Calcula-se que cerca de 3% da população mundial seja vítima do transtorno dismórfico corporal – ou dismorfofobia

Estima-se que 3 por cento da população mundial
sofra do Transtorno Dismórfico Corporal
Getty Images
Estima-se que 3 por cento da população mundial sofra do Transtorno Dismórfico Corporal
Citada pela primeira vez nos anais médicos em 1886, a dismorfofobia foi descrita como “uma insatisfação aguda do paciente com seu corpo, associada a um profundo sentimento de vergonha quando se sentia observado por outras pessoas, pois se julgava muito feio ou deformado”. Mas levou um século para que a doença fosse reconhecida e incorporada à lista de diagnósticos pelos psiquiatras norte-americanos, que a chamaram de Transtorno Dismórfico Corporal (TDC).

O TDC, também conhecido como Complexo de Quasimodo graças ao personagem principal do clássico “O Corcunda de Notredame”, pode tornar a pessoa obcecada por cirurgias plásticas. Um exemplo famoso foi o astro pop Michael Jackson, que ficou deformado de tanto tentar mudar o rosto. Mas provavelmente Michael Jackson não se via no espelho como nós o enxergávamos, espantados a cada nova aparição do cantor. O paciente que sofre com a dismorfofobia costuma se ver de maneira deturpada no espelho, explica a cirurgiã plástica Valéria Leal, da Escola Paulista de Medicina.

De acordo com a médica, cerca de 3 % da população mundial sofre com o problema, o que equivale a 57 milhões de pessoas. “Não considero um problema raro. Algumas pesquisas dizem que o problema ocorre em 2% da população. Outras contabilizam 7%. Mas a média é 3%”.

Desenvolvimento da doença
Os primeiros sinais do problema surgem na adolescência. Alguns sinais típicos são a depressão, o uso excessivo de maquiagens e insatisfações exageradas com a aparência. O que pode prever um passo seguinte: o de partir para as cirurgias plásticas, mas sem nunca estar feliz com os resultados. No entanto, o diagnóstico pode ser difícil porque, muitas vezes, a queixa do paciente pode ter fundamentos.

“Não é que a pessoa tem um nariz maravilhoso e acha horrível. Frequentemente, ela realmente tem um problema que pode ser corrigido”, explica. A questão, portanto, está em como isso é encarado. “Quando a queixa é muito exagerada, é preciso atenção. É normal uma pessoa não gostar do nariz, por exemplo. Mas o paciente de dismorfofobia responsabiliza a aparência por muitos problemas, como não conseguir namorar, não ter amigos ou não conseguir procurar um emprego”.

Operar não muda a imagem de si mesmo
Nos casos do transtorno, operar não resolve. O cirurgião plástico Ivan Abadesso explica que o paciente passa por um grande desconforto e o médico também, pois, se realizar a cirurgia, vai sofrer com a insatisfação do paciente. E a insatisfação exacerbada é um sinal de que o médico não deve operar. “O problema não está na aparência ou no corpo, mas na cabeça”.

E falando em corpo, apesar do exemplo sobre o nariz – e esse ser o local que mais chamava a atenção das críticas sobre a aparência do cantor americano –, os pacientes podem estar insatisfeitos, também, com o resto do corpo, lembra Vitório Maddarena, que é cirurgião plástico. “Se há o transtorno, é preciso um acompanhamento multidisciplinar para realização da cirurgia, se ela for realmente necessária”, reitera.

Ou seja, quando a insatisfação procede, a pessoa poderá fazer plástica, mas antes é preciso tratamento psicológico. “O paciente pode mudar o que não gosta, mas para que a queixa não seja superdimensionada, precisa de acompanhamento psicológico. Estando em crise, a pessoa jamais ficará satisfeita com o resultado”. Operar sem limites pode causar prejuízos sérios. O cirurgião explica que a pele tem um limite, assim como os músculos, que precisa ser respeitado. “Há pessoas que operam várias vezes a mesma região, trocando de cirurgião para conseguir operar. Isso pode deformar a pessoa e até levar a uma necrose”, alerta.

A responsabilidade dos médicos
Cabe ao médico conhecer o problema e não operar casos assim. “Muitos profissionais operam por desconhecer a doença e, por isso, não fazer o diagnóstico dela – que não significa que seja perdoável. Outros, por falta de ética”, diz Valéria. E esse segundo seria o caso de Michael Jackson. “Os médicos que atendem alguém muito famoso têm uma projeção muito grande. Então, deixam a vaidade superar a ética”.

Valéria alerta que é bom ter atenção ao próprio comportamento e ao das pessoas próximas, pois essa é uma doença que permanece pouco estudada. “A dismorfofobia vem muito associada a outras doenças mais reconhecidas, como bulimia, anorexia, depressão. Essas doenças eram tratadas e dismorfofobia estava ali, sem ser notada”, lamenta.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.