Produtora de vídeo encara 50 dias na Índia para documentar dia a dia de projeto que ajuda monjas tibetanas exiladas

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"Ter ido para a Índia e saber que ajudei as monjas de alguma forma é maravilhoso", diz a documentarista
A saga de 60 monjas que percorreram as montanhas do Himalaia durante quase dois anos, fugindo da ocupação chinesa no Tibete, inspirou a produtora Cláudia Fernandes, de 25 anos, a se encher de coragem e encarar solitários 50 dias na Índia. Munida de equipamentos modernos, muita coragem e um misto de paixão e curiosidade pelo budismo, ela desembarcou em Dheli e logo percebeu que, dali para frente, os dias seriam intensos e emocionantes. E foram.

O objetivo de Cláudia era fazer um documentário sobre o TNP (Tibetan Nuns Project) . O projeto, que existe desde 1987 em Dharamsala (ao norte da Índia, onde se instalou o governo do Tibete no exílio), hoje atua na educação e ajuda humanitária a mais de 700 monjas. O ponto de partida para o projeto foi a monografia de sua pós-graduação.

Tudo começou na casa de uma amiga, onde Cláudia descobriu um casal que conhecia o TNP e tinha vontade de fazer um documentário. Algumas figurinhas trocadas e o acerto de que, quando desse certo, ela seria chamada. Não deu certo, mas Cláudia acabou pedindo autorização ao casal para usar a ideia em um trabalho de conclusão de curso. Por intermédio deles, fez os primeiros contatos com Miss Rinchen Khando, diretora do projeto, que aceitou sua visita e sugeriu que fosse em março, época de clima mais ameno na região.

Tudo acertado, Cláudia foi ao mapa para descobrir onde ficava Dharamsala e ouviu as muitas histórias de quem já tinha visitado a Índia. “Muita gente me colocou medo”, conta. Mesmo assim foi em frente. Dois meses antes, pediu demissão do emprego e gastou o tempo se preparando para a viagem, lendo, pesquisando e pensando no documentário – e, finalmente, ela embarcou na solitária aventura.

Ainda em Dheli, conheceu pessoalmente Miss Rinchen, sua grande ajuda e inspiração no trabalho. Aí já começaram as emoções à flor da pele. “Ela é uma das mulheres mais incríveis que eu conheci. Logo que a encontrei ela disse que é sempre aberta para que as pessoas entrem, façam fotos e conheçam os monastérios, mas que ela nunca tinha sentido tanta vontade de ajudar alguém como ela sentia comigo. Eu fiquei superemocionada”. A partir daí, Cláudia percebeu que a carga emocional da viagem seria maior do que a esperada.

Sempre muito cautelosa, a produtora se aproximou das monjas devagar. Nos primeiros dias saiu do hotel sem equipamento, apenas para conhecer e conversar. “Não queria chegar muito invasiva”. Aos poucos, percebeu que as mulheres que escolhem aquela vida não são tristes, como pode parecer para muitos. Pelo contrário. São plenamente realizadas com suas escolhas e muito disciplinadas. Nessa hora, Cláudia decidiu que o foco do seu documentário não seria as mazelas sofridas pelas monjas por causa da dominação chinesa no Tibete, mas sim o lado positivo da vida que elas levam, principalmente a luta por uma educação de qualidade, que se iguale àquela oferecida aos monges.

Isso não significa que ela não tenha ouvido histórias de tortura e sofrimento. Em um dos primeiros depoimentos que se vê no documentário, uma monja chora enquanto conta sua história e agradece o que o projeto fez por ela. “Esse momento foi muito tocante porque ela falava em tibetano e chorava. Eu não entendia nada e chorava junto”, diz.

O idioma, aliás, foi um dos desafios para a execução do trabalho. Cláudia tentou conversar com as monjas em inglês, mas percebeu que, para elas, era complicado falar de um assunto tão delicado sem ser na língua mãe. Então, conseguiu um tradutor do tibetano para o inglês.

Educação e direitos iguais
Talvez pelo fato de ser uma característica marcante da vida dessas monjas, o trabalho de Cláudia enfatiza muito a questão educacional. “A luta delas é para ter a mesma qualidade de educação que é oferecida aos monges e atingir o mesmo nível hierárquico deles. E, nesse caso, o exílio é até bom porque as fez ter mais contato com os ocidentais. E as mulheres budistas ocidentais, que fazem muitas visitas a Dharamsala, não aceitam ter um ensino inferior ao dos homens”.

Como não ficou hospedada nos monastérios, Cláudia se levantava todos os dias às 5h para poder acompanhar a rotina das monjas desde a hora em que acordavam. As filmagens foram feitas nos monastérios de Dolma Ling, Shungsep e Tilokpur, além de outros pontos da região onde vivem monjas que optaram por uma vida fora dos monastérios.

O que mais impressionou a documentarista foi a forma como o estudo é encarado. “Elas são extremamente disciplinadas e estudam muito. Quando não estão cuidando dos monastérios ou meditando, estão estudando”.

O lado deles
Uma das grandes dificuldades encontradas por Cláudia nessa viagem foi uma infecção alimentar que a atrapalhou nos 10 últimos dias. “Durante uma semana eu tive que mudar de pousada, por causa de um congresso que estava acontecendo por lá, e tive que comer fora. Até então, eu estava comendo a comida tibetana, que é uma delícia e bem leve. Com a mudança eu peguei uma intoxicação alimentar que me atrapalhou até o último dia. No começo eu achei que ia morrer porque fiquei cinco dias sem conseguir fazer nada. Preocupada, minha mãe mandou o meu irmão para lá. E foi ótimo porque ele acabou me ajudando, fez as fotografias do making of”. Como dizem que há males que vem para bem, o irmão deu a ideia de colocar a visão masculina no documentário.

Foi depois disso que ela conseguiu entrevistas com o 17° Karmapa; Ripnoche Tenzin Choegyal (marido da Miss Rinchen e irmão de Sua Santidade o Dalai Lama); Tsering Phuntsok (Ministro da Religião e da Cultura do Governo Tibetano no Exílio); Geshe Lobsang Temphel e Geshe Rinchen Ngodup (professores Lamas do monastério Dolma Ling). “Eu simplesmente não podia imaginar que iria entrevistar o irmão do Dalai Lama. Fiquei muito nervosa. Não sabia o que falar, onde sentar, o que fazer. Mas foi maravilhoso”.

O objetivo maior de Cláudia com esse trabalho é ajudar o TNP. Ela espera que o documentário possa divulgar o projeto e aumentar a ajuda que eles recebem, e precisam, para sobreviver. “Essa viagem mudou a minha visão de mundo. Hoje, tenho uma vontade de ajudar maior. O meu objetivo na profissão de documentarista é ajudar, proporcionar educação, comunicação para as pessoas que não podem”.

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