Nem sempre os hábitos maternos são hereditários. Dar o exemplo, entretanto, parece ser sinônimo de sucesso

Família saudável e feliz: crianças fazem cara feia para a fritura
Arquivo pessoal
Família saudável e feliz: crianças fazem cara feia para a fritura
Arroz, feijão, bife e... legumes. O prato colorido, isento de fritura ou qualquer tipo de gordura encabeça a lista de favoritos dos três filhos da anestesista e triatleta Patricia Rabolini. Na vida da família, há um espaço quase desprezível para chocolates, salgadinhos e junk food.

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O sucesso na alimentação dos filhos é resultado de uma rotina moldada pelo esporte. Assumidamente viciados nas provas que unem natação, bike e corrida, Patricia e o marido, o urologista Giorgio Rabolini, repassam, naturalmente, tal valor ao trio de descendentes.

“Sempre tive uma alimentação equilibrada, mas depois que comecei a praticar o triatlo passei a dar mais importância. O rendimento diminui sem alimentação correta. Não bebo, não fumo e não como fritura. Há vinte anos eu e meu marido nos dedicamos ao esporte de competição, sempre na companhia das crianças. Eles não tinham um mês de idade e eu já tinha voltado a competir.”

Eduardo, Bruno e Mariana são magros, ativos e saudáveis – exatamente como os pais. Vibram com um bom prato de macarrão e fazem cara feia para uma picanha suculenta, quando ela vem encapada de gordura. Carboidratos são essenciais no dia a dia dos miniatletas – os três fazem parte da equipe de natação profissional do Grêmio Náutico União, em Porto Alegre, e treinam de segunda a sábado.

Censura do bem

Durante a semana, Patricia mantém um cardápio fixo, mas variado nos ingredientes. Verduras, legumes, frutas e carnes grelhadas, além do tradicional e querido arroz com feijão, compõem as duas principais refeições da família. Aos finais de semana, refrigerante, salgadinhos – em poucas quantidades e somente em eventos fora de casa – estão liberados.

A estratégia de blindar a despensa da família e proibir a entrada de bolachas, doces, biscoitos e comidas artificiais faz parte da recomendação dos pediatras para construir uma vida saudável.

Na opinião de Mario Bracco, pediatra e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria, manter as denominadas ‘besteiras’ fora de casa é essencial para os filhos crescerem longe da obesidade. Segundo o especialista, a construção do paladar e da saúde é feita no ambiente familiar, à mesa.

“Filhos de pais obesos têm mais chances de se tornarem gordos. A dieta das crianças é totalmente dependente do que os pais oferecem. É fundamental que o acesso seja restrito ao convívio social fora de casa.”

O surfe também faz parte das atividades e do lazer da família Rabolini
Arquive pessoal
O surfe também faz parte das atividades e do lazer da família Rabolini
A anestesista endossa a orientação do pediatra e afirma que sua experiência como mãe saudável e atlética se reflete no comportamento dos filhos.

“Eles reproduzem o que os pais são. Não oferecemos outra coisa para eles, o exemplo é tudo.”

José Claudionor da Silva Souza, pediatra da maternidade Pro Matre, em São Paulo, explica que a criança come de tudo até um ano, depois dessa fase, começa a ser mais seletiva. É nessa etapa que a alimentação dos pais pautará a saúde dos filhos.

Na família Rabolini, a comida nunca foi motivo de birra ou reclamação. Com uma rotina de treinos na natação intensa e diária, as crianças vêem no chocolate ou na batata frita um entrave ao desempenho.

“O ideal é manter uma dieta rica em legumes, verduras e frutas até os três anos de idade. Depois de um ano ela começa a copiar o adulto. A criança precisa testar o paladar, mas não pode comer somente o que gostar", aponta Souza.

Equilíbrio entre os extremos

Apesar da consciência e disciplina, os competidores mirins não resistem a um delicioso sorvete no sabor chocolate. “É uma das poucas guloseimas que eles adoram”, entrega a mãe. Patricia revela que o único motivo de descontentamento das crianças é o excesso de treinos dos pais.

“Sempre tentamos dosar, ou levá-los com a gente, mas quando passamos o final de semana em competições, eles cobram.”

Patrícia em uma das inúmeras provas que comepete junto com o marido
Arquive pessoal
Patrícia em uma das inúmeras provas que comepete junto com o marido
Permitir pequenos prazeres e afrouxar as rédeas esporadicamente é uma excelente forma de frear radicalismos, revela Mario Bracco. Quando as crianças já têm o paladar formado e a consciência do retorno que a alimentação balanceada promove, uma bola sorvete já resolve.

“É preciso dosar, combater o exagero. A obrigação precoce, tanto na alimentação quanto no esporte, tira espaço da criança para brincar e pode ser prejudicial. Ela não precisa ser profissional, não pode tirar o tempo dos pequenos de serem crianças.”

Filho de peixe...

Atleta profissional do triatlo entre 1993 e 2000, Cris Carvalho teve uma vida inteira voltada para o esporte. Formada em educação física e campeã de inúmeras competições da modalidade, a assessora esportiva tem traquejo de sobra para conduzir Luigi, filho único de cinco anos, no caminho da saúde e do bem-estar.

Sem exageros, ela e o marido, o arquiteto José Luiz Caputo, orientam a babá a montar todos os dias o prato do pequeno com carboidratos, fibras e proteínas – alimentos que o casal julga importante para o menino crescer forte e saudável. A estratégia tem dado certo. O garoto conheceu refrigerante há pouquíssimo tempo, em uma festa de amigos.

“Ele descobriu refrigerante fora de casa e sabe que só terá acesso nessas ocasiões. Nem por isso solicita ou sente falta.”

Comidas mais gordurosas são tratadas de forma lúdica. De vez em quando, ela e o marido permitem uma pizza ou um hambúrguer com queijo como refeição da família. O menino adora, mas também não deixa de vibrar com verduras e peixe cru, um de seus pratos favoritos.

“É muito fácil e super legal a criança repetir o que os pais fazem. O Luigi incorpora sem nenhuma dificuldade. Ele mesmo fala que vai comer verdinho pro intestino funcionar. A cozinha japonesa é uma das que meu filho mais gosta.”

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Desde os cinco meses Luigi faz, duas vezes por semana – e junto com Cris – aulas de natação. O contato precoce com a modalidade transforma o esporte em lazer. “Passamos os finais de semana na praia. Ele adora o mar e é totalmente independente na água", orgulha-se.

Além da dupla na piscina, o filho é companhia constante nas viagens que Cris faz pelo mundo afora para competir em maratonas – hoje menos profissional do que já fora, mais por vocação e paixão. "Ele vai comigo em 90% das viagens. Voltamos há pouco da Patagônia."

As histórias de sucesso, porém, não são receitas ou novos guias de autoajuda para as mães. Mostram, apenas, que o caminho é um só: antes de forçar os pequenos a comer chicória ou praticar uma atividade física, como reforçam os médicos, vale repensar a vida sedentária e pouco saudável que os pais têm.

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