Em aldeia indígena, mães convivem com as tradições e o novo

Índias Parkatejê amamentam os filhos até os cinco anos e querem ser mães de advogados e médicos

Anderson Dezan, enviado especial a Marabá (PA) |

Atarkwyti já nasceu comprometida com seu marido. Aos nove anos, ficou noiva. No ano seguinte, se casou. E aos 13 anos, teve o primeiro de seus seis filhos. A vida precoce, que pode causar espanto em muitas pessoas, para ela é tida como normal. Atarkwyti faz parte da comunidade indígena Parkatejê, que vive em uma aldeia no município de Bom Jesus de Tocantins, no sudeste do Estado do Pará.

Anderson Dezan, enviado especial a Marabá (PA)
Atarkwyti recebendo o carinho de três filhos
“Na época, não sabia direito o que estava acontecendo e tive que me acostumar. Hoje, graças a Deus, sou feliz. Estou com meu marido que eu amo e tenho meus filhos”, diz a mulher de 28 anos. Sorridente, ela fala português claramente, assim como a maior parte dos integrantes mais jovens da comunidade.

Criar os filhos em uma aldeia com mais de 62 mil hectares de terra provavelmente seria uma dor de cabeça para muitas mães urbanas. A possibilidade de seus filhos se machucarem e se perderem, por exemplo, são preocupações comuns a brasileiras que vivem em espaços muito mais confinados. Para Atarkwyti, no entanto, isso não é um problema. Pelo contrário.

Segundo ela, a principal diferença de criar os filhos em uma aldeia indígena e não em uma cidade é não ter que se preocupar com a segurança das crianças. A aldeia é considerada um local seguro e tranquilo. “Aqui não tem perigo algum. Eles ficam livres e à vontade. Índio é assim, desde criança já sabe se cuidar sozinho”, conta.

Mãe de seis filhos e avó de tantos netos que já perdeu a conta, Tutaki se mostra mais precavida. “A aldeia é segura, mas eu não deixava meus filhos irem para muito longe. Eles podiam cair e quebrar o braço ou algum bicho podia mordê-los”, relembra a avó, que não sabe a própria idade – fato comum entre os mais velhos da aldeia. “Não sei quantos anos tenho porque nasci no mato”, relata.

Anderson Dezan, enviado especial a Marabá (PA)
Tutaki cercada por alguns filhos e netos
Alimentação e tradições

Cercados pela floresta Amazônica, os índios Parkatejê possuem uma alimentação repleta de frutas e legumes. Cupuaçu, açaí, inhame, aipim, batata, abóbora e castanha-do-pará estão entre os alimentos frequentemente usados na culinária local. Para as crianças, nada de papinhas compradas em supermercados. Com menos de 1 ano, elas já começam a comer os mesmos alimentos que os adultos.

“Até oito meses, só amamentamos. Após essa idade, começamos a dar os legumes e as frutas que colhemos na aldeia. Amassamos bem e damos para o bebê. O leite materno também continua e, muitas vezes, eles são amamentados até os cinco ou seis anos”, diz Atarkwyti.

Se a alimentação tradicional é rigorosamente passada das mães para os filhos, elas não encontram a mesma facilidade para repassar a cultura Parkatejê. No mundo atual, os indígenas estudam, cursam faculdade e trabalham – atividades de “kupens” (homens brancos). Manter a ligação com o mundo moderno e ao mesmo com suas tradições muitas vezes é uma tarefa difícil. Mas não impossível.

“Espero que os meus filhos busquem os dois lados. Quero que estudem e se formem para que no futuro possam proteger os tios, os pais e os avós. Mas eles também têm que valorizar a própria cultura. Não podemos deixar a tradição de nossos antepassados se perder”, avalia Atarkwyti, que coloca sua filha caçula de dois anos para dormir ao som de cantigas indígenas e incentiva os demais filhos a participarem das atividades culturais da aldeia, como danças e rituais.

Anderson Dezan, enviado especial a Marabá (PA)
Jonprymanpeti com a filha e o marido
Modernidade

Adolescente e mãe, Jonprymanpeti conhece de perto a dualidade tradição versus modernidade. Assim como Atarkwyti, ela também se casou cedo. A jovem, entretanto, não nasceu já prometida ao marido. Os dois se conhecem desde a infância e, no início da adolescência, começaram a namorar. Quando tinha 15 anos – e ele 16 – formalizou a união com o consentimento dos pais. Hoje, aos 18, tem uma filha de dois anos.

“Conheço o meu marido desde pequena. No início, tinha raiva dele porque ele já tinha brigado com meu irmão. Mas, com o tempo, esse sentimento foi mudando”, conta a adolescente, tímida e de voz baixa.

Pela manhã, a jovem – que mora com o marido na casa da sogra – cuida da filha e dos afazeres domésticos. À tarde, trabalha na faxina da escola onde estuda à noite. Sua vontade sempre foi ser advogada para ajudar a própria comunidade. Por considerar o sonho como algo difícil de ser alcançado, o repassou para a filha.

“Espero que ela não tenha filhos tão cedo como eu tive e que estude. Também quero passar para ela a nossa cultura. Minha sogra diz para eu falar com minha filha na nossa língua, mas não sei muitas coisas. O que sei, falo e ensino. Acho importante resgatar a tradição indígena”, diz a jovem, evangélica e fã de novelas, principalmente “O Clone” e “Insensato Coração”.

As dificuldades e inseguranças naturais às mães de primeira viagem de qualquer origem cultural também estão presentes no dia-a-dia de Jonprymanpeti. “Quando a criança adoece é muito ruim. Ela já ficou dois dias internada no hospital, chorando direto. Eu também chorava por vê-la sofrer”. Questionada se quer ter mais filhos, já que está no auge da juventude, ela é categórica. “Não agora. Criar só ela já é difícil, imagine criar outros”, avalia. As índias Parkatejê já não são mais as mesmas.

* o repórter viajou a convite da Vale

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