Histórias com finais felizes de garotas que tiveram filhos na adolescência e tocaram a bola pra frente

“Chamei minha mãe para conversar junto com o meu namorado, disse que era sério e que envolvia também o Felipe. Ela perguntou, brincando: ‘O que foi? Tá grávida?’ – e começou a dar risada, como se fosse a maior piada do mundo. Eu falei que sim e comecei a chorar”, lembra Mônica*, pernambucana de 17 anos, mãe de um garoto de 2. “Hoje eu posso rir disso tudo, mas na hora foi horrível”.

O Ministério da Saúde aponta que todo ano nascem, em média, 1,1 milhão de filhos de adolescentes. Ainda que muitas vezes não planejada, atribulada e terrivelmente difícil de assumir para os pais, esse tipo de gestação – e as responsabilidades que ela traz – pode acabar, ao contrário do que se pensa, ajudando a colocar nos trilhos a vida de muitas garotas, que hoje também podem “rir disso tudo”.

A gravidez adolescente é responsável por 7,6% dos nascimentos de crianças no Brasil, segundo dados do IBGE publicados em 2008. Silvia Morelli, hoje com 35 anos, fez parte dessa estatística. Assim como muitas mães adolescentes, ela insistiu em dar uma vida boa ao filho. Continuou a estudar e foi trabalhar. Alcançou a independência, mas pagou um preço.

“A única coisa que me deixa triste é ter perdido tantos momentos importantes. O fato de ter que trabalhar e estudar e viver numa correria danada fez com que muitas coisas fossem deixadas meio que de lado”, reflete.

“Gostaria de ter tido mais tempo para brincar e acompanhar o desenvolvimento do meu filho, de ter tido mais bom humor com suas travessuras e de ter estado mais presente”.

Silvia Morelli, 35, e o filho, de 19 anos
Acervo pessoal
Silvia Morelli, 35, e o filho, de 19 anos

Hoje, quase 20 anos depois de ter-se tornado mãe, ela quer acertar as contas com o tempo perdido.

“Eu brinco que hoje sou meio adolescente, agora que meu filho é adulto é que estou aproveitando para viajar, ler, estudar e todas as coisas que eu tive que deixar de fazer. Aos 16 anos [quando engravidou] você deve passar as noites de sábado com os amigos, dançando, e não trocando fraldas e dando mamadeiras”, brinca.

Para a jornalista Gabrielle Chimento Alves Massarão, 30, o processo de chegar à maturidade após o nascimento do filho Léo, concebido quando ela tinha 17 anos, também aconteceu, mas não foi simples.

“Foi difícil criá-lo, mas eu o amava demais. Rolavam aquelas coisas de adolescente preguiçosa, sabe? Acordar cedo, ter sempre uma pendência para resolver, compromissos escolares... Também passei muita vergonha, vivia me justificando, até dizia que tinha sido planejado. Hoje sou resolvida com isso”, conta.

“Meus planos eram outros”
O número de grávidas adolescentes pode estar diminuindo nos grandes centros urbanos do país. A Secretaria de Saúde de São Paulo afirma que 2008 foi o primeiro ano em que menos de 100 mil garotas ficaram grávidas no Estado: foram 96.554, uma redução de 34,7% em relação a 1998 – os estudos de 2009 ainda não foram divulgados pelos órgãos públicos.

Apesar da vontade de dar o melhor pelos filhos, as garotas que vivem hoje o turbilhão da gravidez na adolescência ainda vêem um futuro incerto e buscam apoio nos pais.

“Minha mãe falou que não vou casar porque sou muito nova. Eu penso em casar, mas mais para frente. Por enquanto, continuo morando com meus pais, e meu namorado com os pais dele, mas ele está sempre comigo”, explica Paola Araújo, de 14 anos, grávida há sete meses.

“Estou me preparando psicologicamente sozinha. Dá muito medo de dar banho, por exemplo, mas minha mãe vai me ajudar”.

Entre as dificuldades que grávidas adolescentes sofrem pode estar a falta de apoio dos amigos, como conta Jéssica Lopes, de 18 anos.

“As pessoas perguntam se nós [ela e seu noivo] somos loucos e falam que eu fiz burrada. Eu não esperava por essa gravidez, já estava assustada com ela. E as pessoas ainda ficam me colocando para baixo”, diz.

“Fiquei mal com isso e tive até depressão”. A estudante e seu noivo estão morando juntos e esperam a filha Alice para o mês que vem.

“Estou curtindo o barrigão e cada mês que passa é uma experiência nova. Estou superconfiante e sei que vou me sair bem.”

Mesmo com pouca idade, elas têm consciência de que a vida será mudada para sempre. E, possivelmente, para melhor.

“Meus planos antes da gravidez eram totalmente diferentes. Eu e o pai da Luna iríamos morar juntos neste ano, eu era modelo e ia entrar na faculdade”, conta Débora Regina Mariano Teixeira, de 18 anos, grávida há seis meses.

“Larguei o trabalho, desisti da faculdade e terminei o namoro. Mas falando isso agora é como se não fizesse diferença perder todas essas coisas. Já sou muito apaixonada por ela”.

E, como qualquer adolescente, elas não deixam de imaginar um futuro bacana.

“Meu plano agora é terminar a escola. No meio do ano começo supletivo. Acho fundamental um estudo. Depois quero prestar uma faculdade”, diz Karina Aparecida Martinez, de 19 anos, mãe há um ano.

“Com 30 anos, quero estar formada, estável, morando em uma casa minha e do meu filho, com meu carro. Quem sabe casada e com uma filha, com minha clínica de psicologia e com uma ONG para grávidas adolescentes, ajudando e cuidando”, sonha.

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