Conheça a história de Rejane, 33, que conta como cria sozinha três meninos, apesar de ter perdido o movimento das pernas

Quando Rejane Maria dos Santos perdeu o movimento das pernas, aos 31 anos, ela ainda amamentava o filho caçula no peito. O desmame foi feito no hospital onde ela foi operada para retirada de um tumor na medula. Antes da cirurgia, o médico já tinha avisado: ela não voltaria a andar. Rejane também já tinha conversado sobre as sequelas com seus três filhos, na época com doze, cinco e dois anos de idade. A decisão de desmamar foi tomada porque Raffael já estava crescido, e seria um risco desnecessário fazer com que fosse exposto de forma contínua a um ambiente hospitalar. De qualquer forma, quando Rejane voltou para casa, 26 dias depois, ela não conseguia sequer ficar sentada sozinha, o que dificultaria o processo de amamentar uma criança já grandinha.

Raffael, contrariado pelo desmame súbito, e confuso com a nova condição da mãe, a recebeu mal na volta para casa. Mas não foi o único. O marido de Rejane e pai das crianças, com quem ela estava desde os 14 anos, não conseguiu lidar com a nova realidade. Em menos de duas semanas, estava fora de sua vida.

“Passados 13 dias da minha recuperação, meu ex-marido se descontrolou por causa da minha doença. Ela já vinha com problemas de depressão e alcoolismo antes, e isso acentuou. Tive que mandar ele embora. Eu ia ficar com três filhos e quem ia cuidar de mim? Me transportar, colocar na cama, dar banho, trocar fralda? Ele não fazia. Quem cuidava de mim eram minha sogra e minha mãe”, lembra Rejane. O marido não aceitou bem a nova condição dela, muito menos sua decisão de se separar. “Acabei tendo que sair de casa. Ele se descontrolou, minha mãe correu para a rua com meu caçula e chamou a polícia para me tirar de casa”.

Rejane com os filhos Raffael e Pedro, e a mãe Severina
David Santos Jr / Foto Arena
Rejane com os filhos Raffael e Pedro, e a mãe Severina

Após três meses na casa da mãe, com sessões diárias de fisioterapia, Rejane começou a apresentar avanços. “Fui aos poucos melhorando a força dos meus braços, adquirindo controle de tronco”, diz. O marido ainda tinha ficado um mês na antiga casa dos dois. “Mas depois chamou um caminhão, pegou o que interessava para ele e foi embora. Aí voltei, comprei as coisas para repor, continuei com a fisioterapia e as crianças passaram a voltar a ir para a escola todos os dias em período integral”.

Adaptação

De cara, além da dificuldade da própria recuperação, ela teve que lidar também com a adaptação dos filhos diante de suas novas limitações. E, na verdade, até de uma certa inversão de papéis. “Tive que fazer radioterapia e me sentia muito mal. Eles ficavam pedindo ‘levanta, mãe; olha a lição’, e eu não tinha forças”. Ela conversou bastante com os filhos, antes e depois da cirurgia. “Minha mãe e a psicóloga também conversavam. Durante a terapia, eles externavam muita preocupação comigo. E eles têm, até hoje. Quando vou tomar banho, pedem pra eu não trancar a porta, ‘senão você cai e a gente não tem como te levantar’. Às vezes eu caio aqui dentro de casa, e são eles que têm que me levantar”.

Quatro meses depois da operação, Rejane fez aniversário e fez questão de festa. “Quis comemorar. Vieram os amigos, vizinhas, família, gente que eu conheci no hospital e até a médica”, conta. Tudo foi organizado e executado com a ajuda da mãe e da irmã, também responsáveis pela primeira festinha dos meninos após a cirurgia, poucos meses depois. Mas se as festas em casa transcorreram quase como antes, o mesmo não aconteceu quando ela foi ao primeiro evento de fim de ano da escola dos meninos. “Fui de cadeira de rodas. No fim, o Pedro, meu filho do meio, me pediu que eu não fosse da próxima vez, porque ele tinha vergonha. Disse que todo mundo ficava olhando e ele se sentia mal. Aí parei de participar”.

A nova condição da mãe e a partida do pai tiveram um impacto forte nos meninos do casal. “Eles ficaram muito revoltados, fazem terapia até hoje. Brigavam muito, e ainda brigam”, afirma. E se cuidar de três meninos sem limitações físicas já é complicado, Rejane teve que começar a adaptar seu cotidiano para o desafio de impor sua autoridade mesmo sentada. A mãe precisou criar alternativas para separar brigas e colocar de castigo, por exemplo, sem precisar se levantar para isso.

“A questão da posição muda muito. Tenho certeza que eles sabem que eu sou a mãe, eu que cuido. Mas como sabem da minha impossibilidade de correr, de pegar para colocar de castigo, tudo que eles não podiam fazer antes, eles fazem agora. Às vezes me descabelo e eles não estão nem aí”. Ela confessa que, para contornar isso, tem feito barganhas com as crianças em troca de obediência, embora ache que não é o ideal. E conta principalmente com o apoio do mais velho, Lucas, hoje com 14 anos. “Ele foi o mais afetado por essa mudança toda. Ficou no lugar do pai, e também como meu ajudante nos serviços da casa”.

Avanços

A operação de Rejane completou dois anos no começo de maio. Nesse período, ela conseguiu progressos mais do significativos: tem controle total de toda parte superior do corpo, consegue até ficar de pé por curtos períodos de tempo e, em momentos melhores, se arrisca a se deslocar de um cômodo para outro com a ajuda do andador. Ela não gosta da cadeira de rodas, e a evita a todo custo – dentro de casa, por exemplo, nunca usa.

Quando o médico disse que ela não voltaria a andar, Rejane conta que se "desesperou". "Mas pensei: ‘vamos esperar para ver como fica’. E nunca aceitei essa idéia, sempre tive a esperança e a convicção de que eu iria melhorar”. Cada novo movimento conquistado ajuda também a normalizar o cotidiano com os filhos. “Hoje eu já consigo acordar cedo para encaminhar eles para a escola, consigo vesti-los, pentear o cabelo, faço leite de manhã”.

Agora, Rejane quer criar confiança e força para poder sair de casa – coisa que hoje não faz nem com cadeira de rodas. “Quero fazer faculdade no ano que vem. Não penso em relacionamentos hoje, mas no futuro sim. O que eu tenho de alternativa vai ter que ser como eu quero, na hora que eu quero, e que seja o melhor pra mim. E o que não for melhor pra mim eu vou tirar do meu caminho”.

Contrariando o bom senso, Rejane não fez nenhuma adaptação em sua casa. Mas acha que muito disso e da rejeição à cadeira de rodas vêm do fato de não aceitar sua condição. E que talvez isso a esteja ajudando a ir em frente. “Eu procuro ser o mais livre possível para não criar nenhuma dependência. Porque depois que eu colocar na cabeça que eu vou ficar naquela cadeira, que é mais cômodo e tudo, eu não vou conseguir evoluir. Minha expectativa é que mesmo que eu não possa fazer grandes coisas, eu consiga pelo menos circular aqui no bairro. Vou ter que dar um jeito, porque parada eu não posso ficar. Mesmo que eu me aposente, tenho que ter alguma perspectiva de vida dentro da minha condição”.

O avanço de Rejane foi surpreendente até para ela mesma. Mas não para a outra mãe envolvida nessa história. Severina, a mãe dela, também teve sua luta particular: viu a filha perder o movimento das pernas e ficar sozinha com três filhos para criar, voltando a depender dela para boa parte das coisas. Para Severina, não há nada nessa história que não tenha sido difícil. Mas ela sempre acreditou na melhora da filha. “Eu esperava sim. A gente tem que querer que amanhã seja um dia melhor, e a minha esperança é que Deus vai ser maravilhoso com ela porque ela tem três filhos para criar”.

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