Distribuídas via internet e com efeitos desconhecidos, drogas prometem entorpecer por meio de efeitos sonoros - mas especialistas discordam

O estudante parisiense JB diz que sente dores no corpo quando usa a i-dose
Arquivo pessoal
O estudante parisiense JB diz que sente dores no corpo quando usa a i-dose
Modinha entre jovens franceses, as “i-doses” ou “e-drugs” são arquivos de áudio que geram supostos efeitos alucinógenos. Os sons e ruídos, “consumidos” por meio de fones de ouvidos, são baixados ou comprados pela internet. E como não envolvem substâncias ilícitas, as drogas digitais não são proibidas e estão à distância de um clique.

Os supostos efeitos dessas “e-drugs” são baseados na técnica bineural beats . A partir da reprodução de duas frequências diferentes, o cérebro criaria uma terceira para dar equilíbrio.

Cada conjunto sonoro leva um nome e promete efeitos diferentes: alucinógeno, relaxante, energizante, entre outros. “É relativo, elas são baseadas em hipótese e vendidas como fatos concretos”, avalia o Alexandre Pills, psicólogo integrante do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da PUC.

"A sensação é que você vai ver as portas do inferno, fica estressado, se sentindo mal e com dores no corpo”, relata o estudante JB, de 20 anos, sobre sua “e-drug” preferida. Ele mora em Paris e conheceu as drogas digitais há um pouco mais de um mês. O efeito, segundo ele, varia de acordo com a sensibilidade da pessoa. Para justificar a sensação de JB, Alexandre acredita na autosugestão. “É como fumar orégano pensando que é maconha e achar que algo aconteceu”, diz o psicólogo.

Já o publicitário paulistano Claus, de 27 anos, escutou as “e-drugs” e não acredita nos efeitos das pílulas sonoras alucinógenas. “Muito barulho por pouco efeito. Isso é criado para alguém predisposto a sentir os efeitos. Eu ouvi totalmente cético e não aconteceu nada”, conta. Estudante em Paris, Juba, de 23 anos, também acha que as drogas digitais são uma fraude. “Provei uma boa dezena sem ter resultado algum. Escutei as doses mais caras e com fama de serem eficazes, mas não senti nada”, fala.

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Os sons são “consumidos” por meio de fones
Para o universitário Harley, 26 anos, o uso frequente levou ao mesmo efeito da meditação. “Conheci em uma comunidade do Orkut, comecei a pesquisar e me interessei mesmo quando vi as doses que mudam as ondas cerebrais. Já sabia que determinados sons tem essa propriedade”, acredita.

Para Alexandre, as “e-drugs” são uma tentativa de dar uma cara nova para um método de meditação e relaxamento. “Até faz sentido. O som é um estímulo, como a luz e a cor. Pegaram essa pequena alteração de estado e colocaram a roupagem de uma droga, mais interessante para essa era digital”, avalia. “Um dos sites trata o representante de vendas como traficante. Já viu traficante fazer isso? É para criar um encantamento e ressalta ainda mais o valor de placebo”, completa.

A diferença das drogas digitais está também na relação do usuário. Enquanto uma droga ilícita é uma compensação, a “e-drug” é uma busca interna porque exige concentração na busca de um efeito. “É diferente procurar algo de fora para resolver um problema ou ter que prestar atenção no ruído, ouvir várias vezes”, diz o psicólogo.

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