem a flexibilidade necessária para lidar de forma diferente com situações cotidianas.” De acordo com Viviane, quem tem este problema acredita que apenas sua opinião está correta. Não consegue enxergar que o mesmo objetivo pode ser alcançado de formas diferentes. A psicóloga afirma que procurar uma terapia é o melhor caminho para casos mais extremos.

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Como lidar
“Quando convivemos com alguém difícil de lidar, temos que entender que não é pessoal. A pessoa é assim com todos”, afirma Ruthe. Ela diz que algumas características são comuns neste tipo de temperamento: agressividade, egocentrismo, indisciplina e falta de espírito participativo. Se os que convivem com os geniosos percebem que a agressividade não é direcionada a eles em específico, ficam menos sensíveis e sofrem menos para conviver com alguém difícil de lidar, explica Ruthe.

A terapeuta Márcia Malvazzo acredita que a melhor maneira de lidar com uma pessoa que possui um temperamento forte é dar o exemplo e tratá-la muito bem. “Sugira outros caminhos, trate-os bem, não agrida, não discuta. Pelo contrário, enfraqueça seu ego, tratando-o com doçura.”

Mais feliz
De acordo com a terapeuta, por mais que as pessoas que possuem gênio forte afirmem adorar o temperamento que têm, isso não é necessariamente verdade. “Eles se dizem sinceros, autênticos, mas lamentam muito a consequência de cada agressão, de cada ira. A longo prazo, acabam ficando sozinhos e sem amigos verdadeiros”, diz.

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A aposentada Maria Helena Yugulis, 61, admite ter personalidade forte e confessa que poderia mais feliz se fosse mais maleável. “Quando você consegue se ajustar às diferentes situações da vida com facilidade, você diminui em muito os conflitos, tanto externos quanto internos. Eu me sinto muito culpada por algumas atitudes que tenho. Acabo magoando as pessoas, coisa que não quero de jeito nenhum.” De acordo com Maria Helena, que já fez terapia por muito tempo graças a seu gênio forte, a busca pela mudança de comportamento é constante em sua vida. “Aceito as críticas e tento melhorar.”

Marcia Morales também se considera mais feliz depois de sua mudança de comportamento. “Consigo deixar algumas coisas pra lá. Antes leva tudo a ferro e fogo. Era o tipo de pessoa que ia tomar satisfações com os outros. Minhas prioridades mudaram com o tempo, amadureci. Não tenho mais que provar que estou certa o tempo todo. Minha qualidade de vida aumentou muito”, diz.

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