Problema vivido pela personagem da atriz Bárbara Paz, na novela “Viver a Vida”, não é tão incomum quanto parece

Bárbara Paz em
Divulgação/TV Globo
Bárbara Paz em "Viver a Vida": drunkorexia não é doença, mas "padrão de consumo"
A novela das oito da Rede Globo, “Viver a Vida”, trouxe uma personagem que encara um problema que agora passa a ser conhecido, mas não tão raro e nem tão incomum: a drunkorexia (ou anorexia alcoólica). Renata, vivida pela atriz Bárbara Paz, preocupada em manter a forma, nunca se alimenta, mas abusa do álcool. A inspiração real é a cantora Amy Winehouse, que abusa do álcool e aparece magérrima em foto no Caribe.

Marcelo Niel, médico psiquiatra e colaborador do Programa de Orientação e Atendimento à Dependência da Unifesp (Proad), diz que a drunkorexia não é considerada uma doença, mas um padrão de consumo de álcool que pode ter consequências graves e levar ao surgimento de doenças. “Em geral, acontece na faixa entre 25 e 35 anos, com mulheres que são profissionais liberais, independentes, e têm uma vida ativa e que consomem álcool”, explica.

As mulheres que sofrem com o distúrbio se privam da comida, mas bebem quantidades de álcool cada vez maiores. “A bebida inibe um pouco o apetite. E elas dão preferência aos destilados, por ouvirem frequentemente que cerveja dá barriga”, diz Niel. Segundo o médico, um dos estímulos para o crescimento desse comportamento é a emancipação feminina. “As pesquisas comprovam que as mulheres estão bebendo cada vez mais, equiparando-se aos homens. Porém, elas são muito mais sensíveis ao álcool do que eles”.

Elizandra Souza, pós-graduada em Psicanalise e Linguagem pela PUC-SP, concorda que o hábito de beber está cada vez mais presente entre as mulheres – e também alerta sobre um agravante: “as mulheres tendem a desenvolver a dependência alcoólica mais rapidamente do que os homens, principalmente por reter mais líquido e, também, por sentirem mais os efeitos do álcool”, explica.

O Programa da Mulher Dependente Química, o Promud, avaliou 80 mulheres e detectou que 56% que estavam em tratamento de álcool ou de drogas tinham algum problema de transtorno alimentar, como anorexia, bulimia ou compulsão por comer. Mas quem sofre com a drunkorexia não necessariamente é um dependente do álcool, mas tem grandes chances de se tornar um. “O álcool acaba trazendo algum prejuízo, mas ainda não é uma dependência, porém, com o tempo, ele pode acabar se transformando em um vício mesmo,” diz Niel.

A drunkorexia costuma acontecer com mulheres de poder aquisitivo elevado, que procuram o médico quando percebem que começam a dar vexames em festas ou reuniões com amigos. “A pessoa passa a ter desmaios, crises de hipoglicemia, mudanças de comportamento, pois está sob o efeito do álcool. Quando acontece algo grave, ela acaba procurando ajuda”, explica Niel. Um exemplo é o de uma paciente que procurou o consultório do especialista no dia que vomitou no prédio. “Como passou por esse inconveniente, achou que era hora de se tratar”, completa

Situação de risco

Marcelo Niel avisa que a drunkorexia pode surgir silenciosamente. Não é do dia para a noite que a pessoa substitui a alimentação pela bebida. É gradativo. “Já ouvi mulheres dizendo ‘vamos beber, pois comer engorda’. É um comportamento que está muito difundido entre as mulheres”, relata o médico. “A solução é procurar um profissional especializado em dependências de uso e abuso de substâncias como álcool e drogas”. Fazer terapia também ajuda muito. E, claro, alimentar-se bem.

A psicanalista Elizandra alerta que distúrbios como a drunkorexia estão ligados à necessidade de amenizar conflitos emocionais. “Ou para eliminar a ansiedade ou tentar eliminar o que foi ingerido”, diz. O tratamento, normalmente, é feito com acompanhamento psicológico e medicamentos. “A análise trabalha a ansiedade e a aceitação de si mesmo, enquanto a medicação pode diminuir a compulsão e aliviar a abstinência”, diz.

Quando um tema desses aparece na novela, há o receio de que isso se torne uma espécie de propaganda e ganhe novos adeptos. “O jovem costuma querer se ligar a certos grupos, principalmente os polêmicos”, diz Marcelo Niel. “Eles adotam o comportamento por uma fase. O risco é quando há o uso de substâncias que podem fazer muito mal, causar problemas psiquiátricos e afetar a saúde”, explica. Por outro lado, Niel acha que pode ter uma vantagem de assistir o problema na TV porque algumas pessoas podem se identificar e cair na real. “Quando isso ocorre, sempre aumenta o número de pessoas que buscam tratamento”, finaliza.

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