Conheça a história de Jociene, que adotou três meninas de diferentes idades e teve que construir uma relação de amor

Mãe de três filhas, Jô nunca teve um bebê. As meninas, que hoje com o marido Beto formam sua família, chegaram a sua casa com idades entre dois e quinze anos. Embora não veja nenhuma diferença entre ser mãe adotiva e biológica, elas tiveram que trabalhar ainda mais duro que muitas mães e filhas para compensar o tempo em que suas vidas ainda não tinham se cruzado. Dizer mãe é naturalmente a primeira palavra da vida para a maioria das famílias, mas para Jô e suas filhas o "título" foi fruto de dedicação, compromisso e paciência.

“Minha primeira filha chegou para mim em 1996, sem a gente saber”. Nessa época, a assistente social Jociene França Ruiz tinha acabado de ser contratada pelo Lar Escola Cairbar Schutel, em São Paulo, onde trabalhava como voluntária havia cinco anos. Casada pela terceira vez, nem ela nem o marido tinham filhos. “Meus casamentos anteriores foram ‘namoros mais longos’, não duraram nem dois anos cada um. Não houve tempo de amadurecer a ideia de ter filhos. E com o Beto a gente começou a pensar, mas não foi nada programado”. De qualquer forma, os dois sempre gostaram muito de crianças: assim que Jociene foi contratada pelo abrigo, sugeriu que o marido trabalhasse como voluntário como ela tinha feito, e ele aceitou. Logo, mesmo sem filhos, cuidar de crianças passou a ser a vida dos dois.

E a história da maternidade de Jociene começa exatamente por causa da presença do marido no ambiente em que ela trabalha com as crianças. “Andréa tinha dois anos e quatro meses quando chegou e eu nunca vou me esquecer do primeiro dia. O Beto estava no dormitório das meninas e ela entrou, miudinha, raquítica, subnutrida. Correu para ele, agarrou suas pernas e falou ‘pai’. Logo no primeiro dia dela! Em quinze anos de abrigo, nunca aconteceu isso. Ele desmontou”, conta.

Edu Cesar/Fotoarena
Da esquerda para a direita: Andréa, Gleyce e Carina com a mãe Jociene

Escolhidos pela futura filha, Jociene e o marido passaram a estreitar os laços com a menina enquanto esperavam a chance de adotá-la. “Ela não se lembra de nada disso, mas eu lembro. Essa menina teve muitos problemas de saúde por causa da desnutrição. Até hoje tem sequelas por conta disso. Foi internada muitas vezes, e quem fazia o acompanhamento no hospital era o Beto. Então a ligação entre os dois foi muito grande. Houve época em que a gente achou que ela ia morrer, que não ia resistir, de tão fraquinha que era”, diz. “Nossa primeira filha foi uma história de amor muito grande com o Beto. Foi criando um vínculo cada vez mais forte comigo, mas principalmente com ele”. O casal passou então a levar a menina para casa nos finais de semana, fazer passeios, até que, quando Andréa tinha quatro anos e oito meses, virou oficialmente filha do casal.

“Durante esse processo, ela me dilacerava. Falava ‘tia Jô, me leva pra sua casa? Quero ir pra escolinha’. Eu pensava, meu Deus, como é que eu não vou levar essa menina pra minha casa? E prometia que ia fazer tudo que fosse possível, mas não sabia se ia conseguir”, conta, emocionada.

Andréa

Apesar da angústia dos anos de processo até que Andréa virasse sua filha, a parte mais difícil para Jociene veio depois. Mãe e filha tinham laços de afeto estreitos, mas o relacionamento entre as duas não veio tão fácil quanto aquele entre a menina e o pai. “De zero a dois anos é uma fase em que a criança precisa ser amada, estimulada, ela não teve isso. É difícil. Tivemos muitos problemas de relacionamento. Foi um teste para mim e para ela, tivemos que nos conquistar”, conta. “E ela era terrível, danadíssima, moleque. Sempre foi bonita, querida, mas muito geniosa”.

Para piorar, a ansiedade da mãe em dar uma nova vida à filha acabou causando mais tumulto na já naturalmente complicada transição pela qual Andréa estava passando. “Acho que eu fiz uma coisa muito errada, que não recomendo. Ela estudava numa escolinha municipal quando estava no abrigo, amava a escolinha, amava a professora. Mas minha cunhada é dona de uma escola particular e ofereceu uma vaga para ela assim que adotamos. E você acha que está fazendo o melhor, pondo numa escola particular. Eu devia ter esperado terminar o ano, mas nem passou pela minha cabeça. Só passava que eu queria dar a ela um novo tipo de vida, o melhor para minha filha. Mas agora eu sei que não foi o certo. E isso marcou a vida escolar dela para sempre”.

Andréa passou então a ter sérios problemas de disciplina na nova escola, que persistem até hoje – ela já repetiu de ano duas vezes. “É extremamente inteligente, mas só para o que interessa. Hoje trabalha como vendedora e se sai super bem, é muito querida, muito simpática, muito despachada. Preparada para a vida ela está. Mas a parte escolar dela ficou comprometida, e eu tenho impressão que é por causa do que aconteceu lá atrás”, acredita Jô.

Os problemas na escola eram apenas um dos aspectos complicados na relação entre as duas. Mãe e filha tiveram acompanhamento psicológico desde a chegada de Andréa até hoje. Mesmo assim, segundo Jociene, os primeiros anos foram de embate e testes emocionais em tempo integral. “Ela chegou muitas vezes a falar que queria voltar para o abrigo, que não queria mais morar aqui. Eu falava ‘então vamos arrumar suas coisas’. Ela abria um sorriso de orelha a orelha, e eu chorava. Me sentia rejeitadíssima”, lembra.

Carina

Por conta dessas dificuldades, ela resolveu entrar para um grupo de apoio à adoção. Mas a experiência a fez sentir ainda pior. “Eu ia às reuniões e ouvia que era tudo tão lindo e maravilhoso. Me sentia muito culpada, porque para mim era pesado e difícil”.

Mal suportando a carga da maternidade, não passava pela cabeça de Jô ter mais filhos. Mas dois anos depois da adoção de Andréa, Carina chegou ao abrigo.

A nova filha também foi um caso de amor à primeira vista, mas dessa vez com a mãe. “A assistente social do fórum foi levá-la ao abrigo, olhou para mim e já disse: ‘nem vem que não tem’. Olhei e me apaixonei. Ela tinha um ano e onze meses. Com dois anos e quatro meses já levei para casa”, conta. “Todo mundo se apaixona por ela, até o juiz se apaixonou. É uma boneca”, se derrama. Dessa vez, quem teve que se esforçar para construir um relacionamento foi o pai. “Ela não tinha ligação com ele. O Beto falava ‘como eu vou adotar essa menininha, se ela não gosta de mim?’ Aí foi a vez de ele ter o processo de conquista da filha”.

Jô não tem medo de dizer que a maternidade para ela não aconteceu de forma mágica. Pelo contrário. “Para eu me sentir realmente mãe da Andréa demorou bastante. Eu acho que só aconteceu quando adotei a Carina. Porque até então minha relação com a maternidade era só de embate, de medição de forças, era muito desgastante”, confessa.

Andréa participou de todo o processo que precedeu a chegada da irmã, e de tão envolvida na adoção até hoje acredita que foi ela quem a escolheu. Com a companhia da irmã, Andréa ficou mais dócil. “Só aí fui conhecer o lado gostoso, mais leve de ser mãe. Me ajudou a ter mais paciência e a entender melhor o lado da Andréa. Hoje nosso relacionamento tem muita alegria, é muito gostoso”, diz. “Fizemos terapia durante todo esse tempo. A gente pôde conversar, tivemos muitas oportunidades de ela colocar o que a incomodou, questionar por que eu fiz de um jeito e não de outro, pudemos ir limpando nossa história. Eu também não sabia ser mãe, fui aprender junto com ela. Foi importante para nós duas”.

Gleyce

Com Andréa e Carina, a família já estava estruturada e parecia completa. Mas havia uma menina que tinha chegado ao abrigo antes mesmo de Carina e já tinha ganhado o coração de Beto e Jô. Gleyce tinha sete anos quando entrou no Lar, e logo conquistou casal. Só que ela tinha mais dois irmãos, também no abrigo. Entre a impossibilidade financeira e prática de levar mais três crianças para casa, o amor pela menina e o medo de separar os irmãos, o tempo foi passando. Um dos meninos foi adotado aos dez anos, e devolvido ao abrigo cinco anos depois. O outro nunca foi adotado. Levar Gleyce era uma situação muito delicada.

Mas acabou acontecendo. “A minha terceira filha veio com quinze anos. Levei para passar férias em casa e foi indo, indo, indo...conversamos com ela para ver se queria e entramos com um termo de guarda definitiva. O pessoal do fórum ria muito de mim, porque eu dizia que todo mundo deveria adotar um adolescente. É muito gostoso, muito divertido”, diz Jô. Entre as diferenças da adoção de adolescentes, está o tempo de aceitação, diferente do das crianças pequenas. Gleyce demorou quatro anos para chamar Jociene de mãe pela primeira vez.

“Andrea me chamava de tia, mas depois que foi para casa, logo me chamou de mãe. Para Carina foi mais fácil, porque via a irmã falando. Mas Gleyce foi difícil, só este ano, aos 19 anos, começou a me chamar de mãe. Por isso foi o mais emocionante”. Desde que Gleyce se mudou para a casa da nova família, as irmãs falavam que “agora não é mais tia, agora é mãe”. Mas ela não conseguia. “Gleyce dizia que chamar de tia para ela tinha um significado muito maior do que mãe, que não representava uma coisa legal na vida dela. Eu dizia que para mim era importante”, afirma. “As pessoas diziam que eu não podia cobrar, mas eu respondia: ‘não posso uma ova, sou a mãe!’”, ri Jô.

No começo deste ano, mãe e filha tiveram um desentendimento sério. “Sentamos para conversar, ela falou todas as mágoas que tinha, os ressentimentos, as vezes em que eu a tratava diferente sem perceber. Na realidade, eu protegia muito mais ela, que reclamava porque não era tratada igual, e por causa da proteção não se sentia minha filha. Como é difícil!”, diz Jô. “Agora, a mesma bronca que eu dou nas outras, dou nela”, diverte-se. Após a conversa, Jô "virou" mãe para Gleyce naturalmente, que começou a chamá-la assim espontaneamente depois de acertarem as pontas do relacionamento.

Futuro

Depois das três filhas, Jô diz que, se pudesse escolher uma profissão, seria a de mãe. "Não seria nem assistente social, só mãe". E, para ela, a experiência fica cada vez melhor à medida que as meninas crescem: Gleyce tem 19 anos, Andréa tem 16 e a caçula Carina, 11 anos. “É ainda mais gostoso agora do que era quando eram pequenas. A cumplicidade é muito maior, elas vêm para minha cama, a gente dá muita risada, conversa muito. Eu acho que estou numa fase muito mais gostosa. São três cores e três personalidades completamente diferentes na minha família colorida. É uma delícia sair na rua com elas e ouvir todas me chamando de mãe”, conta.

Para o futuro, seu sonho é uma casa cheia de crianças, mas um pouco diferente. “Tem o lado de ser mãe, que realmente é muito gostoso e gratificante, mas tem também o lado de saber que você está fazendo a diferença na vida de alguém. O bebê todo mundo quer, mas eu penso muito naquela criança mais velha, aí é que me dói. As pessoas têm ainda muito essa coisa de querer alguém parecido, fingir que nasceu da barriga. A gente tem que respeitar. Mas acho que isso deveria ser mais trabalhado. Quem sabe não consigo um jeito de ajudar essas crianças, de reunir Gleyce e os outros irmãos, por exemplo?”, sonha.

“Não penso que gostaria de ter filho da barriga, é a mesma coisa. Gostaria de ter passado pela experiência de ter tido um bebê, mas isso não está descartado. No futuro, eu vejo uma família linda, e acho que vou ter mais crianças à minha volta”.

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