Adolescentes, elas tiveram bebês internadas na Fundação CASA. Hoje, acham que podem dar uma vida melhor para eles _ e para elas

Sentada no sofá com seu bebê de três meses no colo, Luana* conta que a primeira coisa que faz ao acordar, todos os dias, é olhar para o filho e saber se ele está bem. Seria uma situação bastante comum às mães, principalmente as de primeira viagem, mas Luana é uma das seis adolescentes internadas na Casa das Mães, espaço da Fundação CASA (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente, ex-Febem) criado para atender jovens gestantes e ajudá-las até que estejam autorizadas a sair.
Situada na Unidade de Internação Feminina do bairro da Mooca, em São Paulo, e com espaço para atender a doze meninas e seus filhos, a Casa das Mães Maria Clara Machado existe desde 2004. De acordo com Maria Isabel de Jesus Neto, diretora da Unidade, as jovens internas vão para lá quando estão por volta do 32º semana de gestação e só voltam às atividades normais após quatro meses do nascimento da criança. Para garantir um ambiente sereno para os bebês, Isabel conta que a maioria das jovens que vão para lá mudam de comportamento, e o nascimento do filho é uma das principais influências para isso.

Luana, por exemplo, já foi privada da liberdade de diferentes formas na Fundação – com provisória, semiliberdade e liberdade assistida – e somente hoje está inserida dentro das medidas socioeducativas de internação. Ela, que chegou ali com quase nove meses de gravidez afirma que antes não pensava duas vezes para fazer alguma coisa, mas agora vê tudo com outros olhos: “Tudo que eu vou fazer, eu penso nele antes. É o que eu tenho de mais valioso e quero dar uma vida digna para ele, começando pela minha”, explica.

Luana e seu filho na Fundação Casa
Eliel Nascimento / Divulgação
Luana e seu filho na Fundação Casa

Caindo a ficha
Aos 17 anos e há três meses internada, Luana chegou ali por tráfico de drogas quando já estava no nono mês de gestação. “Quando estava perto dos três meses de gravidez meu marido foi preso, aí bateu o desespero para saber como eu ia criar essa criança e pensei em abortar”, conta. Porém, recebeu apoio da família e aceitou o fato de que seria mãe. “Mas só amadureci depois que ele nasceu mesmo”, diz. Já Fabiana* só descobriu sua gravidez aos seis meses de gestação.
“A minha barriga começou a crescer só a partir dos seis meses de gravidez, e quando descobri fui ver o preço do remédio para tirar o filho, mas tinha medo de morrer também”, diz Fabiana. Segundo ela, sua consciência ficou mais pesada quando pensou em tirar o filho, mas ela pensava mais em si mesma e nas mudanças que iam ocorrer em seu corpo: “Pensava que meus peitos iam cair, ia ficar cheia de estrias, mas um dia depois de eu começar a pensar no aborto, eu fui presa”.
Também presa por tráfico de drogas, aos 18 anos, Fabiana conta que mudou da água para o vinho desde que chegou à Fundação, há cinco meses. E acredita em sua transformação: “Antes eu tumultuava mesmo, só queria saber de roubar, traficar, usar drogas, e ai de quem tentasse atravessar este mundo só meu. Só que ao chegar aqui eu comecei a ver que tudo tem que ter um limite, que a nossa vida precisa ter regras, não só aqui como lá fora também”. Mesmo sem estar completamente acostumada à ideia de ser mãe, ela conta que só agora, com o filho de dois meses, está fluindo o afeto pela criança – que nasceu com a cara dela.

Fabiana e seu filho na Fundação Casa
Eliel Nascimento / Divulgação
Fabiana e seu filho na Fundação Casa

Enfrentando a barra
De acordo com Elaine Cristina Macedo Gregório, coordenadora da Casa das Mães, o convívio das jovens num meio com recém-nascidos faz, na maioria das vezes, com que elas acabem se adaptando ao novo momento e se preocupem com as crianças. “Depois da maternidade, a maioria delas desperta”, acredita. Porém, não costuma ser fácil. Elaine conta que há garotas que chegam ali e precisam ser ensinadas a tomar banho, para depois poderem dar banho no filho.

“Por esta razão nós acabamos fazendo o papel de mãe também”, explica Elaine. E as verdadeiras mães dos recém-nascidos reconhecem o trabalho. “Quando damos à luz [o bebê] não temos muita noção, e aqui tem sempre alguém para ajudar”, conta Luana. Para ela, o único incômodo é estar privada da liberdade. Diferentemente da Febem, as jovens da Unidade da Mooca – e de todas as Unidades da Fundação – recebem uma atenção diferenciada, com atividades esportivas, cursos de informática e artesanato, entre outros, além de uma programação escolar. 

Em busca da liberdade
“A parte mais difícil para nós aqui dentro é quando elas vão embora”, revela Elaine. Mesmo que a maioria das meninas acabe se apegando ao filho, algumas deixam a internação sem terem despertado para a maternidade. Ela exemplifica com casos psiquiátricos, em que a jovem teve que ser separada do filho, que ficou com a avó, e casos em que o uso de drogas como o crack dificulta para a jovem mãe cuidar de si mesma e do bebê. “Temos casos de meninas que estão na terceira gestação e estão aqui, com dois filhos lá fora”, conta.
Apesar dos pesares, Elaine acredita nos resultados de seu trabalho. Um exemplo é a demonstração de força de vontade de Luana para sair e dar, como ela mesma diz, uma vida digna ao filho. “Eu sei que vai ser difícil, levando em consideração que antes de entrar aqui nós ganhávamos em uma semana o que se ganha em um mês de trabalho normal, mas por ele eu vou tentar. Vou tentar não, eu vou conseguir”, se corrige. Com o apoio dos familiares e sabendo que seu marido, mesmo agora preso, sempre quis ser pai, Luana quer mudar e poder dizer ao filho, quando ele crescer, que deu as coisas para ele com dinheiro ganho honestamente.

Mãe e filho na Fundação Casa
Eliel Nascimento / Divulgação
Mãe e filho na Fundação Casa


Assumindo a responsabilidade
Para Fabiana, no entanto, a proximidade com o pai de seu filho não deve mais existir. “Se eu quero mudar, tenho que começar por ele, que sei que não vai mudar”, diz. Mesmo confessando que às vezes seu pensamento transita entre criar o neném e deixá-lo para adoção, ela quer que ele tenha tudo que ela não teve – desde pequena vivia solta e descobriu muito cedo o que eram armas e drogas, além de não ir para a escola. “Ele saiu de dentro de mim, então eu quero dar uma criação melhor para ele do que a que eu acredito ter tido”, explica.
A diretora da Unidade da Mooca revela que, embora forneçam verba para que a família visite as jovens, a maioria não o faz. “Também é difícil que os pais dos nenéns venham visitar, porque a maioria está ‘guardado’, como elas dizem”, explica Isabel. Segundo ela, grande parte dos pais – também jovens – está presa também por tráfico e muitas das internas engravidaram na cadeia, em dias que levavam drogas para o namorado.
No entanto, Isabel conta que a mudança no comportamento das meninas, seja por se tornarem mães ou por estarem lá dentro – ou ambos – faz jus à redução da taxa de reincidência da Fundação, que desde 2006 caiu de 29% para 12,8%. Luana diz estar se esforçando bastante com os estudos para, quando sair, poder cuidar de seu filho. “Agora eu sei o que a minha mãe queria para mim”, resume.

* Os nomes foram trocados para preservar as entrevistadas

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