O rabino Nilton Bonder, autor de “A Alma Imoral”, defende que é preciso abandonar o vício de tentar controlar a vida

O rabino Nilton Bonder
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O rabino Nilton Bonder
iG O seu livro “A Alma Imoral” virou um espetáculo teatral que alcançou grande sucesso. A que você atribui esta acolhida?
Nilton Bonder
“A Alma Imoral”, apesar de ser um texto em linguagem filosófica e teológica, é um livro sobre a vida e as escolhas que todos temos que fazer. Estas escolhas, fiéis ou infiéis aos nossos olhos e aos olhos dos outros, traçam o nosso destino. Acredito que as pessoas se reconheceram num debate muito profundo que cada ser humano realiza contemporizando entre suas tentações e suas covardias.

iG A peça foi fiel ao seu livro, você gostou do resultado?
Nilton Bonder A peça é fiel ao livro, apesar de atraiçoá-lo algumas vezes, mas não poderia ser diferente. Mas eu gostei muito do resultado porque ela traduziu em linguagem acessível uma temática complexa. Soube administrar o meu preciosismo, aceitando que a adaptação tinha que estar compromissada com a comunicação ao público. Por vezes, o texto da peça parece favorecer e aconselhar a traição, quando a intenção é mostrar a característica camaleônica da fidelidade e da infidelidade. E a traição pode, muitas vezes, camuflar medos e desejos de controle típicos do corpo e não da alma.

iG Saímos de um ano marcado pela crise e pelo provável início de uma grande mudança. Qual a grande lição de 2009?
Nilton Bonder Para o Brasil, acho que essa crise não atingiu as profundezas da experiência humana e trará poucas mudanças. Já reiniciando o crescimento, voltamos a uma atitude como se tivéssemos passado por uma marola e agora vamos tocar em frente. Mas acho que essa crise foi uma primeira convulsão de outras que conheceremos globalmente. Neste sentido, a crise no âmbito mundial foi um aperitivo de vários momentos de desequilíbrio que encontraremos no futuro. Eles serão capitaneados pela questão climática que é, por sua vez, um sintoma de atitudes muito sérias. Nossos investimentos num estilo de vida são grandes demais para que o desmontemos espontaneamente. Só o encontro com a realidade pode transformar estruturas e mentalidades. Esses encontros ocorrerão e têm cara de embate, pelo menos nos primeiros momentos.

iG Qual você acha que é a maior aflição atual do ser humano?
Nilton Bonder Nossas sociedades são centros ativos de controle. A vida, no entanto, não suporta níveis excessivos de controle porque é no descontrole que está a criatividade, a diversidade e a mutação, que são seus recursos mais preciosos. Estamos ficando muito sensíveis e intolerantes ao descontrole. Sabemos se choverá, e não mais no dia em questão, mas planejamos nossos fins de semanas com previsões cada vez mais ousadas. Quanto mais previsível o mundo, menos vivo ele é. Um paradoxo que vai chegando pela qualidade de nossas vidas tão mais confortáveis e, ao mesmo tempo, tão mais vazias; ou pelo pragmatismo que explica e devora a imaginação, o simbólico, os mistérios e as paixões.

iG E como as pessoas podem conviver melhor com o controle?
Nilton Bonder O controle é um vício. Não é algo que se deixa por resolução. Temos que sentir na carne o custo igual, ou maior, da dor que nos causa diante do prazer que parece proporcionar. E quem pode mostrar isto à carne, ao corpo, é nossa alma. Só abriremos mão do controle nos encontros que a realidade nos proporciona. O quão mais atento se estiver aos custos deste comportamento, mais rápido será a mudança e menores os seus ônus.

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Livro "A Alma Imoral"
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Quem está mais perdido hoje, o homem ou a mulher com seus novos papéis?
Nilton Bonder
A maior traição é sempre a alienação. Todo aquele que se faz presente e engajado com a vida não trai. Talvez os homens apresentem um maior grau de torpor e vivam emocionalmente mais hipnotizados pelas demandas de ação e resultado a que são submetidos. Eu aventaria esta hipótese de que as mulheres traem seus homens para dizer-lhes que, mais do que serem traídas por casos e amantes, se sentem traídas pela ausência e indiferença. E o homem tem dificuldade de entender isso. As mudanças impõem dificuldade a ambas as identidades, mas acho a masculina está mais frágil nesse momento.

iG Com a chegada de 2010, as pessoas tendem a tomar as famosas "resoluções de Ano Novo". Planejam viver melhor, frequentar academia, retomar atividades e acertar suas rotinas. Geralmente, estas resoluções terminam abandonadas antes do fim do primeiro mês do ano. Como tomar resoluções e segui-las?
Nilton Bonder Não temos poder sobre nossos vícios com resoluções. Elas são desejos pelos quais não estamos dispostos a pagar o preço. Para estas resoluções serem verdadeiras, elas não podem estar no condicional. O que precisamos e nos dispomos a transformar em nossas vidas requer uma entrega incondicional.

iG Como ter uma vida melhor em 2010?
Nilton Bonder Não tentar vivê-la em 2010 como uma repetição dos melhores momentos do passado e não tentar enquadrá-la em nossas expectativas. O que 2010 tem de mais delicioso e passional esperando por ser desfrutado é o imprevisível e o inusitado. Então, sugiro não tentar fazê-lo um 2009 melhorado, mas permitir-lhe ser uma profunda aventura, que é o que a vida é a todo o momento. Ou seja, 2010 é um convite para a festa, um convite para surpreender-se e não uma garantia de diversão e sucesso.

iG Você está preparando um livro novo? Quais são seus projetos para o ano que vem?
Nilton Bonder Tenho mais um livro que está em processo de adaptação para o teatro. Também uma nova versão da “A Alma Imoral”, que estréia na Argentina. Meus anteriores estão ganhando revisão e novas edições, todos pela editora Rocco. E sim, devo ter um novo livro para o meio do ano.

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