Mães apontam diferenças e semelhanças em criar filhos e filhas - e especialistas mostram o melhor caminho na criação de ambos

s diferenças de comportamento entre meninos e meninas são muito mais culturais
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s diferenças de comportamento entre meninos e meninas são muito mais culturais
A psicóloga alemã Gisela Preuschoff, autora do livro “Criando Meninas” (Editora Fundamento), afirma que uma das diferenças mais eminentes entre homens e mulheres é que o lado esquerdo do cérebro, que controla as ações verbais, se desenvolve com mais rapidez no sexo feminino. Por isso, elas aprendem a falar mais cedo. O lado direito, no entanto, que controla as ações espaciais, se desenvolve antes nos garotos. Mas este seria um dos motivos para justificar uma criação totalmente distinta entre meninos e meninas?

Segundo a doutora em psicoterapia pela Unicamp Ana Gabriela Andriani, especialista em Psicoterapia Dinâmica Breve pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, as diferenças de comportamento entre meninos e meninas são muito mais culturais do que biológicas: “Antes mesmo de uma criança nascer, já existe todo um imaginário sobre ela”. Andriani explica que as relações familiares afetam o modo como a criança irá se comportar no ambiente em que vive. “Por exemplo, as crianças não nascem preferindo brincar de bola ou de casinha, o modo como os pais tratam cada gênero é que faz a maior diferença”, explica.

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Vera Aparecida de Aguirre, de 56 anos, mãe de uma menina e dois meninos, afirma que a única coisa diferente que fez na criação deles foi em relação ao modo como enfeitava e tratava a filha: “Eu sempre a enfeitei mais, penteava o cabelo dela, arrumava mais a roupa, e também a tratava de forma um pouco mais delicada”.

Para a psicóloga e terapeuta familiar da PUC-SP, Marina Vasconcellos, especializada em Psicodrama Terapêutico pelo Instituto Sedes Sapientiae, o fato da menina ser tratada com mais delicadeza é só o começo para definir como ambos os sexos irão se comportar no futuro.

Bonecas e carrinhos

Vasconcellos explica que os brinquedos que as crianças utilizam irão influenciar – e muito – na maneira de cada um se desenvolver. “Eles já crescem com bola e brincadeiras de luta, elas ficam mais com bonecas, brincando com casinhas”, conta. Segundo a especialista, o olhar dos pais e as expectativas acabam diferenciando os sexos.

“A menina geralmente é tratada com mais delicadeza, mais emoção. O menino acaba mais ligado à força e racionalidade”, afirma Andriani. Vera Boemer Philip, de 58 anos, mãe de duas meninas, tem dúvidas se seria uma boa mãe de menino justamente pela forma delicada e carinhosa com que sempre cuidou das garotas. “Sou muito cuidadosa, gosto muito de receber o carinho delas, e com menino eu teria que me esforçar mais para não ser tão melosa assim”.

Ana Rosa dos Santos Ceccon, 58 anos, mãe de três meninos, conta que talvez tivesse dificuldade se fosse mãe de meninas. “Eu só tenho irmãos, então, não tive tantos problemas com os meninos. A única coisa que me incomoda é a bagunça deles, mas não sei se as meninas são muito diferentes neste aspecto”, revela.

De acordo com a psicoterapeuta Margareth Scherschmidt, diretora do Projeto de Valores Humanos do Instituto Anima De Sophia, às vezes os pais criam expectativas sobre o filho homem, como jogar bem futebol, por exemplo, mas o mais importante é dar oportunidades a ambos os sexos, e não se prender a uma tendência. “É importante deixar a natureza fluir, e não reforçar aspectos que estão dentro dos costumes, da tradição”, afirma a especialista.

Andriani ainda ressalta que diminuir estas marcas da cultura é necessário: “É importante mostrar para os meninos que eles podem acessar o mundo das emoções e isso não vai fazer com que ele seja frágil, muito pelo contrário, ele será um ser humano mais completo”. Lia Aparecida Nuzzi Garcia, de 53 anos, confirma a tendência: mãe de dois meninos e uma menina, ela conta que sua filha é bem mais aberta nas relações interpessoais e nas emoções do que os meninos.

Diferenças naturais

Independentemente do comportamento que cada, Vasconcellos afirma que o desenvolvimento cerebral e emocional do menino acontece um ano depois do da menina. “Tanto que as meninas amadurecem mais rapidamente que eles”, diz. Para ela, o ideal seria que eles entrassem na escola um ano depois, já que neste aspecto há uma diferenciação. Daniela Quintela Huffenbacher, 28 anos, mãe de um menino e uma menina, conta que isso aconteceu realmente com seus filhos: “Ela andou primeiro, falou primeiro, foi muito mais rápida em tudo”.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo psicólogo Simon Baron-Cohen, da Universidade de Cambridge, na Grã-Bretanha, o cérebro das meninas está mais apto à comunicação do que o dos meninos, que possuem uma maior tendência para a lógica e análise. Isso aconteceria pelos diferentes níveis de testosterona fetal encontrados em ambos os sexos. Ainda, segundo outra pesquisa também coordenada por Baron-Cohen, as meninas se interessam mais pela interação com a figura materna e possuem uma maior sensibilidade ao toque.

Preuschoff confirma a informação em seu livro e conta ainda que, de acordo com uma pesquisa norte-americana que, ao reunir meninos e meninas na sala de espera de um consultório, percebeu que os meninos não costumam respeitar a proibição dos pais para tocar algum objeto, diferente delas. Levando em consideração este aspecto, a autora concluiu que elas são capazes de controlar melhor os próprios impulsos do que eles.

Personalidades diversas

Além das diferenças biológicas entre o sexo masculino e feminino, as mães afirmam que, em geral, tratam os filhos de modo diferente por causa do temperamento singular de cada. Segundo Philip, suas filhas, por exemplo, possuem personalidades muito distintas: “Elas são como água e vinho, uma é politicamente correta, a outra é da pá virada, são muito diferentes”.

Ana Rosa também ressalta diferenças entre seus filhos e, mesmo que o mais novo sempre tenha sido mais fechado que o mais velho, sempre teve uma relação muito aberta com ambos. Porém, acredita que se tivesse tido filhas, conseguiria ter um maior controle da vida delas do que tem de seus filhos: “Eles vão crescendo, ficando livres, aí não adianta nem tentar seguir pelo celular”.

Além disso, quando eles ainda são pequenos, Andriani revela que são os estímulos que a criança recebe que irão estimular a maneira que as crianças irão se comportar na infância, na adolescência e na vida adulta. Segundo ela, no entanto, quanto mais estimulada emocionalmente e intelectualmente com diferentes brincadeiras entre as caracterizadas mais masculinas ou mais femininas, melhor será o desenvolvimento afetivo, cognitivo e social.

O que pode ser feito

Diminuir as marcas culturais, mostrando que menina pode brincar de bola e outras brincadeiras masculinas e menino também pode brincar com objetos mais femininos sem que isso afete a sexualidade dele, é uma das atitudes que todos os pais deviam tomar de acordo com Andriani. “É importante que se estimule ambos os lados”, explica. Vasconcellos ainda diz que é preciso evitar este comportamento de que homem não chora, que precisa ser durão. “Não precisa chamar tanto a atenção por este lado”, comenta. De acordo com Scherschmidt, o mais importante mesmo é respeitar as necessidades de cada um, independentemente do sexo.

Veja abaixo algumas dicas tiradas dos livros “Criando Meninas”, da alemã Gisela Preuschoff”, e “Criando Meninos”, do australiano Steve Biddulph (ambos da Editora Fundamento), para saber as principais diferenças biológicas que meninos e meninas podem apresentar durante o desenvolvimento.

- Não deixe que as meninas fiquem somente brincando com bonecas ou casinhas: quebra-cabeças e brinquedos mais lógicos, além de atividades físicas ao ar livre, ajudam para que a capacidade visual e espacial delas seja estimulada

Mariana Newlands
100 Brincadeiras: escolha a ideal para seu filho
- Estimule a capacidade de se expressar de seu filho contando histórias e conversando: assim, ele poderá se desenvolver com mais facilidade no campo da linguagem

- Disponibilize aos meninos brinquedos que estimulem a criatividade e a fantasia: bonecos, espadas e carrinhos colaboram bastante para isso

- Não menospreze o menino caso ele chore por algum motivo, como uma queda, por exemplo. Você estará reprimindo a sensibilidade dele

- Mesmo que o filho tenha a tendência de ser mais agressivo, não aprove o comportamento: o fato de ele ser um menino não faz jus a isso

- O choro deve ser permitido quando há algum sentimento como tristeza, raiva ou uma frustração: mas não deixe que as meninas, principalmente, usem disso para conseguirem algo que querem

- Chame também o menino para participar das atividades domésticas e mostre que este papel não é somente feminino

- É reconhecido que as meninas alcançam a maturidade com antecedência, mas não estimule que ela se torne uma mini-adulta utilizando roupas que não são propriamente para crianças

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